domingo, 26 de abril de 2026

Conflito Israelo-Árabe: Uma Tragédia em Camadas Sobrepostas (Parte II)



(Parte II) – Do Caso Dreyfus "L'Affaire" à Partilha da Palestina pela  ONU

Vamos agora abordar a continuação deste tópico. Na primeira parte, explorámos as dimensões sobrepostas em épocas diferentes; aqui, analisamos a sobreposição simultânea de eventos civis e opções políticas, que se sucedem como peças de dominó, moldando o conflito atual. Do Caso Dreyfus (1894) até a Guerra da Independência (1948), passando por guerras, acordos e revoluções, uma lógica orgânica emerge em um caos aparente.

1. Raízes do Sionismo: Caso Dreyfus e Theodor Herzl

Theodor Herzl
A falência da Haskalá – o movimento do "Iluminismo Judaico" nos séculos XVIII-XIX, que visava assimilar judeus à cultura europeia – não eliminou o antissemitismo. Nacionalismos étnicos e raciais na Europa rejeitavam os judeus, cristalizando a "Questão Judaica", e nesse sentido, o Caso Dreyfus conhecido em França como L'Affaire (1894), em que o oficial francês e judeu, de nome Alfred Dreyfus, foi falsamente acusado de traição, esse caso expôs o ódio enraizado, dividindo a França entre dreyfusards (defensores da justiça) e antissemitas.

Este escândalo inspirou o jornalista Theodor Herzl a publicar Der Judenstaat (O Estado Judeu, 1896), propondo um lar nacional judaico fora da Europa para escapar à perseguição. Inicialmente, Herzl sugeriu a Argentina, onde já existia uma comunidade judaica, ou outras opções como Uganda (discutida no VI Congresso Sionista, 1903, mas rejeitada). A Palestina não era o foco primário; o objetivo era a sobrevivência cultural e religiosa da nação israelita (termo usado para as comunidades judaicas, evocando as 12 tribos de Jacob/Israel). Esta visão sionista inicial era pragmática, não expansionista.

2. Formação do Yishuv: Migração Voluntária e Renascimento Cultural

Nos séculos XVIII e XIX, judeus de diversas origens – rabinos, cabalistas e eruditos – migraram voluntariamente para a Palestina otomana, juntando-se aos Sabras (judeus nativos, vivendo como dhimmis sob proteção islâmica, mas com restrições). Formaram o Yishuv, uma comunidade auto-organizada com sindicatos, escolas, sinagogas e jornais. Destaque para Eliezer Ben-Yehuda, que reviveu o hebraico como língua viva, transformando-o de litúrgico em cotidiano.

A Segunda Aliyah (1904-1914) trouxe ~40.000 judeus da Europa Oriental, fugindo de pogroms russos, não para criar um Estado, mas para fortalecer o Yishuv e praticar o sionismo laborioso (kibutzim). Alternativas como o Oblast Autónomo Judaico soviético (1934, na Sibéria) falharam devido ao clima hostil e stalinismo, acolhendo apenas 43.000 imigrantes.

3. Primeira Guerra Mundial e o Mandato Britânico: Promessas Contraditórias

Em 1914, o Império Otomano aliou-se à Alemanha na I Guerra Mundial. Os britânicos prometeram aos judeus um "lar nacional" na Palestina (Declaração Balfour, 1917) e aos árabes independência (Correspondência Hussein-McMahon, 1915-1916), mas secretamente dividiram a região com a França (Acordo Sykes-Picot, 1916). Após a derrota otomana (1918), a Conferência de Sanremo (1920) atribuiu o Mandato Britânico sobre Palestina e Iraque aos ingleses, e Síria/Líbano aos franceses.

Para apaziguar árabes, os britânicos nomearam Hajj Amin al-Husseini Grande Mufti de Jerusalém (1921). No entanto, tumultos árabes (1920-1930) contra o domínio colonial e a imigração judaica culminaram no massacre de Hebron (1929), com 67 judeus mortos. Estes eventos refletem tensões nacionalistas árabes emergentes, que viam o Yishuv como ameaça demográfica.

