O Império Português Reconfigurado: Diplomacia, Perseguição Religiosa e os Vetores da Decadência Portuguesa na Idade Moderna
Introdução
A transição da
Idade Média para a Idade Moderna na Península Ibérica foi marcada pela ascensão
de potências marítimas que desenharam os mapas globais. No centro desse
processo, o Reino de Portugal destacou-se pela pioneira expansão ultramarina e
pelo desenvolvimento de uma sofisticada engenharia diplomática voltada para a
consolidação de suas rotas comerciais. Todavia, a mesma Coroa que costurou
tratados audaciosos para garantir o monopólio das riquezas do Atlântico e do
Índico também tomou decisões políticas e religiosas internas que comprometeriam
profundamente a sustentabilidade de seu império.
Este artigo
analisa a trajetória portuguesa desde os grandes acordos fronteiriços com
Castela até às perseguições religiosas e às crises estruturais que culminaram
na perda de sua hegemonia económica e intelectual.
Enquadramento da História do Império Português e
os Judeus
Para compreender a
real dimensão da tragédia que envolveu a perseguição religiosa na Idade
Moderna, é preciso fazer um resgate cronológico essencial: a presença judaica
na Península Ibérica não era uma inserção recente ou estrangeira. Pelo
contrário, ela é muito anterior à própria fundação da nacionalidade portuguesa
no século XII. Os primeiros registos da fixação de comunidades judaicas na
região remontam à Antiguidade Oriental, caminhando lado a lado com as rotas
comerciais e a colonização dos fenícios.
Essa
ancestralidade milenar fez com que o território ibérico se tornasse o berço de
uma das matrizes culturais mais ricas da história judaica global: a civilização
sefardita. Durante séculos, e de forma muito marcante no período do
Al-Andalus (sob o domínio muçulmano), a Península Ibérica viveu uma verdadeira
"Idade de Ouro" cultural e científica. Longe de serem meros
habitantes marginalizados, os judeus ibéricos — os sefarditas (da palavra
hebraica Sefarad, que significa Espanha/Península Ibérica) —
floresceram em todas as áreas do conhecimento humano. Eles actuaram como o
grande elo de ligação entre a sabedoria da Antiguidade Clássica, a ciência
árabe e o mundo cristão medieval. Suas academias moldaram filósofos,
poetas, astrónomos e juristas de renome internacional, cuja influência directa
se estendeu para além das fronteiras ibéricas e ajudou a fertilizar o
pensamento europeu.
Portanto, quando
as Coroas de Espanha e Portugal decidiram banir, baptizar e converter à força
ou expulsar os judeus, e mais tarde, em caso de alegada traição, queimar as
populações de Cristãos-Novos na fogueira, elas não estavam apenas a punir um
grupo dissidente. Os dois reinos ibéricos estavam a arrancar da sua
própria terra uma comunidade que ajudara a construir os alicerces culturais,
linguísticos e económicos daquela rica e bela península ao longo de mais de
dois milénios. Tentar destruir e extirpar a civilização sefardita foi,
para Portugal, o mesmo que amputar uma parte vital da sua própria identidade
fundacional. O silenciamento forçado dessa herança deixou um vazio
estrutural que moldou de forma irreversível os séculos de isolamento que se seguiram.
1 - O Tratado
de Alcáçovas e a Primeira Divisão Horizontal do Mundo
Assinado em 4 de
Setembro de 1479 na vila portuguesa de Alcáçovas, o Tratado de Alcáçovas
encerrou oficialmente a Guerra de Sucessão de Castela e estabeleceu um marco
inédito na história do direito internacional. O acordo estipulou uma linha
divisória horizontal baseada no paralelo das Ilhas Canárias, determinando que
todas as terras descobertas ou por descobrir ao norte dessa linha pertenceriam
a Castela, enquanto os territórios ao sul ficariam sob o domínio exclusivo de
Portugal.
Para os
portugueses da época, o documento representou um triunfo diplomático
categórico, pois assegurou a posse legal dos arquipélagos da Madeira, dos
Açores e de Cabo Verde, além de garantir o controlo absoluto sobre a rota
comercial da costa africana. Caso esse modelo geográfico horizontal
tivesse sido mantido após a chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492,
Portugal teria herdado legalmente a maior parte, ou seja, toda a América
Central e a América do Sul, restando aos espanhóis apenas a porção norte do
continente.
