sexta-feira, 17 de abril de 2026

Conflito Israelo-Árabe: Uma Tragédia em Camadas Sobrepostas (Parte I)

"O Testemunho do Exílio: Relevo do Arco de Tito (Roma, c. 81 d.C.), retratando os despojos do Templo de Jerusalém sendo levados pelos romanos. Este monumento em pedra imortaliza a vitória do Império sobre o Reino da Judeia, marcando o início da Diáspora e a renomeação da região para Palestina — um evento de há dois mil anos cujas ondas de choque ainda moldam o cenário geopolítico e teológico do Médio Oriente hoje."






Muitas vezes acredita-se que o conflito no Médio Oriente teve início em 1948. No entanto, um olhar atento à história revela que esta é, na verdade, uma tragédia de milénios, onde camadas teológicas e políticas se sobrepuseram para criar o impasse atual. Para compreender o presente, é preciso escavar o passado — de Roma à Europa Moderna, do dogma cristão à ortodoxia islâmica.

O Solo Sagrado - a Dimensão Teológica Islâmica 

O Islão, surgiu no  ano 622 EC, século VII, pelo Profeta Mohammed (Maomé) e tem uma mundivisão, na qual divide o mundo de forma binária: o Dar Al-Islam (Casa do Islão), indissociável do conceito de Waqf (património sagrado inalienável), e o Dar Al-Harb (Casa da Guerra), o mundo ainda por converter ou conquistar. Neste sentido, para a ortodoxia islâmica, a existência de Israel é vista como uma conspurcação ou um sacrilégio de um solo que se tornou sagrado.
De acordo com a doutrina tradicional, uma vez que uma terra foi integrada ao Dar al-Islam, ela deve pertencer a essa esfera para sempre. A criação de um Estado não-muçulmano em solo que foi governado pelo Islão por séculos — desde a conquista de Omar no século VII, tendo o intervalo do Reino Cristão de Jerusalém que foi conquistada aos cruzados em 2 de outubro de 1187 pelo líder muçulmano Saladino (Salah ad-Din) — é vista como uma regressão inaceitável. Na tradição corânica, judeus e demais infiéis, incluíndo os cristão, deveriam viver sob a condição de dhimmis (minorias protegidas, mas subordinadas). Estes conceitos estão na base religiosa do confronto.

As Raízes Europeias do Conflito - a Dimensão Cristã

Contudo, o problema moderno tem raízes profundas na Europa. Se na dimensão islâmica o obstáculo era o dogma do solo sagrado, na dimensão cristã europeia imperou o dogma do Deicídio. O Império Romano iniciou a Diáspora forçada e a renomeação da Judeia para Palestina. A partir de Constantino, (que não era batizado) foi oficializada a religião cristã, e feitos concílios onde se iniciou a marginalização dos judeus de forma institucional, nomeadamente com a Teologia da Substituição, em que os judeus por terem morto Jesus e não o  terem reconhecido como Messias deixaram de ser na ótica cristã, o povo de Deus, e é este o elemento que fundamentou o Antissemitismo na Europa cristã.
Ao longo dos séculos, essa exclusão assumiu formas violentas: expulsões em massa (como na Inglaterra e França medievais), o terror da Inquisição na Península Ibérica e os sangrentos pogroms na Europa de Leste e Rússia. A essa pressão somou-se a dimensão judaica, que é a própria resiliência do povo judeu na preservação da sua identidade, etnia, religião e cultura distinta que os mantinha como um povo separado, não apenas pelas comunidades israelitas espalhadas pelo mundo, mas também pelos guetos.

Das Revoluções Liberais ao Nacionalismo - a Dimensão Política.

Com o surgimento dos Estados-nação, fruto das revoluções liberais do fim do século XVIII e no início do século XIX, como fruto da Revolução Francesa, os judeus passaram a ser vistos como o "elemento estranho". A Europa de forma endémica, ansiava por ver-se livre dos judeus, e para alimentar este ódio, surgiram ferramentas de propaganda como os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação da polícia secreta czarista para culpar os judeus pelas agitações sociais. Quando a tentativa de integração via Haskalá (Iluminismo Judaico) faliu perante este antissemitismo sistémico, nasceu o Sionismo. Este movimento de autodeterminação foi, por fim, tragicamente validado pelo Holocausto, devido à exclusão que culminou na criação dos guetos na Europa do Leste durante a ocupação nazi, onde centenas de milhares de pessoas, como no caso de Varsóvia, foram empilhadas em condições subumanas de fome e doenças em áreas de apenas 3 km², transformando bairros históricos em antecâmaras para o extermínio. Assim, o Sionismo não foi uma ideolgia e nem sequer uma escolha opcional, mas a única saída para um problema profundamente europeu, tendo em conta a sua origem histórica e geografica.