4. Ascensão Nazi, Holocausto e Alianças Improváveis

Reunião de Husseini e Hitler
A Crise de 1929 pavimentou o poder nazi (1933). A Noite dos Cristais (Kristallnacht, 9-10 novembro 1938) marcou o terror: sinagogas incendiadas, lojas saqueadas e judeus assassinados na Alemanha e Áustria. O Holocausto (1941-1945) exterminou 6 milhões de judeus em campos como Auschwitz, validando o sionismo.

Al-Husseini, exilado em Berlim (1941), aliou-se a Hitler, recrutando uma Legião Árabe e muçulmanos para as SS, opondo-se à imigração judaica para Palestina (documentos nazis confirmam). Pós-guerra, antissemitismo persistiu: o Pogrom de Kielce (Polónia, 1946) matou 42 judeus com libelos de sangue, forçando sobreviventes a campos de deslocados.

5. O Exodus, a Resolução 181 e o Nascimento de Israel

Os britânicos bloquearam a imigração judaica, como no navio Exodus (1947): 4.500 sobreviventes do Holocausto intercetados em Haifa, feridos e deportados para Chipre/Europa, gerando protesto global (inspirou o filme Exodus, 1960). A ONU, criada em 1945, aprovou a Resolução 181 (29 novembro 1947), partilhando a Palestina em Estados judeu (55% do território) e árabe (45%), com Jerusalém internacional.

Ben Gurion, declara a Independência
Israel aceitou; líderes dos países árabes rejeitaram a autodeterminação da própria palestiniana para deslegitimar Israel, vendo a Independencia de Israel como uma violação por infiéis (dhimis) ao dogma do solo sagrado (Waqf). Os judeus por seu lado celebraram, ecoando e cumprindo o celebre brinde que durante 2000 anos de Diáspora diziam na Pessach: "Para o ano que vem, em Jerusalém!" Israel nasceu como Estado judaico e soberano no dia 14 de maio de 1948, o refúgio contra a perseguição – mas a rejeição árabe levou à Guerra da Independência no dia 15 foram invadidos por 5 exércitos regulares, Egipto, Síria, Líbano, Jordânia e Iraque. Era a guerra da independência para os judeus e a Nakba para os palestinianos, o inicio do conflito levou ao êxodo de 700.000 árabes para fora da Palestina e à expulsão de 900.000 judeus nos países árabes para dentro de Israel, que são os judeus ainda hoje denominados de mizrahim em Israel. Esta sobreposição europeia no Médio Oriente transferiu o conflito da Europa para aquela região. Com o Estado de Israel, a questão judaica estava resolvida na Europa, mas o antissemitismo ainda hoje persiste em existir.






































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English Version

Israel-Palestine: Historical Overlaps (Part II) – From the Dreyfus Affair to the UN Partition

By Filipe de Freitas Leal

Let's now address the continuation of this topic. In the first part, we explored overlapping dimensions in different eras; here, we analyze the simultaneous overlap of civil events and political options, which succeed like domino pieces, shaping the current conflict. From the Dreyfus Affair (1894) to the War of Independence (1948), passing through wars, agreements, and revolutions, an organic logic emerges in apparent chaos.

1.     Roots of Zionism: Dreyfus Affair and Theodor Herzl
The failure of the Haskalá – the "Jewish Enlightenment" movement in the 18th-19th centuries, which aimed to assimilate Jews into European culture – did not eliminate antisemitism. Ethnic and racial nationalisms in Europe rejected Jews, crystallizing the "Jewish Question." The Dreyfus Affair (1894), in which the French Jewish officer Alfred Dreyfus was falsely accused of treason, exposed deep-rooted hatred, dividing France between Dreyfusards (defenders of justice) and antisemites.
This scandal inspired journalist Theodor Herzl to publish Der Judenstaat (The Jewish State, 1896), proposing a Jewish national home outside Europe to escape persecution. Initially, Herzl suggested Argentina, where a Jewish community already existed, or other options like Uganda (discussed at the VI Zionist Congress, 1903, but rejected). Palestine was not the primary focus; the goal was the cultural and religious survival of the Israelite nation (term used for Jewish communities, evoking the 12 tribes of Jacob/Israel). This initial Zionist vision was pragmatic, not expansionist.

