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terça-feira, 16 de junho de 2026

Acordo EUA e Irão - Estratégia ou Traição?


Aparentemente, os EUA mudaram sua postura com Israel e fecharam um acordo com o Irão. Essa decisão promete o fim das lutas e a abertura do Estreito de Ormuz. Enquanto Washington chama a mudança de pragmatismo, Jerusalém fala em traição e Teerão comemora uma vitória.

Contudo, ainda não há vencedores reais. O regime dos aiatolás continua de pé. Israel não venceu a guerra e ficou isolado diante de um perigo que continua vivo, e por fim os EUA conseguem um acordo para salvar a face e algo mais.
Mas será que as coisas mudaram tanto assim da noite para o dia? Há motivos para acreditar que esse isolamento de Israel não é um erro e nem uma traição, mas sim uma escolha estratégica. Existe uma clara jogada política, económica e militar por trás disso.
1. Estratégia Política
O presidente Donald Trump não pode se reeleger, no entanto, precisa que seu partido vença as próximas eleições intercalares para manter a maioria no Congresso e o Senado. Do mesmo modo, em Israel Benjamin Netanyahu quer garantir a sua continuidade no poder. O isolamento pode unir o povo de Israel contra um inimigo comum. Diante de uma luta pela sobrevivência, Netanyahu pode voltar a ser visto pelos cidadãos como a única opção segura.
2. Estratégia Económica
O plano principal é evitar que a crise piore e cause um colapso financeiro a nível mundial. Reabrir as rotas de comércio ajuda a travar o aumento da inflação e do desemprego, protegendo a economia global e, principalmente, a estadunidense.
3. Estratégia Militar
Ao deixar Israel isolado, o governo e as IDF ganham espaço de manobra para se defender sem colocar os soldados dos EUA no meio do conflito e sem trazer complicações diplomáticas para Washington. Além disso, a situação serve como um teste. O mundo verá até onde o Irão está disposto a cumprir o acordo, ou até onde é capaz de ir para além de vingar-se, cumprir a sua promessa ideológica e escatológica destruição de Israel.
O Verdadeiro Desafio
Fazer uma guerra sem fim contra o Irão não trará resultados definitivos. O verdadeiro desafio agora é outro. O futuro da região depende de descobrir quem, dentro do próprio governo iraniano, está pronto para mudar o regime por dentro. Além disto tudo, a capacidade militar do Irão por hora está reduzida, o Hamas está destruido, o Hezbollá no Libano está isolado desde o acordo de Israel com o governo libanês, os houties no Iemen, foram atacados e estão enfraquecidos, não é uma vitória para Israel, mas com o enfraquecimento do Eixo da Resistência é um bom recomeço.
English Version

US-Iran Agreement - Strategy or Treason?

The Strategic Shift in the Middle East

by Filipe de Freitas Leal

Apparently, the US has shifted its stance toward Israel and struck a deal with Iran. This decision promises an end to the fighting and the reopening of the Strait of Hormuz. While Washington calls this move pragmatism, Jerusalem decries it as a betrayal, and Tehran celebrates a victory.

However, there are no real winners yet. The ayatollah regime remains standing. Israel did not win the war and finds itself isolated in the face of a danger that remains very much alive. Finally, the US secures a deal to save face and perhaps a bit more.

But have things really changed so drastically overnight? There is reason to believe that Israel's isolation is neither a mistake nor a betrayal, but rather a strategic choice. There is a clear political, economic, and military play behind it.

1. Political Strategy

President Donald Trump cannot run for reelection; however, he needs his party to win the upcoming midterm elections to maintain the majority in the House and the Senate. Similarly, in Israel, Benjamin Netanyahu wants to ensure his political survival. This isolation could unite the people of Israel against a common enemy. Faced with a fight for survival, Netanyahu could once again be seen by citizens as the only safe option.