2 - A Transição
para o Eixo Vertical do Tratado de Tordesilhas
A configuração
geopolítica do Tratado de Alcáçovas tornou-se insustentável quando a Espanha
reivindicou as terras caribenhas achadas por Colombo, gerando um impasse que
ameaçava desencadear um novo conflito armado. Consciente de que a
manutenção da linha horizontal permitiria que os navios espanhóis navegassem
perigosamente perto de suas rotas secretas no Atlântico Sul, o rei Dom João II
de Portugal rejeitou a arbitragem inicial do Papa Alexandre VI, que na
Bula Inter Coetera favorecia abertamente a Espanha.
No entanto, a
Coroa portuguesa exigiu uma negociação direta que resultou na assinatura do
Tratado de Tordesilhas em 1494, substituindo o paralelo horizontal por um
meridiano vertical situado a 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Ao empurrar
a fronteira para o oeste, Portugal abriu mão de grande parte das terras
americanas ocidentais em troca de uma "parede" de proteção marítima
que salvaguardava a navegação da "volta do mar" em torno da África e,
acidentalmente, garantiu o posterior direito de posse sobre o litoral do
Brasil.
3 - O Casamento
de Dom Manuel I e a Diáspora dentro da Diáspora.
Em 1495, Dom
Manuel I assumiu o trono português alimentando o ambicioso projecto político de
unificar todas as coroas da Península Ibérica sob a liderança dinástica de
Portugal. Para viabilizar esse plano, o monarca solicitou a mão em
casamento da Princesa das Astúrias, Isabel de Aragão e Castela, filha
primogénita e herdeira directa dos Reis Católicos da Espanha.
Como condição inegociável para o matrimónio, os reis espanhóis exigiram que Portugal repetisse o decreto de expulsão dos judeus que Castela e Aragão haviam adoptado em 1492, recusando-se a permitir que sua herdeira residisse em um território tolerante a outras fés. Diante do dilema entre preservar uma comunidade vital para a economia lusitana ou consolidar a união ibérica, Dom Manuel I cedeu à pressão diplomática e promulgou o decreto de expulsão em Dezembro de 1496 que é um exemplo prático desta "diáspora dentro da diáspora". Os sefarditas, que já tinham sido expulsos de Castela e Aragão em 1492, encontram em Portugal um breve refúgio que rapidamente se transformou num teatro de conversões forçadas e de fogueiras para os cristãos novos apanhados em traição de fé ou atos blasfémia.
4 - O
"Baptismo em Pé" e a Criação da Classe dos Cristãos-Novos
Reconhecendo que a
saída física da população judaica — composta por proeminentes médicos,
cientistas, astrónomos e banqueiros — causaria a ruína financeira do reino, Dom
Manuel I planeou uma estratégia para os reter sem descumprir o acordo com a
Espanha. Na Primavera de 1497, o monarca ordenou o fecho dos portos e
determinou o encerramento de sinagogas, forçando milhares de judeus a
concentrar-se em pontos públicos onde foram baptizados colectivamente à força
com água benta.
Esse episódio
histórico, que ficou conhecido como o "Baptismo em Pé", extinguiu
legalmente o judaísmo em solo português e criou a categoria social e jurídica
dos "Cristãos-Novos". Embora nominalmente católicos perante o
Estado, a maioria desses indivíduos continuou a praticar o judaísmo de forma
clandestina dentro de suas residências, originando o fenómeno do
criptojudaísmo.
Mecanismos de
Resistência Cultural e a Invenção da Alheira e Farinheira
Para sobreviverem
à vigilância da Igreja e da sociedade majoritária, as famílias de
Cristãos-Novos desenvolveram sofisticados mecanismos de resistência cultural e
disfarces quotidianos. Um dos exemplos mais duradouros dessa adaptação
ocorreu na culinária, com a criação da alheira, um enchido que imitava as
tradicionais chouriças de porco consumidas pelos cristãos, mas que era recheado
exclusivamente com carnes permitidas pela lei mosaica, como galinha, peru,
coelho e pão.
