Será que as pautas da justiça social são património exclusivo de uma ideologia? Ao confrontar a retórica da Nova Esquerda com a profundidade de documentos como a Rerum Novarum, percebemos que a defesa dos oprimidos não exige a negação da história. Este texto analisa o perigo de transformar a luta anticolonial num escudo para regimes despóticos.
A Nova Esquerda — ou, mais precisamente, a moderna Esquerda Radical — tende a analisar questões atuais sob o viés histórico do colonialismo, do esclavagismo, do racismo e da libertação dos povos. Essa postura consolidou um posicionamento ideológico contra o sionismo e a própria existência de Israel. Contudo, essa visão acaba, por vezes, amparando regimes como o dos aiatolás, silenciando perante as injustiças e massacres cometidos pelo regime teocrático e ditatorial do Irã.
Ao analisarmos as bases teóricas da crítica esquerdista ao sionismo, destaca-se o argumento anticolonialista que acusa Israel de ser um projeto de colonização. Todavia, essa premissa ignora que o colonialismo na África e na Ásia persistiu até o século XX e que a presença judaica na Palestina foi contínua, chegando a representar um terço da população local no período do mandato britânico. Além disso, ao classificar Israel meramente como "colônia", nega-se que a migração dos judeus europeus foi uma fuga desesperada da perseguição nazi-fascista.
Outro pilar dessa crítica é a luta antiesclavagista direcionada às potências europeias e aos EUA. Embora o esclavagismo tenha sido uma realidade até o final do século XIX, tanto ele quanto o colonialismo são fatos pretéritos. As sequelas socioeconômicas atuais não se resolvem no passado, mas sim no presente e a longo prazo. Tais soluções não emergem de retóricas ideológicas sectárias ou da reescrita da história — prática comum em regimes despóticos —, mas de políticas públicas que combatam a desigualdade e defendam os direitos humanos.
É importante notar que essas pautas não são patrimônio exclusivo da esquerda ou da direita. Prova disso é a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891), que abordou as questões sociais e laborais de forma mais lúcida e menos retórica que as doutrinas de esquerda da época. A atualidade do documento é tamanha que, após atualizações no papado de João Paulo II, serviu de base para o Socialismo Cristão e a Democracia Cristã.
Autor Filipe de Freitas Leal
domingo, março 08, 2026
Filipe de Freitas Leal


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