2.     Formation of the Yishuv: Voluntary Migration and Cultural Revival
In the 18th and 19th centuries, Jews from diverse origins – rabbis, kabbalists, and scholars – migrated voluntarily to Ottoman Palestine, joining the Sabras (native Jews, living as dhimmis under Islamic protection but with restrictions). They formed the Yishuv, a self-organized community with unions, schools, synagogues, and newspapers. Highlight to Eliezer Ben-Yehuda, who revived Hebrew as a living language, transforming it from liturgical to everyday use.
The Second Aliyah (1904-1914) brought ~40,000 Jews from Eastern Europe, fleeing Russian pogroms, not to create a state but to strengthen the Yishuv and practice labor Zionism (kibbutzim). Alternatives like the Soviet Jewish Autonomous Oblast (1934, in Siberia) failed due to harsh climate and Stalinism, hosting only 43,000 immigrants.

3.     World War I and the British Mandate: Contradictory Promises
In 1914, the Ottoman Empire allied with Germany in World War I. The British promised Jews a "national home" in Palestine (Balfour Declaration, 1917) and Arabs independence (Hussein-McMahon Correspondence, 1915-1916), but secretly divided the region with France (Sykes-Picot Agreement, 1916). After the Ottoman defeat (1918), the Sanremo Conference (1920) granted the British Mandate over Palestine and Iraq, and Syria/Lebanon to the French.
To appease Arabs, the British appointed Hajj Amin al-Husseini as Grand Mufti of Jerusalem (1921). However, Arab riots (1920-1930) against colonial rule and Jewish immigration culminated in the Hebron massacre (1929), with 67 Jews killed. These events reflect emerging Arab nationalist tensions, viewing the Yishuv as a demographic threat.

4.     Nazi Rise, Holocaust, and Improbable Alliances
The 1929 Crisis paved the way for Nazi power (1933). Kristallnacht (November 9-10, 1938) marked terror: synagogues burned, shops looted, and Jews murdered in Germany and Austria. The Holocaust (1941-1945) exterminated 6 million Jews in camps like Auschwitz, validating Zionism.
Al-Husseini, exiled in Berlin (1941), allied with Hitler, recruiting an Arab Legion and Muslims for the SS, opposing Jewish immigration to Palestine (confirmed by Nazi documents). Post-war, antisemitism persisted: the Kielce Pogrom (Poland, 1946) killed 42 Jews amid blood libel accusations, forcing survivors into displaced persons camps.

5.     The Exodus, Resolution 181, and the Birth of Israel
The British blocked Jewish immigration, as with the ship Exodus (1947): 4,500 Holocaust survivors intercepted in Haifa, injured, and deported to Cyprus/Europe, generating global outrage (inspiring the film Exodus, 1960). The UN, created in 1945, approved Resolution 181 (November 29, 1947), partitioning Palestine into a Jewish state (55% of the territory) and an Arab state (45%), with Jerusalem internationalized.
Israel accepted; Arab leaders rejected Palestinian self-determination to delegitimize Israel, viewing its independence as a violation by infidels (dhimmis) of sacred soil dogma (Waqf). Jews celebrated, echoing the famous Passover toast during 2,000 years of Diaspora: "Next year in Jerusalem!" Israel was born as a sovereign Jewish state on May 14, 1948, a refuge from persecution – but Arab rejection led to the War of Independence. On the 15th, it was invaded by 5 regular armies: Egypt, Syria, Lebanon, Jordan, and Iraq. It was the War of Independence for Jews and the Nakba for Palestinians; the conflict's onset led to the exodus of 700,000 Arabs from Palestine and the expulsion of 900,000 Jews from Arab countries into Israel, who are still called Mizrahim today. This European overlap in the Middle East transferred the conflict from Europe to that region. With the independence of Israel, the Jewish Question was resolved in Europe, but antisemitism stubbornly persists to this day.