O Testemunho da Pedra - a Dimensão Documental dos Factos Históricos 

A imagem que ilustra esta reflexão é a do Arco do Triunfo de Tito, em Roma. Ele é o testemunho histórico da guerra romano-judaica. Ali, gravada na pedra, está a prova de que o passado de há dois mil anos nunca deixou de estar presente nos dias atuais.
Resta-me dizer ainda, que não me cabe a competência de resolver o conflito, nem a pretensão de tomar partido como se de um jogo se tratasse. Cabe-me sim, o desejo pela paz e o esforço para compreender as raízes deste confronto, e procuro fundamentar o meu ponto de vista em dados históricos concretos em vez de narrativas ideológicas que ignoram a verdade dos factos.

Bibliografia Consultada

Para dar "qualidade e referências" a este estudo, consultei as seguintes obras de referência:
  • BENSOUSSAN, George. As Origens do Conflito Israelo-Árabe (1870-1950). Lisboa: Editora Guerra & Paz, 2009.
    (Preferi esta edição de Portugal, por ser-me a mais acessível do que a edição original no idioma francês).
  • ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
    (Nota: No Brasil, o volume que contém "A Origem do Antissemitismo Moderno" é publicado pela Companhia das Letras).
  • HERZL, Theodor. O Estado Judeu. Lisboa: Antígona, 2009.
    (Preferi esta edição de Portugal, por ser a mais atual e acessível no idioma).
  • MORRIS, Benny. The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947–1949. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
    (Nota: Não existe edição portuguesa deste título específico. A obra do autor publicada no Brasil é "Um Estado, Dois Estados", pela Editora Sêfer que irei consultar para a segunda parte da introdução).
  • ROSS, Dennis. The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2004.
    (Nota: Permanece a edição original em inglês, pois não há tradução para o português no Brasil ou em Portugal até o momento).
  • YE'OR, Bat. The Dhimmi: Jews and Christians Under Islam. London: Fairleigh Dickinson University Press, 1985.
    (Nota: Obra sem tradução para o português; utiliza-se a referência internacional padrão).
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Este artigo tem continuação na Parte II ainda a ser elaborada. Previsão entre uma a duas semanas.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

De Foucault ao Hamas: Por que a Academia ignora o Mal?