2. Economic Strategy

The primary plan is to prevent the crisis from worsening and triggering a global financial collapse. Reopening trade routes helps curb rising inflation and unemployment, thereby protecting the global economy and, most importantly, the American economy.

3. Military Strategy

By leaving Israel isolated, the government and the IDF gain room to maneuver to defend themselves without putting US soldiers in the middle of the conflict and without bringing diplomatic complications to Washington. In addition, this situation serves as a test. The world will see how far Iran is willing to go to comply with the agreement, or how far it is capable of going beyond seeking revenge to fulfill its ideological and eschatological promise of destroying Israel.

The Real Challenge

Waging an endless war against Iran will not yield definitive results. The real challenge now lies elsewhere. The future of the region depends on identifying who, within the Iranian government itself, is ready to change the regime from within.

On top of all this, Iran's military capacity is currently reduced, Hamas is destroyed, Hezbollah in Lebanon is isolated following Israel's agreement with the Lebanese government, and the Houthis in Yemen have been attacked and weakened. While this is not an outright victory for Israel, the weakening of the Axis of Resistance offers a solid fresh start.


Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Se Israel perdesse a guerra, o que acontecia?

















Neste artigo, exploro o cenário hipotético — e catastrófico — de uma eventual derrota militar do Estado de Israel. Analiso as ramificações que vão desde o fim da soberania estatal e a imposição da Sharia até o risco real de limpeza étnica e o consequente colapso da ordem liberal no Ocidente. Para o povo judeu, perder uma única guerra não significa apenas uma derrota política, mas o fim de seu único porto seguro e o início de uma crise civilizacional sem precedentes no século XXI, evocando os horrores de um novo Holocausto.

A Teologia da Aniquilação

Ao observar a doutrina de grupos que compõem o chamado "Eixo da Resistência" — liderado pelo Irão e composto por Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias xiitas —, torna-se evidente que o conflito israelo-árabe transcende a disputa territorial. Na visão desses atores, a existência de um Estado não muçulmano em solo considerado Waqf (património sagrado inalienável do Islão) é uma afronta teológica.

Para o fundamentalismo radical, o território de Israel integra o Dar Al-Islam (Mundo do Islão) e, portanto, a sua "purificação" através da extinção de Israel é um imperativo religioso. Diante disso, surge a pergunta inevitável: e se Israel perder a guerra? Se o projeto de aniquilação total pretendido por Teerão fosse bem-sucedido, os desdobramentos seriam catastróficos em múltiplas dimensões.


1. Extinção do Estado e Imposição Teocrática

A consequência imediata de uma derrota militar seria a dissolução das instituições democráticas israelitas. Diferente de conflitos entre nações ocidentais, onde a rendição leva a tratados de paz ou ocupações temporárias, as diretrizes dos grupos radicais preveem a extinção total da entidade política.

Não haveria espaço para um modelo binacional ou democrático. O vácuo de poder seria preenchido pela imposição imediata da Sharia (lei islâmica radical). O Estado de Israel, como refúgio de pluralismo e inovação, deixaria de existir, sendo substituído por uma teocracia ou um regime de milícias sob influência iraniana.

2. O Destino da População Judia: Limpeza Étnica e Servidão

Para os mais de 7,5 milhões de judeus israelitas, a derrota representaria uma vulnerabilidade existencial extrema:

  • Massacres e Expulsão: Dada a retórica de "purificação" e a barbárie testemunhada em eventos como o 7 de outubro, o risco de massacres em larga escala é uma certeza estatística, não apenas uma suposição. Milhões tentariam fugir como refugiados para uma Europa e Américas já instáveis, revertendo o fluxo migratório do século XX.
  • O Status de Dhimmi: Os poucos que permanecessem seriam reduzidos à condição de dhimmis (cidadãos de segunda classe). Sob o domínio radical, estariam sujeitos a impostos especiais (jizya) e à privação de direitos políticos, vivendo sob a constante ameaça de pogroms, similares aos que ocorriam na região antes de 1948.

