Para um povo que luta há
mais de 2.000 anos contra o antissemitismo, a ideia de traição interna parece
um contrassenso quase biológico. No entanto, em 2026, Israel enfrenta uma
realidade desconcertante: a banalização do mal por meio do algoritmo.
As notícias recentes
informam que vários indivíduos em Israel foram condenados por espionagem a
favor do Irão. O Shin Bet, serviço de segurança de Israel, descreveu o problema
como uma “epidemia de espionagem” e revelou que os recrutados eram cidadãos israelitas
e judeus, que foram sendo gradualmente aliciados em troca de pequenas quantias
pagas em criptomoedas ou em numerário, a fim de disfarçar a origem do dinheiro.
Parte I: O choque da
realidade — de Haifa ao Iron Dome
Ouvi falar de casos de
israelitas a espionar a favor do Irão e fui confirmar a informação em fontes
como The Times of Israel e The Jerusalem Post.
Para quem tem uma ligação emocional a Israel, como eu, apesar de lá ter estado
apenas uma vez, a ideia de traição interna é particularmente perturbadora.
Num país habituado a viver
sob ameaça constante, sobretudo após o massacre de 7 de Outubro de 2023 e o
projeto iraniano de destruição de Israel, qualquer colaboração com o inimigo é
sentida como uma ruptura profunda na confiança colectiva — algo a que a sociedade
israelita não está habituada.
Neste artigo, vamos
analisar o contexto e as causas sociais deste fenómeno.
A sobrevivência do povo
judeu e, mais tarde, do Estado de Israel sempre assentou num forte sentido de
unidade, memória histórica e responsabilidade partilhada. Por isso, quando
surgem casos em que os envolvidos não são apenas agentes estrangeiros infiltrados,
mas também cidadãos comuns e judeus, o impacto na sociedade israelita é brutal:
perplexidade, revolta e tristeza.
O mais desconcertante é
que esta realidade surge num contexto em que o país continua marcado por
insegurança, guerra psicológica e medo de infiltração. A sensação de que a
ameaça pode vir de dentro é, para muitos israelitas, tão grave quanto a ameaça
que vem de fora.
A nova face da espionagem
Um dos casos que mais
chamou a atenção foi o de uma rede desmantelada em Haifa, em outubro de 2024,
na qual foram detidos sete imigrantes oriundos do Azerbaijão. Apesar de serem
judeus e de terem feito aliá, terão realizado, durante dois anos, cerca de 600
missões para os serviços secretos iranianos, incluindo a fotografia de bases
aéreas e de instalações militares sensíveis.
Mais recentemente,
surgiram outros casos envolvendo militares reservistas e membros das forças
armadas, acusados de transmitir informação sensível sobre sistemas de defesa e
sobre o alto comando militar. Estes episódios mostram que a espionagem já não
depende apenas de agentes clássicos, treinados para a infiltração e a
dissimulação. Hoje, ela pode começar com um telemóvel, uma conversa online e a
promessa de dinheiro fácil.
Parte II: A “gamificação”
da traição via redes sociais
Os serviços secretos
iranianos parecem ter adaptado a sua estratégia. Em vez da espionagem
tradicional, recorrem cada vez mais às redes sociais — como Telegram, TikTok e
WhatsApp — para recrutar pessoas vulneráveis. As mensagens são simples,
discretas e adaptadas a diferentes idiomas, incluindo hebraico, inglês, russo e
árabe, de modo a aumentar a eficácia do aliciamento sem despertar suspeitas.
Este recrutamento assenta
menos na ideologia e mais na fragilidade humana. Primeiro, pedem-se tarefas
aparentemente inocentes: colar cartazes, tirar fotografias, observar ruas ou
registar detalhes urbanos. Depois, o grau de envolvimento aumenta gradualmente.
Quando já houve pagamentos em dinheiro ou em criptomoedas, surge o mecanismo
mais perigoso de todos: a chantagem. A partir daí, sair torna-se muito mais
difícil.