Bibliografia Utilizada e Recomenda / References - Bibliography

  • Herzl, Theodor. Der Judenstaat [O Estado Judeu]. Viena: Verlag der Vereinigten Politischen Press Bureau, 1896. (Fonte primária do sionismo político; edições modernas em inglês: The Jewish State, Dover Publications, 1986.)
  • Laqueur, Walter. A History of Zionism. New York: Schocken Books, 1972. (Análise exaustiva das raízes sionistas, Aliyahs e Yishuv, desde Herzl até 1948.)
  • Friedman, Isaiah. The Question of Palestine: British-Jewish-Arab Relations. London: Routledge, 1973 (2ª ed. 1992). (Detalha promessas contraditórias: Balfour, Sykes-Picot e Hussein-McMahon.)
  • Sachar, Howard M. Europe Leaves the Middle East, 1936-1954. New York: Knopf, 1972. (Cobre Mandato Britânico, tumultos de 1929, Exodus e Resolução 181 da ONU.)
  • Bauer, Yehuda. A History of the Holocaust. New York: Franklin Watts, 1982 (rev. 2001). (Referência padrão sobre Holocausto, Kristallnacht e impacto no sionismo; inclui aliança al-Husseini-Hitler.)
  • Morris, Benny. 1948: A History of the First Arab-Israeli War. New Haven: Yale University Press, 2008. (Narrativa equilibrada da independência, invasões de 15/5/1948, Nakba e êxodo mizrahi inicial; usa arquivos de ambos os lados.)

Artigos de Revistas Especializadas / Articles in scholarly journals:

  • Karsh, Efraim. "The Crystallization of Palestinian Identity: The Failure of the Nationalist Alternative." Israel Affairs, vol. 9, no. 1-2, 2003, pp. 21-44. (Analisa rejeição árabe à Resolução 181 e nacionalismo palestino vs. pan-arabismo; Journal of Middle East Studies.)
  • Beinart, Peter. "The Jewish Nakba: The Forgotten Expulsion of Jews from Arab Lands." Jewish Review of Books, Fall 2014. (Discute êxodo de ~900.000 judeus mizrahim pós-1948, comparando à Nakba palestina; revista académica judaica.)

Estas fontes são acessíveis via JSTOR, Google Books ou bibliotecas académicas. Use-as em notas de rodapé no blog (ex.: "Herzl propôs... [Herzl, 1896]"). Para mais equilíbrio, adicione Pappe, Ilan (The Ethnic Cleansing of Palestine, 2006) na Parte III. Sugiro hyperlinks para PDFs legais onde possível.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Revolução Francesa e o Início da Emancipação dos Judeus (1789-1791)