3. A Doutrina Begin e a Falta de Profundidade Estratégica

Como bem resumiu o filósofo Luiz Felipe Pondé, Israel vive uma realidade geográfica e política única: enquanto outros países podem perder territórios e sobreviver, "se Israel perder uma guerra, simplesmente deixa de existir".

Esta vulnerabilidade é o que sustenta a Doutrina Begin. Enunciada em 1981 pelo então Primeiro-Ministro Menachem Begin, esta política estabelece que Israel não permitirá que nenhum adversário que busque sua destruição adquira armas de destruição em massa (ADM).

  • Autodefesa Antecipatória: Israel prefere o isolamento diplomático de um ataque preventivo à aniquilação nuclear ou biológica.
  • Foco no Irão: Atualmente, esta doutrina é o motor das ações contra o programa nuclear iraniano, visando impedir que o "Eixo da Resistência" alcance a paridade estratégica necessária para o golpe final.

4. O Colapso da Ordem Global e a Nova Diáspora

A queda de Israel teria um efeito dominó que transformaria o mundo:

  • Fim do Porto Seguro: Israel é o suporte geopolítico e militar final das comunidades judaicas globais. Sem ele, o antissemitismo — que já atinge níveis alarmantes — perderia qualquer barreira de contenção, deixando o povo judeu novamente disperso e indefeso.
  • Desestabilização do Ocidente: Israel atua como o pilar da ordem liberal no Médio Oriente. Sua queda sinalizaria o declínio da hegemonia dos EUA e o fortalecimento de blocos antiocidentais. Geopolíticos alertam que nações árabes moderadas (como Jordânia e Egito) seriam as próximas a cair, criando um bloco fundamentalista contínuo do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico.
  • Ameaça à Europa: Para as alas mais radicais do fundamentalismo, a reconquista não para no Levante. Territórios como os Balcãs e a Península Ibérica ainda são vistos como partes do Dar Al-Islam a serem recuperadas, colocando a segurança interna da Europa em xeque.

Conclusão

Para a análise geopolítica séria, Israel não é apenas um Estado em disputa, mas um ativo estratégico crítico da civilização ocidental. Sua derrota militar não resultaria em uma "Palestina livre", mas sim em um vácuo de poder sangrento dominado pelo radicalismo teocrático. O desaparecimento de Israel deixaria o Ocidente cego, vulnerável ao terrorismo e órfão de seu único aliado democrático na região, transformando o século XXI em um período de trevas civilizacionais.

Referências Bibliográficas

CYMERMAN, Henrique. Israel: A Terra Prometida. 2011. Lisboa: Guerra e Paz Editores.

MATOS CORREIA, José de. Geopolítica. 2010. Coimbra: Edições Almedina.

NOGUEIRA PINTO, Jaime. Ideologias e Relações Internacionais. 2012. Lisboa: Difel. (Nota: Este autor é a principal referência em Portugal para a análise de ameaças existenciais e doutrina de segurança).

RAPOSO, Henrique. O Mundo Não Tem de Ser Assim. 2014. Lisboa: Editora Objetiva.



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English Version

Beyond the Abyss: The Catastrophic Scenarios of an Israeli Military Defeat

In this article, I explore the harrowing—and catastrophic—consequences of a potential military defeat of the State of Israel. I examine a trajectory that spans from the eradication of state sovereignty and the imposition of Sharia law to the very real risk of ethnic cleansing and the subsequent collapse of the liberal Western order. For the Jewish people, losing a single war would not merely represent a political setback; it would signify the destruction of their only safe haven and the onset of a civilisational crisis without precedent in the 21st century—a grim echo of the Holocaust.

The Theology of Annihilation

When observing the doctrines of the so-called "Axis of Resistance"—led by Iran and comprising Hamas, Hezbollah, the Houthis, and various Shia militias—it becomes evident that the Arab-Israeli conflict transcends mere territorial disputes. Within the worldview of these actors, the existence of a non-Muslim state on land considered Waqf (an inalienable Islamic sacred trust) is a theological affront.