As raízes da
vulnerabilidade
O mais preocupante é que
este fenómeno já não parece limitar-se a casos isolados. Em Israel, começou a
ser tratado como uma verdadeira epidemia de espionagem. Entre os envolvidos há
imigrantes, soldados, adolescentes, jovens adultos, uma dona de casa e até um
jovem ultraortodoxo. Em alguns casos, a motivação é financeira; noutros,
ideológica. Mas em todos eles há um ponto comum: o enfraquecimento do vínculo
entre o indivíduo e a comunidade.
A pergunta central é
inevitável: como é que alguém aceita colocar em risco os vizinhos, os amigos, a
família e a própria vida? A resposta talvez não esteja numa causa única, mas
numa combinação de fatores psicológicos, sociais, morais e políticos. Muitas
destas pessoas não se veem como espiões no sentido clássico. Acham que estão
apenas a responder a mensagens, a cumprir pequenas tarefas e a ganhar algum
dinheiro. Só mais tarde percebem que entraram num processo de compromisso e
chantagem do qual já não conseguem sair facilmente.
Parte III: A erosão do
pacto social e o neoliberalismo
Há ainda uma dimensão
social que não pode ser ignorada. A passagem de uma sociedade mais colectiva
para uma lógica mais individualista, competitiva e materialista pode ter
enfraquecido os laços de pertença. Quando o indivíduo sente que vive apenas
para sobreviver, que está endividado, isolado ou sem horizonte, torna-se mais
vulnerável ao aliciamento.
O inimigo externo não
recruta ideólogos. Recruta, acima de tudo, os desesperados, os fragilizados, os
vulneráveis e os esquecidos pelo sistema. E a tecnologia torna tudo mais fácil,
porque transforma o crime em algo aparentemente banal. O que antes exigia
contacto directo e consciência clara da gravidade, hoje pode começar com uma
mensagem no telemóvel, sem que a pessoa perceba de imediato a dimensão do que
está a fazer.
Como proteger o futuro
O combate a este problema
não pode ser apenas policial. É preciso actuar em várias frentes ao mesmo
tempo. A primeira é o reforço do pacto social, para que as pessoas sintam que
pertencem a uma comunidade real e não apenas a um sistema impessoal. A segunda
é a educação para a higiene digital, para que as novas gerações saibam
reconhecer a manipulação, a engenharia social e as falsas promessas de dinheiro
fácil.
A terceira é o resgate do
sentido de propósito. Uma sociedade sem memória, sem valores e sem dever
colectivo torna-se mais vulnerável à desagregação interna. Não basta ensinar
datas ou episódios históricos; é preciso cultivar a consciência de que a responsabilidade
individual tem impacto directo na segurança e na continuidade da comunidade.
Também importa combater a
banalização do mal provocada pela tecnologia. Quando o recrutamento acontece
por mensagens curtas, pagamentos digitais e tarefas pequenas, o crime parece
quase um jogo. O autor deixa de ver o impacto real das suas acções e passa a
ver apenas uma notificação, um ficheiro, uma fotografia ou uma transferência.
Mas, por trás dessa aparência inofensiva, está uma actividade capaz de pôr
vidas em risco e de fragilizar a segurança de um país.
O lado positivo é que os
serviços de segurança e contraespionagem israelitas continuam a responder a
esta ameaça. As detenções mostram que o Estado está a identificar, neutralizar
e desmantelar estas redes. Ainda assim, o problema revela uma fragilidade mais
profunda: não basta prender os agentes. É preciso compreender por que razão
tantas pessoas se tornaram susceptíveis a este tipo de recrutamento.
Na minha opinião, este
fenómeno não se limita a Israel; é, na verdade, uma anomalia social causada
pelo modelo político e socioeconómico ocidental. Também reflecte a crise mais
ampla de valores nas sociedades marcadas pelo individualismo extremo, pelas desigualdades
sociais e pela radicalização da dicotomia política.