Ao pendurarem
esses alimentos nas áreas visíveis de suas cozinhas, os criptojudeus simulavam
a quebra de suas restrições dietéticas religiosas, desviando as suspeitas dos
vizinhos e das autoridades. Além da gastronomia, as práticas religiosas
foram adaptadas para o ambiente doméstico estrito, onde as orações eram
realizadas em voz baixa e os rituais do shabat eram
disfarçados como actividades de limpeza doméstica, na entrada das portas onde antes tinha uma mezuzá estava um cruz gravada na pedra, onde os cristãos novos beijavam a mão e tocavam no nicho que para eles sempre continuou a ser a mezuzá judaica.
O Massacre de
Lisboa de 1506: O Ápice da Intolerância Popular
A conversão
forçada não eliminou o preconceito popular contra os Cristãos-Novos, culminando
no trágico Massacre de Lisboa em Abril de 1506, num contexto em que a capital
portuguesa enfrentava os rigores de uma peste bubónica e de uma seca
severa. O estopim da violência ocorreu na Igreja de São Domingos, quando
um fiel declarou ter presenciado um milagre luminoso no altar, e um
Cristão-Novo tentou explicar o fenómeno de forma racional como um mero reflexo
de luz.
Acusado de heresia
por uma multidão enfurecida, o homem foi linchado, dando início a três dias de
distúrbios generalizados insuflados por frades dominicanos e marinheiros
estrangeiros ancorados no porto. Mais de duas mil pessoas de origem
judaica foram torturadas, assassinadas e queimadas em fogueiras improvisadas
nas ruas de Lisboa antes que as tropas reais de Dom Manuel I retomassem o
controlo da cidade e punissem severamente os líderes do motim.
A
Institucionalização da Inquisição Portuguesa
Embora Dom Manuel
I tenha tentado proteger temporariamente os Cristãos-Novos proibindo
investigações religiosas por duas décadas, a pressão das alas mais
conservadoras da Igreja e da nobreza intensificou-se nos anos
seguintes. Em 1536, sob o reinado de seu filho, Dom João III, o Tribunal
do Santo Ofício da Inquisição foi oficialmente instalado em Portugal após a
obtenção de uma autorização do Papa Paulo III.
A Inquisição
estabeleceu um regime de terror de Estado baseado em delações anónimas,
confisco sistemático de bens e torturas processuais para a obtenção de
confissões de heresias e práticas judaizantes. Os réus condenados eram
sentenciados nos chamados Autos de Fé, cerimónias públicas de grande impacto
psicossocial onde os considerados culpados eram entregues ao braço secular para
serem executados na fogueira.
5 - A
Consolidação da União Ibérica e a Perda da Independência
A ironia histórica
da política matrimonial de Dom Manuel I manifestou-se oitenta anos após seus
esforços iniciais de unificação da Península Ibérica. O infante Miguel da
Paz, filho de Dom Manuel I com a princesa Isabel, que deveria herdar todos os reinos,
faleceu prematuramente no ano de 1500, desfazendo a linha directa de sucessão
planeada.
Contudo, em 1580,
a crise dinástica gerada pelo desaparecimento do rei Dom Sebastião na Batalha
de Alcácer-Quibir permitiu que o rei Filipe II da Espanha, neto de Dom Manuel I
por linhagem materna, reivindicasse o trono português. A invasão militar subsequente
consolidou a União Ibérica (1580–1640), período durante o qual Portugal perdeu
sua soberania política e viu suas colónias ultramarinas, incluindo o Nordeste
do Brasil, serem atacadas pelas potências inimigas da Espanha, como a Holanda e
a Inglaterra.
6 - A
Restauração da Independência e o Fim do Domínio Espanhol
O descontentamento
com o domínio espanhol cresceu progressivamente devido ao aumento das
exigências fiscais e ao envolvimento forçado de Portugal em guerras europeias
que arruinaram o comércio lusitano. Em 1 de Dezembro de 1640, um grupo de
aristocratas nacionais organizou um golpe palaciano em Lisboa que culminou na
deposição da vice-rainha espanhola e na aclamação de Dom João, Duque de
Bragança, como o novo monarca soberano sob o título de Dom João IV.