To radical fundamentalists, the territory of Israel is an integral part of Dar Al-Islam (the House of Islam); therefore, its "purification" through the total dismantling of Israel is seen as a religious imperative. This begs the inevitable question: what if Israel were to lose? Should the project of total annihilation sought by Tehran succeed, the fallout would be catastrophic across multiple dimensions.


1. The End of Sovereignty and the Rise of Theocracy

The immediate consequence of a military defeat would be the total dissolution of Israel’s democratic institutions. Unlike conflicts between Western nations, where surrender typically leads to peace treaties or temporary occupations, the charters of these radical groups explicitly demand the total extinction of the political entity.

There would be no room for a binational or democratic model. The power vacuum would be filled by the immediate imposition of Sharia (radical Islamic law). Israel, as a bastion of pluralism and innovation, would cease to exist, replaced by a theocratic regime or a patchwork of militias under Iranian hegemony.

2. The Fate of the Jewish Population: Ethnic Cleansing and Servitude

For the more than 7.5 million Israeli Jews, defeat would mean extreme existential vulnerability:

  • Massacres and Displacement: Given the rhetoric of "purification" and the atrocities witnessed on October 7th, the risk of large-scale massacres is a statistical certainty rather than mere conjecture. Millions would attempt to flee as refugees to an already fractured Europe and the Americas, reversing the 20th-century migratory flow.
  • Dhimmi Status: The few who might remain would be reduced to the status of dhimmis (second-class citizens). Under radical rule, they would be subject to special taxes (jizya) and stripped of political rights, living under the perpetual shadow of pogroms, reminiscent of the violence that plagued the region prior to 1948.

3. The Begin Doctrine and Lack of Strategic Depth

As the philosopher Luiz Felipe Pondé aptly noted, Israel occupies a unique geographical and political reality: while other nations can lose territory and continue to endure, "if Israel loses a single war, it simply ceases to exist."

This vulnerability underpins the Begin Doctrine. Articulated in 1981 by then-Prime Minister Menachem Begin, this policy dictates that Israel will not allow any adversary seeking its destruction to acquire weapons of mass destruction (WMD).

  • Anticipatory Self-Defence: Israel prioritizes the diplomatic isolation of a preemptive strike over the risk of nuclear or biological annihilation.
  • Focus on Iran: Today, this doctrine remains the engine of Israeli operations against the Iranian nuclear programme, aimed at preventing the "Axis of Resistance" from achieving the strategic parity required for a final blow.

4. The Collapse of Global Order and the New Diaspora

The fall of Israel would trigger a domino effect that would transform the world:

  • The End of the Safe Haven: Israel serves as the final geopolitical and military anchor for global Jewish communities. Without it, antisemitism—already reaching alarming heights—would lose its final bulwark, leaving the Jewish people once again dispersed and defenceless.
  • The Destabilisation of the West: Israel is a cornerstone of the liberal order in the Middle East. Its fall would signal the decline of US hegemony and the ascendancy of anti-Western blocs. Geopoliticians warn that moderate Arab nations (such as Jordan and Egypt) would be the next to fall, creating a continuous fundamentalist bloc from the Mediterranean to the Persian Gulf.
  • The Threat to Europe: For radical fundamentalists, "reconquest" does not end in the Levant. Territories such as the Balkans and the Iberian Peninsula are still viewed by some as parts of Dar Al-Islam to be reclaimed, placing the internal security of Europe in jeopardy.

Conclusion

In any serious geopolitical analysis, Israel is not merely a state in dispute, but a critical strategic asset of Western civilisation. Its military defeat would not result in a "free Palestine", but rather in a bloody power vacuum dominated by theocratic radicalism. The disappearance of Israel would leave the West blinded, vulnerable to terrorism, and deprived of its sole democratic ally in the region, turning the 21st century into an era of civilisational darkness.