Quando a confiança
colectiva enfraquece e o discurso público se torna demasiado bipolarizado entre
duas trincheiras de esquerda e direita, o sentido de pátria e de
responsabilidade comum também fica fragilizado. Nesse vazio, a deslealdade
deixa de parecer impensável e passa a parecer, para alguns, uma saída possível.
Em última análise, o
desafio de Israel — e de qualquer sociedade moderna — é recuperar o “nós” e a
ideia de pertença à comunidade sem apagar o “eu”. A segurança nacional não
depende apenas de tanques, mísseis e tecnologia; depende também da força moral,
da coesão social e da capacidade de impedir que a ganância, o isolamento e a
manipulação destruam o tecido humano por dentro.
Por último, deixo a imagem
dos judeus que sobreviveram a 2.000 anos de diáspora forçada, expulsões,
Inquisição, pogroms, Holocausto e à luta pela independência. Não se pode
esquecer que foi a ideia de comunidade, os kibutzim e o modelo social-democrata
que construíram um Israel próspero, unido e desenvolvido. Esse modelo tem de
ser recuperado, e não apenas em Israel.
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English Version
The
Algorithm of Betrayal: Israel’s ‘Espionage Epidemic’ and the Erosion of the
Social Contract
By Filipe de
Freitas Leal
For a people
whose history has been defined by a two-millennium struggle against
antisemitism, the notion of internal betrayal feels like a near-biological
contradiction. Yet, in 2026, Israel faces a disconcerting new reality: the
banalisation of evil via the algorithm.
Recent
reports confirm that several individuals within Israel have been convicted of
spying for Iran. Shin Bet, Israel’s domestic security service, has
characterised the crisis as an "espionage epidemic", revealing that
the recruits were Israeli Jewish citizens. These individuals were gradually
enticed by small payments, made in cryptocurrency or cash, to obscure the
provenance of the funds.
Part I: The
Reality Shock — From Haifa to the Iron Dome
Reports of
Israelis spying for Tehran—later verified through sources such as The Times
of Israel and The Jerusalem Post—are profoundly unsettling. For
those with an emotional connection to the country, the spectre of internal
betrayal is particularly disturbing. In a nation accustomed to living under
constant threat, especially in the wake of the October 7 massacre and Iran’s
stated project of destruction, any collaboration with the enemy is felt as a
profound rupture in collective trust—a breach to which Israeli society is
unaccustomed.
This article
seeks to analyse the context and the sociological drivers behind this
phenomenon.
The survival
of the Jewish people and, subsequently, the State of Israel has always been
anchored in a fierce sense of unity, historical memory, and shared
responsibility. Consequently, when cases emerge involving not merely
infiltrated foreign agents but ordinary Jewish citizens, the impact on the
national psyche is brutal: a mixture of perplexity, outrage, and grief.
Most
disconcerting is that this reality surfaces while the country remains scarred
by psychological warfare and the fear of infiltration. For many, the sense that
the threat can originate from within is as grave as the danger from without.
The New Face
of Espionage
One of the
most striking cases involved a ring dismantled in Haifa in October 2024,
leading to the arrest of seven immigrants from Azerbaijan. Despite being Jewish
and having made aliyah, they allegedly carried out some 600 missions for
Iranian intelligence over two years, including photographing airbases and
sensitive military installations.
More
recently, further cases have surfaced involving army reservists and active
personnel accused of transmitting sensitive data regarding defence systems and
high command. These episodes demonstrate that espionage no longer relies solely
on "classic" agents trained in deep-cover tradecraft. Today, it can
begin with a mobile phone, an online chat, and the promise of easy money.
Part II: The
‘Gamification’ of Treason via Social Media
Iranian
intelligence appears to have recalibrated its strategy. Eschewing traditional
methods, they increasingly leverage social media platforms—such as Telegram,
TikTok, and WhatsApp—to recruit the vulnerable. Messages are simple, discreet,
and tailored to various languages, including Hebrew, English, Russian, and
Arabic, to maximise the efficacy of the lure without raising suspicion.
