No tabuleiro da guerra moderna, nada acontece por acaso. Enquanto o mundo assiste ao escalar das tensões, é preciso compreender que estamos perante um choque calculado de objetivos entre potências globais e regionais. Neste artigo, analiso a arquitetura da estratégia iraniana, os perigos reais nos estreitos marítimos e as razões que tornam este conflito uma ameaça existencial sem precedentes.
Em regra, quando um país decide entrar em guerra, ele sabe com quem está a lidar. Com a espionagem moderna altamente desenvolvida, os governos 'contam as espingardas' do inimigo antes do primeiro disparo. A meu ver, não houve erro de cálculo, mas sim um choque de objetivos: os EUA buscam conter a China, enquanto Israel enfrenta uma questão existencial.
O arsenal oculto do Irão — túneis quilométricos repletos de mísseis de longo alcance — justifica o temor histórico israelita. Os tentáculos de Polvo (governo de Teerão) cercaram o Médio Oriente, do Iraque ao Líbano, passando por Gaza, Cisjordânia e Iêmen. Assim, o Irão controla indiretamente o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. O regime fornece ideologia, financiamento e armas pesadas a grupos extremistas, ordenando ataques enquanto permanece oficialmente impune sob o manto de Estado soberano na ONU.
Embora ainda não possua a bomba atômica, o enriquecimento de urânio em níveis muito superiores ao necessário para fins energéticos revela as suas intenções. O risco atual é o bloqueio do Mar Vermelho pelos Houthis, o que estrangularia o Canal de Suez, prejudicando o Egito, a Arábia Saudita e a Europa. Tudo indica que o Irão antecipou este cenário; sua arquitetura de guerra e os atentados — do caso AMIA ao massacre de 07/10 — parecem armadilhas meticulosas. Até a possível eliminação de seus altos escalões é absorvida pela ideologia do martírio e pelo objetivo da expansão do xiismo.
O conflito tende a alastrar-se devido à vulnerabilidade dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. A estratégia iraniana é clara: usar escudos humanos e infraestrutura civil (escolas e hospitais) para proteger plataformas de lançamento, como faz o Hamas, garantindo que qualquer contra-ataque resulte em tragédias humanitárias.
Por fim, a ideia de um golpe de Estado interno no Irão parece distante, dada a sua imensa máquina de repressão. O regime dificilmente cairá sem uma capitulação imposta por forças externas, o que implicaria uma guerra terrestre, que poderia levar alguns anos ou, para acelerar o fim, o risco de uma catástrofe maior. Oxalá não cheguemos a esse ponto.
Autor Filipe de Freitas Leal
sábado, março 21, 2026
Filipe de Freitas Leal


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