Bibliography

·        CYMERMAN, Henrique. Israel: The Promised Land. 2011. Lisbon: Guerra e Paz Editores.

·        MATOS CORREIA, José de. Geopolitics. 2010. Coimbra: Edições Almedina.

·        NOGUEIRA PINTO, Jaime. Ideologies and International Relations. 2012. Lisbon: Difel. (Note: This author is the leading authority in Portugal on the analysis of existential threats and security doctrine).

·        RAPOSO, Henrique. The World Does Not Have to Be This Way. 2014. Lisbon: Editora Objetiva.



Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


sábado, 21 de março de 2026

O Eixo da Resistência - Os Tentáculos do Polvo.


No tabuleiro da guerra moderna, nada acontece por acaso. Enquanto o mundo assiste ao escalar das tensões, é preciso compreender que estamos perante um choque calculado de objetivos entre potências globais e regionais. Neste artigo, analiso a arquitetura da estratégia iraniana, os perigos reais nos estreitos marítimos e as razões que tornam este conflito uma ameaça existencial sem precedentes.

Em regra, quando um país decide entrar em guerra, ele sabe com quem está a lidar. Com a espionagem moderna altamente desenvolvida, os governos 'contam as espingardas' do inimigo antes do primeiro disparo. A meu ver, não houve erro de cálculo, mas sim um choque de objetivos: os EUA buscam conter a China, enquanto Israel enfrenta uma questão existencial.
O arsenal oculto do Irão — túneis quilométricos repletos de mísseis de longo alcance — justifica o temor histórico israelita. Os tentáculos de Polvo (governo de Teerão) cercaram o Médio Oriente, do Iraque ao Líbano, passando por Gaza, Cisjordânia e Iêmen. Assim, o Irão controla indiretamente o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. O regime fornece ideologia, financiamento e armas pesadas a grupos extremistas, ordenando ataques enquanto permanece oficialmente impune sob o manto de Estado soberano na ONU.
Embora ainda não possua a bomba atômica, o enriquecimento de urânio em níveis muito superiores ao necessário para fins energéticos revela as suas intenções. O risco atual é o bloqueio do Mar Vermelho pelos Houthis, o que estrangularia o Canal de Suez, prejudicando o Egito, a Arábia Saudita e a Europa. Tudo indica que o Irão antecipou este cenário; sua arquitetura de guerra e os atentados — do caso AMIA ao massacre de 07/10 — parecem armadilhas meticulosas. Até a possível eliminação de seus altos escalões é absorvida pela ideologia do martírio e pelo objetivo da expansão do xiismo.
O conflito tende a alastrar-se devido à vulnerabilidade dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. A estratégia iraniana é clara: usar escudos humanos e infraestrutura civil (escolas e hospitais) para proteger plataformas de lançamento, como faz o Hamas, garantindo que qualquer contra-ataque resulte em tragédias humanitárias.
Por fim, a ideia de um golpe de Estado interno no Irão parece distante, dada a sua imensa máquina de repressão. O regime dificilmente cairá sem uma capitulação imposta por forças externas, o que implicaria uma guerra terrestre, que poderia levar alguns anos ou, para acelerar o fim, o risco de uma catástrofe maior. Oxalá não cheguemos a esse ponto.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sábado, 14 de março de 2026

A Guerra no Irão: Porque o Martírio de Crianças não pode ser um "Dano Colateral"


Sempre fui uma pessoa transparente e pautei a minha vida pela clareza das minhas posições, desde os meus ideais políticos e ideológicos até à minha conversão ao judaísmo. Face ao atual conflito no Irão, sinto a necessidade de partilhar com os meus amigos a minha visão sobre este momento dramático.

Quero que fique claro: em momento algum apoio a violência nem me regozijo com a morte de quem quer que seja. Defendo, sim, o direito do Estado de Israel a proteger-se perante ameaças existenciais, sejam elas de grupos terroristas ou de Estados que coloquem em causa a sobrevivência do povo judeu. Contudo, como em tudo na vida, existem limites éticos intransponíveis.