Existe uma relação direta e fundamental entre a Revolução Francesa e a emancipação dos judeus, não apenas na França, mas em todo o mundo ocidental. No entanto, o que significa, na prática, a palavra "emancipação" neste contexto? Significa que, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o status jurídico dos judeus sofreria uma metamorfose: de súditos tolerados passariam a cidadãos com plena igualdade de direitos e deveres. O célebre lema Liberté, Égalité, Fraternité prometia liberdades fundamentais que incluíam a liberdade de pensamento, opinião e religião.
Todavia, a letra da lei não resolveu imediatamente o preconceito arraigado. Assim como os ciganos, os judeus eram vistos como um "corpo estranho" e indesejado na sociedade do Antigo Regime. Para entender como essa barreira foi rompida, precisamos analisar as lacunas e as tensões do processo revolucionário.
O Esquecimento dos Judeus na Ordem Revolucionária
A emancipação não foi um subproduto automático de 1789. Embora a Declaração afirmasse direitos universais, a aplicação prática foi seletiva. Em dezembro daquele ano, direitos políticos foram concedidos aos protestantes e até aos carrascos, mas os judeus foram deliberadamente ignorados. Essa exclusão baseava-se na percepção de que os judeus não eram apenas um grupo religioso, mas uma "nação dentro da nação". Com suas próprias leis, tribunais rabínicos e idiomas (como o Iídiche na Alsácia-Lorena e o Português e Ladino nas comunidades sefarditas do sul, formadas por 5.000 judeus de origem portuguesa maioritariamente em Bordéus e Baiona), eles eram vistos como estrangeiros inassimiláveis.
Após dois anos de debates acirrados, a Assembleia Constituinte finalmente estendeu a cidadania aos judeus askenazitas em 27 de setembro de 1791 (a Emancipação aos sefarditas de origem portuguesa situados sul de França ocorreu um ano antes, em 1790). Esta decisão não nasceu de uma benevolência puramente humanitária, mas de uma necessidade lógica: se a Revolução excluísse os judeus, o princípio da universalidade dos direitos ruiria, expondo o novo regime como uma farsa. Assim, a França tornou-se o primeiro Estado moderno a emancipar o povo judeu.
O Preço da Liberdade: Cidadania vs. Identidade
O preço dessa liberdade foi a assimilação. Os revolucionários acreditavam que séculos de segregação haviam "corrompido" o caráter judaico. Portanto, a exigência era a "regeneração": os judeus deveriam abandonar sua identidade nacional e corporativa em troca da cidadania individual. O lema da época era claro e severo: “Aos judeus como indivíduos, tudo; aos judeus como nação, nada.”
Isso significava que eles deveriam responder apenas às leis do Estado, extinguindo a jurisdição dos tribunais rabínicos. Para os judeus asquenazes da Alsácia, profundamente ligados às suas tradições comunitárias, esse contrato era doloroso. Já para os sefarditas de origem portuguesa no sul, mais integrados economicamente, a transição foi menos traumática, embora o antissemitismo popular permanecesse latente em ambas as regiões.
A Vida Antes da Emancipação: O "Estatuto de Tolerância"
Antes da Revolução, a vida judaica na Europa era marcada pela subumanidade jurídica. Não eram cidadãos, mas "propriedade" da Coroa ou dos senhores feudais. Em muitas regiões, pagavam o imposto do corpo (péage corporel), o mesmo tributo aplicado ao gado. Viviam sob o chamado "Estatuto de Tolerância", o que significava que sua presença era apenas suportada enquanto fosse economicamente vantajosa para o monarca.
As restrições eram totais: não podiam possuir terras, ocupar cargos públicos ou ingressar em guildas profissionais. Eram empurrados para o comércio e para o empréstimo a juros — atividades que o Estado permitia, mas que alimentavam o ódio popular e o estereótipo do agiota. O isolamento era físico, com a obrigatoriedade de residir em guetos cujos portões eram frequentemente trancados à noite, em Portugal os guetos tinham o nome de Judiarias, que desapareceram gradativamente após a grande expulsão de 1497 por ordem de D. Manuel I, as conversões forçadas em Cristãos Novos e o grande Pogrom de Lisboa em 1506.
O Pós-Emancipação e o Antissemitismo Moderno
A igualdade perante a lei não extinguiu o ódio secular. Na Alsácia e Lorena, a emancipação foi seguida por pogroms e violência camponesa, motivados por dívidas econômicas e ressentimento religioso. O judeu, agora cidadão, era visto como um competidor ainda mais perigoso.
Em última análise, a Revolução Francesa foi o ponto de virada necessário. Ela retirou os judeus da situação de inferioridade jurídica e colocou-os no centro da vida política e social. Contudo, ao forçar a escolha entre a fé e a pátria, e criou as condições para fortalecer a Haskalá (o iluminismo judaico) que foi ao encontro da Assimilação pretendida, mas por outro lado, plantou as sementes de um novo tipo de conflito. Esse antissemitismo latente, que não mais aceitava o judeu nem como "súdito segregado" e muito menos como "cidadão igual", que acabaria por culminar séculos depois em crises profundas, como o Caso Dreyfus, provando que a lei muda a sociedade mas dificilmente muda o coração dos homens.
Este artigo tem continuação.
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English Version