This
recruitment is rooted less in ideology and more in human frailty. It begins
with seemingly innocuous tasks: posting flyers, taking photographs, or
recording urban details. Once a financial link is established through cash or
crypto payments, the most dangerous mechanism of all is deployed: blackmail.
From that point, extraction becomes nearly impossible.
The Roots of
Vulnerability
The most
worrying aspect is that this phenomenon is no longer confined to isolated
cases. In Israel, it is being treated as a genuine espionage epidemic. Those
involved include immigrants, soldiers, teenagers, young adults, a housewife,
and even an ultra-Orthodox youth. While the motivation is financial in some
cases and ideological in others, they all share a common denominator: the
weakening of the bond between the individual and the community.
The central
question is inevitable: how can someone agree to jeopardise their neighbours,
friends, family, and their own life? The answer lies not in a single cause, but
in a combination of psychological, social, and political factors. Many of these
individuals do not see themselves as "spies" in the classical sense.
They believe they are merely responding to messages, performing small tasks for
quick cash. Only too late do they realise they have entered a cycle of
compromise and extortion.
Part III:
The Erosion of the Social Pact and Neoliberalism
There is a
sociological dimension here that cannot be ignored. The transition from a
collectivist society to one governed by a more individualistic, competitive,
and materialist logic may have frayed the ties of belonging. When an individual
feels they are living merely to survive—indebted, isolated, or without a
horizon—they become prey.
The external
enemy does not necessarily recruit ideologues; it recruits the desperate and
the forgotten. Technology facilitates this by making crime appear mundane. What
once required direct contact and a clear conscience of gravity now begins with
a notification on a screen. The perpetrator no longer sees the human impact,
but merely a file, a photo, or a digital transfer.
Securing the
Future
Combating
this problem cannot be a purely carceral or security-focused endeavour. Action
is required on several fronts simultaneously. The first is the restoration of
the social pact, ensuring people feel they belong to a real community rather
than an impersonal system. The second is education in "digital
hygiene," enabling new generations to recognise social engineering and the
false promises of easy money.
The third is
the recovery of a sense of purpose. A society without memory or collective duty
becomes vulnerable to internal disintegration. It is not enough to teach
historical dates; one must cultivate the awareness that individual
responsibility has a direct impact on the safety and continuity of the
community.
It is also
vital to combat the banalisation of evil brought about by technology. When
recruitment occurs via short messages and micro-tasks, the crime begins to feel
like a game. However, behind this harmless appearance lies an activity capable
of endangering lives and compromising national security.
The silver
lining is that Israeli counter-intelligence continues to respond effectively.
These arrests show that the state is identifying and dismantling these
networks. Yet, the problem reveals a deeper fragility: it is not enough to
arrest the agents. We must understand why so many have become susceptible to
such recruitment.
In my view,
this phenomenon is not unique to Israel; it is a social anomaly symptomatic of
the wider Western socio-economic model. it reflects a crisis of values in
societies marked by extreme individualism, social inequality, and political
radicalisation. When collective trust weakens and public discourse becomes a
trench war between left and right, the sense of national responsibility is
hollowed out. In that vacuum, disloyalty ceases to be unthinkable and begins to
look, for some, like a viable exit.
Ultimately,
the challenge for Israel—and indeed any modern society—is to reclaim the
"we" without erasing the "I". National security depends not
only on tanks and technology but on the moral strength and social cohesion
required to prevent greed and isolation from destroying the human fabric from
within.
One should
recall the image of the Jewish people who survived 2,000 years of diaspora,
Inquisitions, and pogroms. It was the idea of community—the kibbutzim and the
social-democratic model—that built a prosperous, united Israel. That model of
shared responsibility must be recovered, and not only in Israel.
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Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.
EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.