Condeno veementemente o bárbaro bombardeamento ocorrido no passado dia 28 de fevereiro, no Irão, que atingiu uma escola primária e ceifou a vida a cerca de 170 meninas. Este é um acontecimento que nunca deveria ter ocorrido, sob hipótese alguma. Como pai, sinto uma tristeza profunda e uma revolta imensa perante a morte injusta de crianças inocentes. Os objetivos militares deveriam ser estritamente cirúrgicos; atingir civis, muitos dos quais desejavam uma mudança mas não a custo do sangue do seu próprio povo, é um erro trágico e inaceitável.

Além disso, creio que a intervenção militar não deve ter como fim último a simples mudança de regime pela força, mas sim a neutralização de ameaças nucleares e balísticas. É imperativo evitar que o Irão colapse numa catástrofe humanitária ou numa guerra civil que gere um vazio de poder, tal como aconteceu na Síria ou na Líbia. A meu ver, nem a morte de Ali Khamenei deveria ter sido procurada desta forma; se em vida era um tirano, morto corre o risco de ser transformado em mártir.

A guerra deve ser sempre o último recurso face a ameaças à existência. No entanto, não podemos aceitar que existam danos 'colaterais' que signifiquem a morte de inocentes. A justiça e a defesa não se podem divorciar da humanidade.

Este texto abordou eventos extremamente recentes e sensíveis referentes ao conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026. Texto que preserva a minha transparência e os meus valores e ideias tendo organizado os argumentos de forma a reforçar a minha visão ética e humanitária.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Síria - A Queda de Bashar Al Assad


Na Síria, a população celebrou nas ruas de Damasco e de forma efusiva, o fim de uma ditadura de mais de cinco décadas. O regime sírio do Partido Socialista Baath e do Presidente Bashar Al Assad caiu, obrigando Assad a abandonar o Poder e fugir de avião no domingo dia 8 de dezembro, este facto é para os seus adversários e inimigos uma boa noticia, mas não para os seus aliados principais a Rússia de Putin que perde um aliado na região, e para o Irão dos Ayatollás, porque a queda de Assad estanca o fornecimento de armas para as organizações terroristas como o Hezbollah e o Hamas, e corta a ligação aos seus próxis, além de ter a imagem do regime afetada.

A incursão dos rebeldes que se uniram numa grande aliança militar para derrubar o Regime de Assad, teve de certeza intervenção externa, aviões estadunidenses foram visto a sobrevoar o Leste da Síria, e isso explica que só com apoio os rebeldes terão tido condições de em tempo recorde avançar sobre Damasco, fazendo rendições das tropas do Regime em todas as grandes cidades, alguns quarteis e postos da policia jã estavam totalmente desocupados quando os rebeldes chegaram. E após a queda de Damasco, os rebeldes anunciaram que "doravante há uma Síria Livre (de Assad) e que os exilados e refugiados podem regressar porque a Nova Síria os espera".

Israel e a Turquia são os principais beneficiários da derrocada da ditadura da despótica família Assad, que estava no poder desde 1970. O Enfraquecimento do Irão beneficia o combate de Israel contra o Hamas e o Hezbollah, a Turquia beneficia porque viu-se livre de um adversário de longa data, mas os Estados Unidos ganham em toda a linha na medida em que destronaram a Rússia das suas posições no Médio Oriente, surgem no entanto, novas dúvidas quanto ao futuro. Ou seja, até quando este cenário da saída de Bashar Al Assad será motivo para celebrar, ou antes, a entrada num novo capitulo de guerras infindáveis.