Esse evento deu
início à Guerra da Restauração, um longo conflito diplomático e militar contra
a Espanha que se estendeu por quase trinta anos. A independência
definitiva de Portugal foi formalizada apenas em 1668 com o Tratado de Lisboa,
restabelecendo as fronteiras políticas anteriores, mas entregando à Dinastia de
Bragança um país economicamente fragilizado.
7 - O Debate
Historiográfico sobre a Decadência Portuguesa
A decadência do
Império Português ao longo da Idade Moderna é um tema central de debate na
historiografia ibérica, dividindo opiniões sobre o peso relativo de cada factor
nesse processo. Pensadores e historiadores de relevo, como Alexandre
Herculano e Oliveira Martins, argumentaram que a expulsão dos judeus e a
actuação da Inquisição representaram um "suicídio económico e
intelectual" para a nação.
Sob essa
perspectiva, a eliminação da classe mercantil e financeira mais dinâmica do
país provocou uma massiva fuga de capitais e de cérebros para nações rivais,
como a Holanda, privando Portugal do conhecimento científico necessário para
sustentar sua vanguarda náutica. No entanto, análises historiográficas
contemporâneas sugerem que a perseguição religiosa agiu de forma integrada a
outras fraquezas estruturais graves que afectavam o reino.
Factores
Estruturais: A Ilusão da Riqueza e a Crise Demográfica
Além das
perseguições religiosas, a economia portuguesa padeceu do que os economistas
chamam de "ilusão das riquezas", caracterizada pela incapacidade de
converter o lucro imediato das especiarias asiáticas e do ouro brasileiro em
desenvolvimento interno. Em vez de investir na criação de manufacturas,
infra-estrutura ou educação, a Coroa utilizava os recursos coloniais para
importar bens básicos e produtos manufacturados da Europa Setentrional,
tornando-se mera intermediária do fluxo de riquezas que alimentava a Revolução
Industrial de seus vizinhos.
Essa
vulnerabilidade económica era agravada por uma severa crise demográfica, dado
que Portugal possuía uma população estimada em apenas um milhão de habitantes
no século XVI. Esse contingente populacional reduzido mostrou-se
insuficiente para guarnecer e defender com eficácia uma rede de feitorias e
colónias que se estendia geograficamente do continente americano até ao Japão.
Conclusão
O declínio do
poderio português na Idade Moderna não pode ser reduzido a um único evento
isolado, mas sim compreendido como o resultado de uma engrenagem onde escolhas
políticas internas anularam as conquistas obtidas pela diplomacia
externa. Os mesmos monarcas que demonstraram pragmatismo ao delimitar os
oceanos nos tratados de Alcáçovas e Tordesilhas sacrificaram a estabilidade
social e económica de seu povo em prol de ambições dinásticas e de uma
uniformidade religiosa forçada.
Ao expulsar e
perseguir a elite intelectual e financeira representada pela comunidade
judaica, Portugal privou-se das ferramentas internas necessárias para gerir a
riqueza que extraía de suas colónias. Assim, as fogueiras da Inquisição e
o esvaziamento económico operaram em conjunto com a escassez demográfica e a
dependência externa, relegando a antiga potência pioneira dos mares a uma
posição periférica no desenvolvimento da Europa moderna.
O Reino de
Amesterdão e a "Nação Portuguesa"
Os judeus
portugueses exilados na Holanda criaram uma comunidade tão rica e influente que
ficou conhecida como "A Nação Portuguesa". Eles ajudaram a
fundar o Banco de Amesterdão e a Companhia das Índias Ocidentais. Esses
órgãos financiaram a invasão holandesa no Nordeste do Brasil no século XVII.
A Ascensão do
Antissemitismo Católico na Cultura Portuguesa
O antissemitismo
em Portugal não foi apenas uma perseguição religiosa temporária. Ele foi
transformado em uma política de Estado que moldou a cultura e o pensamento do
povo português por quase trezentos anos.