Como é que se pode estar do lado errado da História no que toca a Israel x Irão, que é uma luta que colocou desde 1979 a causa palestiniana como pano de fundo e em segund plano?
Esta é a pergunta fundamental que muitos analistas se colocam hoje, e a resposta reside no que podemos chamar de "curto-circuito ideológico", este tema é compreendido pelo apoio de Michel Foucault e as falhas da academia.
Existem quatro mecanismos principais que explicam por que pessoas com formação e valores progressistas acabam por alinhar-se com uma teocracia como a do Irão:
1. O Filtro do Pós-Colonialismo (A "Luta do Oprimido")
Na narrativa da esquerda moderna, o mundo é dividido binariamente entre opressores (colonizadores) e oprimidos (colonizados).
Como Israel é uma potência militar tecnológica e aliada do Ocidente, é automaticamente classificado como "opressor".
O Irão e os seus proxies (Hamas, Hezbollah) apresentam-se como a "resistência" contra o imperialismo ocidental.
O erro: Este filtro ignora que o Irão é, ele próprio, uma potência imperialista regional que coloniza ideologicamente e militarmente países como o Líbano, a Síria e o Iémen, destruindo a sua soberania.
Em resumo o Inimigo do meu Inimigo é meu amigo, é aqui que a influência de Foucault ajudou a consolidar na Esquerda a ideia de que o "Imperialismo" é o mal supremo e dentro desta lógica, qualquer força que se oponha aos Estados Unidos ou a Israel (vistos como extensões do poder ocidental) é vista como "progressista" ou "libertadora", mesmo que essa força seja uma ditadura.
2. O Interseccionalismo Mal Aplicado
O conceito de interseccionalidade sugere que todas as formas de opressão estão ligadas. Assim, muitos jovens ativistas acreditam que lutar pelos direitos das minorias no Ocidente é o mesmo que apoiar o Hamas ou o Irão contra Israel.
O paradoxo: Ativistas de causas LGBTQ+ ou feministas apoiam regimes que, se estivessem sob o seu domínio, os prenderiam ou executariam. Eles sacrificam os seus próprios valores universais (direitos humanos) em nome de uma aliança política contra um "inimigo comum" (o Ocidente/Capitalismo).
3. A "Culpa Ocidental" e o Relativismo Cultural
Há uma tendência no Centro-Esquerda de evitar críticas a culturas não-ocidentais para não parecer "islamofóbico" ou "racista".
Isso gera um relativismo cultural perigoso: o que é considerado inaceitável em Paris ou Lisboa (como a opressão das mulheres ou a perseguição de dissidentes) é "perdoado" ou ignorado quando praticado pelo regime de Teerão, sob a desculpa de ser "a cultura deles" ou uma "reação ao imperialismo".
4. O Desconhecimento da Escatologia (A Falta de "Óculos Religiosos")
Como os jovens e adultos formados no Ocidente são, na sua maioria, secularizados ou laicos, eles não conseguem conceber que alguém tome decisões políticas baseadas em profecias do século VII.
Eles acreditam que o Irão quer "acordos" ou "território", porque é assim que o Ocidente pensa.
Eles não acreditam quando o regime diz que quer a eliminação física de Israel por razões teológicas (o Waqf e o Mahdi que eu descrevi em artigos anteriores). Para o esquerdistas ocidentais, isto soa a retórica exagerada; mas para o Aiatolá, é um mandamento divino.
A análise do apoio de Michel Foucault à Revolução Iraniana de 1979 é, talvez, o caso de estudo mais fascinante para explicar como o pensamento pós-estruturalista abriu uma brecha na Esquerda para a aceitação de regimes teocráticos ou autoritários mesmo não sendo regimes de Esquerda, como o Irão, ou até compreender o apoio a Organizações terroristas que no seu âmago se assemelham mais a organizaçções nazi-fascistas como o Hamas e o Hezbollah.
Para o livro que estou a escrever sobre este assunto, este é o ponto crucial, porque explica a "genealogia do erro" da intelectualidade atual no Ocidente (Europa e as Américas). Aqui estão os pontos fundamentais para compreender essa influência:
1. A Crítica ao Esclarecimento (Iluminismo)
Foucault foi um dos grandes críticos da razão ocidental. Para ele, o que chamamos de "progresso" ou "razão" eram apenas formas sofisticadas de controlo e poder (biopoder).
A consequência: Ao desconstruir a validade universal dos valores ocidentais (como a democracia liberal), ele deixou a Esquerda sem uma "régua moral" para julgar outros sistemas. Se a razão ocidental é apenas "uma forma de poder", então a teocracia iraniana passa a ser vista apenas como "outra forma", igualmente legítima na sua resistência ao Ocidente.
2. A "Espiritualidade Política"
Foucault viajou para o Irão em 1978 e 1979. Ele ficou hipnotizado pelo que chamou de "espiritualidade política". Para ele, os iranianos não estavam apenas a lutar por salários ou por um novo governo, mas por uma transformação da alma através da religião.
O erro de perceção: Foucault, sendo um ateu e crítico das instituições europeias, projectou no Islão político uma pureza revolucionária que ele achava que o marxismo tinha perdido. Ele ignorou que essa "espiritualidade" incluía a execução de homossexuais, a opressão das mulheres e o fim das liberdades individuais, que colocou o regime iraniano ao nível do regime nazi-fascista da Alemanha do III Reich.
3. O Anti-Humanismo Teórico
Foucault famosamente declarou a "morte do Homem". Ao remover o indivíduo do centro da análise política e substituí-lo por "estruturas de poder", ele facilitou que a Esquerda ignorasse o sofrimento individual em nome de causas coletivas ou anticoloniais.
Se o "Indivíduo" não importa, então o sacrifício de milhares de pessoas sob o regime de Teerão é visto como um detalhe necessário na "luta contra a hegemonia".
Ao trocar o Humanismo Universal (que defenderia Israel como uma democracia e condenaria o Irão como uma tirania) pelo Relativismo Cultural (que defende o Irão como uma "resistência cultural"), a Esquerda perdeu o seu norte, a sua orientação fundamental.
Esta secção é um excelente complemento para o capítulo sobre a "Miopia do Ocidente", que prova que o problema não é falta de informação, mas sim uma estrutura filosófica que impede de ver o mal quando ele se apresenta como "anticolonial".

 
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