Quem são os vários grupos que se uniram para derrubar Assad, quem poderá garantir a paz e um governo de transição, e que garantias há para as minorias étnicas e sobretudo a minoria de cristãos assírios ou mesmo a população xiita da Síria face ao novo poder sunita?; Ou seja, a verdade sobre a resposta a estas perguntas é a incerteza, pois levanta-se um veu que nos esconde o futuro em relação à paz ou à guerra naquele país já de si muito castigado por uma guerra civil que se iniciou em 2011 e continuou até aos dias de hoje. É grande o receio de que haverá mais uma vez uma nova fase da guerra sangrenta para que se clarifique quem governará a Síria e em que moldes. 

Poe outras palavras, os benefícios da vitória dos rebeldes tendem a ser efêmeros, e uma guerra civil no vazio do poder pode ser o que faltava para acabar de incendiar o Médio Oriente e alastrar o conflito a outras zonas. Esperemos que não, mas os EUA e Israel poderão ter que fazer o serviço de limpeza envolvendo-se no conflito para apoiar o grupo que melhor satisfaça os seus interesses geoestratégicos contra a Rússia e o Irão, e até que ponto, estes não irão também eles apoiar um grupo e envolver-se no conflito?

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

o Irão, Israel e o Tabu do Conflito: Entre o Dogma e a Realidade


A perseguição do regime iraniano a Israel não é um fenómeno recente; é uma diretriz teocrática que vigora desde a Revolução de 1979. Sob a liderança do Aiatolá Khomeini, o Irão transformou a "destruição da entidade sionista" num pilar de Estado. Na madrugada de 14 de abril de 2024, essa agressividade materializou-se num ataque direto com mais de 300 drones e mísseis, totalizando 60 toneladas de explosivos. Embora apresentado como retaliação ao bombardeamento em Damasco — capital da Síria, hoje um país vassalo de Teerão —, o ataque revelou o perigo de um regime que utiliza as suas forças, como a Guarda Revolucionária, para exportar o caos regional. 

Infelizmente, assistimos hoje a um "antissionismo" que serve, muitas vezes, de máscara a um antissemitismo profundo. Muitos, por ignorância ou ideologia, regozijam-se com a agressão iraniana, ignorando um facto crucial: por que razão nações como o Egito, a Jordânia ou a Arábia Saudita não saem em defesa do Hamas ou do Irão? A resposta reside na cooperação silenciosa; no próprio ataque de abril, países árabes vizinhos participaram na interceptação de mísseis e drones iranianos, vendo em Teerão uma ameaça à sua própria soberania. É irónico que a Esquerda, que hoje demoniza Israel, esqueça que a União Soviética (URSS) foi a primeira potência a conceder o reconhecimento de jure ao Estado judeu, em 17 de maio de 1948, garantindo a sua sobrevivência inicial através de armamento crucial fornecido via Tchecoslováquia. 

O drama vivido em Gaza é inegável, mas a sua génese é clara: resulta do ataque bárbaro de 7 de outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Este grupo não representa a vontade democrática; após as eleições de 2006, o Hamas tomou o poder absoluto em Gaza em junho de 2007 através de uma violenta guerra civil, expulsando a Autoridade Palestiniana (Fatah) à bala e executando oponentes em praça pública. Desde então, transformaram o enclave numa base militar onde milhares de milhões de euros em ajuda internacional foram desviados para a construção de túneis sob hospitais e escolas, bem como a máquina de propaganda "Paliwood" em funcionamento. 

A História é teimosa. Em pelo menos sete ocasiões, foram oferecidas soluções de dois Estados que garantiriam uma Palestina livre. No entanto, desde os Acordos de Oslo em 1993 até propostas subsequentes, líderes como Yasser Arafat recusaram sistematicamente a paz, preferindo a via da Jihad e a dependência do apoio radical de outros regimes árabes. A ONU e a Esquerda fingem desconhecer que, durante sete décadas, a mão estendida de Israel foi rejeitada por quem nunca desejou a independência palestiniana, mas sim a destruição total do vizinho judeu. Negar estes factos não é ser humanista; é ser cúmplice da narrativa de quem usa o seu próprio povo como escudo humano.


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

 
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