I. Os Estatutos
de Pureza de Sangue
O presente livro defende que a Europa cristã alimentou o antissemitismo não apenas no plano teológico (o dogma do deicídio e da teologia da subsituição), mas transitou-o para uma perseguição biológica e de Estado, assim a Igreja e o
Estado criaram leis baseadas na ideia de "pureza de sangue". O
preconceito deixou de ser apenas contra a religião judaica e passou a ser
contra a raça semita (semita vem de Sem um dos filhos de Noé que deu origem aos hebreus). As leis católicas de purificação etnica e religiosa, com a sistemática perseguição aos judeus, não apenas em Portugal, ou Espanha mas em toda a Europa cristã, criou um ambiente onde a assimilação ou a permanência pacífica dos judeus era sistematicamente impossibilitada pela estrutura do Estado e o preconceito antissemita, levando a que muitos cristãos novos abandonassem Portugal em direção aos Países Baixos e a vários lugares do Império Otomano, como a Grécia e a Palestina entre outros.
- Se uma pessoa tivesse um único avô ou
bisavô judeu, seu sangue era considerado "infectado".
- Quem tinha "sangue
infectado" era proibido de assumir cargos públicos, tornar-se padre,
entrar para o exército ou estudar na Universidade de Coimbra.
- A sociedade foi dividida oficialmente
entre Cristãos-Velhos (sangue puro) e Cristãos-Novos (sangue impuro).
II. O Aparelho
de Terror da Inquisição
O Tribunal do
Santo Ofício funcionava como uma polícia secreta de controlo do
pensamento. A cultura portuguesa foi moldada pelo medo e pela delação.
- As pessoas eram incentivadas a
denunciar vizinhos e parentes. Comer carne no sábado ou não comer
porco eram motivos suficientes para prisão.
- A literatura e o teatro eram
censurados. O país fechou-se para as ideias científicas que surgiam
no resto da Europa (como o Iluminismo), pois qualquer novidade era vista
como uma heresia ou "coisa de judeu".
III. O Impacto
Psicológico e Cultural
O antissemitismo
gerou uma cultura de desconfiança e isolamento. Portugal, que antes era o
país mais aberto e conectado com o mundo devido às navegações, tornou-se uma
sociedade fechada, fanática e atrasada cientificamente. A caça aos judeus
destruiu a classe média comercial e educada, deixando o país dependente da
nobreza e da Igreja.
O Fim Oficial
da Discriminação (Século XVIII)
A divisão entre
cristãos-novos e cristãos-velhos só acabou em 1773, quase 300 anos depois do
decreto de Dom Manuel I. O responsável por isso foi o Marquês de Pombal, o
primeiro-ministro de Portugal. Pombal percebeu que o preconceito de sangue
destruía a economia e a administração do país. Ele tomou medidas radicais:
- Aboliu por lei a distinção entre
cristãos-novos e cristãos-velhos.
- Queimou publicamente os registos das famílias que tinham "sangue judeu" para que
ninguém pudesse mais usar o passado como arma de discriminação.
- Acabou com os Estatutos de Pureza de
Sangue.
Embora as leis
tenham mudado no século XVIII, as marcas da Inquisição e a perda da população
judaica deixaram uma cicatriz profunda na história económica e cultural de
Portugal.
__________
Apêndice: Biografias de Judeus Portugueses /
Cristãos-Novos
É importante
destacar a fuga de cérebros provocada pela Inquisição, que privou Portugal de
mentes brilhantes. No exílio, essas pessoas ajudaram a revolucionar a
ciência, a filosofia e a economia da Europa.
- Isaac Abravanel (1437–1508) — O
Estadista e Filósofo das Finanças: Nascido
em Lisboa, foi um dos maiores financeiros, teólogos e estadistas da
transição para a Idade Moderna. Atuou como tesoureiro do rei D. Afonso V
de Portugal, gerindo com grande perícia os recursos do reino durante as
campanhas de expansão no Norte de África. Após a morte do monarca, a
política de centralização absolutista de D. João II forçou-o a refugiar-se
em Castela, onde chegou a financiar as viagens de Cristóvão Colombo. Em
1492, recusando-se a abdicar da sua fé perante o decreto de expulsão espanhol,
partiu para o exílio definitivo em Itália (Veneza e Nápoles), onde
produziu uma vasta obra filosófica e política que influenciou intelectuais
por toda a Europa.
- Pedro Nunes (1502–1578) — O Gênio da
Navegação: Ele
foi um dos maiores matemáticos e geógrafos do mundo. Embora tenha
ficado em Portugal, Nunes era de família de cristãos-novos e viveu sob
constante vigilância. Ele inventou o nónio, um instrumento que
permitia medir fracções de graus com alta precisão. Essa invenção foi
fundamental para que as caravelas calculassem suas rotas no mar aberto.
- Garcia de Orta (1501–1568) — O
Pioneiro da Medicina Tropical: Médico
cristão-novo, ele viajou para a Índia para fugir do clima de perseguição
em Lisboa. Em Goa, estudou as plantas medicinais e escreveu o
primeiro tratado científico europeu sobre doenças tropicais (como o
cólera). Anos após a sua morte, a Inquisição descobriu que ele
praticava o judaísmo em segredo. Seu corpo foi exumado e seus ossos
foram queimados em um Auto de Fé na Índia.
- Amato Lusitano (1511–1568) — O
Pioneiro da Anatomia e da Circulação: Nascido em Castelo Branco com o nome de batismo de
João Rodrigues, adotou o nome de Amato Lusitano no exílio, onde se
consagrou como um dos maiores médicos e anatomistas do século XVI. Através
da dissecação de cadáveres, descobriu as válvulas nas veias, um passo
fundamental para a posterior compreensão do sistema circulatório humano,
além de ter escrito as Cúrias Médicas, obra científica de
referência europeia. Fugindo do clima de perseguição instalado pela
Inquisição em Portugal, viveu uma vida errante de tremendo sucesso
intelectual em Antuérpia, Ferrara, Ragusa e Salónica, onde faleceu.
- Grácia Mendes Nasi (1510–1569) — A
"Senhora", a Diplomata e Financeira: Nascida em Lisboa como Beatriz
de Luna Miques, ficou historicamente conhecida como HaGiveret ("A
Senhora"). Foi uma das mulheres mais ricas e poderosas da Europa
renascentista, assumindo a gestão do imenso império financeiro da Casa
Mendes após a morte do marido. No exílio, utilizou a sua vasta
fortuna e uma complexa rede secreta de agentes comerciais para financiar a
fuga de milhares de cristãos-novos de Portugal , salvando-os do
Tribunal do Santo Ofício. Passando por Antuérpia, Veneza e Ferrara,
fixou-se em Constantinopla, onde assumiu publicamente a fé judaica, e apesar da condição de Dhimmi, tornou-se
conselheira diplomática do Império Otomano e liderou um dos primeiros
projetos de colonização judaica na Palestina mais precisamente em Tiberíades, três séculos e meio antes de Theodor Herzl e o Sionismo.
- Uriel da Costa (1585-1640) — O
Filosofo que Inspirou Spinoza: Nascido
no Porto como Gabriel da Costa Fiuza no seio de uma abastada família de
cristãos-novos, estudou Direito Canónico em Coimbra antes de redescobrir a
fé judaica através da leitura do Antigo Testamento, o que o levou a
convencer a sua família a refugiar-se nos Países Baixos, onde adotou o
nome de Uriel. Em Amesterdão, revelou-se um pensador exímio e profícuo,
mas as suas teses altamente polémicas e críticas face à ortodoxia
religiosa ditaram a sua excomunhão pela própria comunidade judaica; após
sofrer profundas humilhações públicas para ser readmitido, mergulhou numa
depressão severa, vindo a suicidar-se após concluir o seu livro de
memórias, deixando um trágico legado que impressionaria profundamente o
jovem Baruch Spinoza.
- Baruch Spinoza (1632–1677) — O
Filósofo da Liberdade: Embora
tenha nascido em Amesterdão, Spinoza era filho de judeus portugueses que
fugiram da perseguição em Portugal. Ele se tornou um dos maiores
filósofos da história ocidental. Seguiu de certo modo as pegadas de Uriel
da Costa, e foi igualmente excomungado da Sinagoga pelas suas ideias sobre
Deus, a natureza e a liberdade de pensamento, ideias que mais tarde
ajudaram a moldar o Iluminismo e a ciência moderna, foi o filósofo que influenciou
grandemente John Lock e Thomas Jefferson. Resta dizer que mesmo longe das fogueiras da Inquisição, o trauma do isolamento dos judeus portugueses e a busca pela sobrevivência identitária sefardita geraram novas tensões internas nas próprias comunidades de exilados.
- António Ribeiro Sanches (1699–1783) —
O Reformador da Medicina: Nascido
em Penamacor, foi um dos mais brilhantes "estrangeirados"
portugueses do século XVIII. Formado em Medicina em Coimbra e Salamanca,
fugiu de Portugal para escapar à vigilância inquisitorial que pairava
sobre a sua família de cristãos-novos. No exílio, alcançou prestígio
internacional, chegando a ser médico pessoal da Imperatriz Isabel da
Rússia. A partir de Paris, tornou-se colaborador da célebre Enciclopédia de
Diderot e D'Alembert. Sanches manteve uma correspondência crucial com
o Marquês de Pombal , enviando-lhe as suas Cartas sobre a
Educação da Mocidade, que serviram de base teórica para a reforma do
ensino e da Universidade de Coimbra, e influenciando diretamente o
primeiro-ministro a extinguir a distinção jurídica de sangue no reino.
_________
Bibliografia Consultada:
BETHENCOURT,
Francisco. História da
Inquisição: Portugal, Espanha e Itália. 1994. Lisboa: Círculo de Leitores. (Valida
a mecânica do Santo Ofício, o sistema de delações anónimas e o impacto
psicossocial do aparelho de terror).
FONSECA, Luís
Adão da. O Tratado de
Tordesilhas e a Diplomacia Portuguesa no Tempo de D. João II. 1991. Lisboa:
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. (Sustenta
a análise das divisões geográficas e o pragmatismo geopolítico joanino).
GODINHO,
Vitorino Magalhães. Os
Descobrimentos e a Economia Mundial. 1981-1983 (2 vols.). Lisboa: Editorial
Presença. (Fundamenta a ligação entre as rotas ultramarinas e os fatores
económicos estruturais do reino).
HERCULANO,
Alexandre. História da
Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. 1987 (edição original
de 1854-1859). Lisboa: Livraria Bertrand. (A obra clássica que inaugura o
debate sobre o "suicídio económico e moral" provocado pelo Santo
Ofício).
KAPLAN, Yosef. An Alternative Path to Modernity: The
Sephardi Diaspora in Western Europe. 2000. Leiden: Brill. (Referência
mundial que valida o desenvolvimento da "Nação Portuguesa" em
Amesterdão e o contexto das excomunhões).
LIPINER, Elias. O Baptismo em Pé: Estudos de História
Marrana. 1998. Lisboa: Vega. (Obra máxima de validação documental sobre
a violência institucional da conversão forçada de 1497).
MARQUES, A. H.
de Oliveira. História
de Portugal (Vol. II: A Idade Moderna). 1981. Lisboa: Palas Editores. (Fornece
os dados demográficos e o contraponto historiográfico contemporâneo sobre a
crise demográfica e manufatureira).
MARTINS,
Joaquim Pedro Oliveira. História
de Portugal. 1996 (edição original de 1879). Lisboa: Guimarães Editores. (Sustenta
a visão crítica oitocentista sobre a decadência cultural e intelectual do
país).
SANCHES,
António Ribeiro. Cartas
sobre a Educação da Mocidade. 1922 (edição original de 1760). Coimbra:
Imprensa da Universidade. (Documento histórico que serviu de base teórica
para as reformas pombalinas e o fim da distinção de sangue).
SARAIVA,
António José. Inquisição
e Cristãos-Novos. 1969. Porto: Inova. (Fundamenta a tese da Inquisição
como um aparelho político-económico voltado para a destruição da classe
mercantil).
TAVARES, Maria
José Pimenta Ferro. Judeus
e Cristãos-Novos no Tempo de D. Manuel I. 1987. Lisboa: Universidade Nova
de Lisboa. (A base arquivística e demográfica mais rigorosa sobre o período
de transição e o impacto social do decreto de expulsão).
terça-feira, junho 09, 2026
Filipe de Freitas Leal