The French Revolution and Jewish Emancipation

By Filipe de Freitas Leal

There is a direct and fundamental relationship between the French Revolution and the emancipation of the Jews, not only in France but across the Western world. However, what does the word "emancipation" actually mean in this context? It means that, with the Declaration of the Rights of Man and of the Citizen, the legal status of Jews underwent a metamorphosis: they transitioned from tolerated subjects to citizens with full equality of rights and duties. The famous motto Liberté, Égalité, Fraternité promised fundamental freedoms that included freedom of thought, opinion, and religion.

However, the letter of the law did not immediately resolve deep-seated prejudice. Much like the Romani people, Jews were viewed as a "foreign body" and unwanted within the society of the Ancien Régime. To understand how this barrier was broken, we must analyze the gaps and tensions of the revolutionary process.

The Oversight of Jews in the Revolutionary Order

Emancipation was not an automatic byproduct of 1789. Although the Declaration asserted universal rights, its practical application was selective. In December of that year, political rights were granted to Protestants and even to executioners, yet Jews were deliberately ignored. This exclusion was based on the perception that Jews were not merely a religious group, but a "nation within a nation." With their own laws, rabbinical courts, and languages—such as Yiddish in Alsace-Lorraine and Portuguese and Ladino in the Sephardic communities of the south (comprised of 5,000 Jews of Portuguese origin, mostly in Bordeaux and Bayonne)—they were seen as unassimilable foreigners.

After two years of heated debate, the Constituent Assembly finally extended citizenship to Ashkenazi Jews on September 27, 1791 (emancipation for Sephardic Jews of Portuguese origin in southern France had occurred a year earlier, in 1790). This decision was not born out of purely humanitarian benevolence, but out of logical necessity: if the Revolution excluded Jews, the principle of the universality of rights would collapse, exposing the new regime as a farce. Thus, France became the first modern state to emancipate the Jewish people.

The Price of Freedom: Citizenship vs. Identity

The price of this freedom was assimilation. Revolutionaries believed that centuries of segregation had "corrupted" the Jewish character. Therefore, the demand was for "regeneration": Jews were expected to abandon their national and corporate identity in exchange for individual citizenship. The motto of the era was clear and severe:

"To the Jews as individuals, everything; to the Jews as a nation, nothing."

This meant they were to answer only to the laws of the State, extinguishing the jurisdiction of rabbinical courts. For the Ashkenazi Jews of Alsace, deeply tied to their communal traditions, this social contract was painful. Conversely, for the Sephardic Jews of Portuguese origin in the south, who were more economically integrated, the transition was less traumatic, although popular antisemitism remained latent in both regions.

Life Before Emancipation: The "Statute of Tolerance"

Before the Revolution, Jewish life in Europe was marked by legal subhumanity. They were not citizens, but the "property" of the Crown or feudal lords. In many regions, they paid a body tax (péage corporel), the same tribute applied to livestock. They lived under the so-called "Statute of Tolerance," which meant their presence was merely endured as long as it remained economically advantageous for the monarch.

Restrictions were absolute: they could not own land, hold public office, or join professional guilds. They were pushed into trade and moneylending—activities the State permitted but which fueled popular hatred and the stereotype of the usurer. Isolation was physical, with the mandatory residence in ghettos whose gates were often locked at night. In Portugal, these ghettos were called Judiarias, which gradually disappeared after the mass expulsion in 1497 by order of King Manuel I, the forced conversions into "New Christians," and the Great Lisbon Pogrom of 1506.

Post-Emancipation and Modern Antisemitism

Equality before the law did not extinguish age-old hatred. In Alsace and Lorraine, emancipation was followed by pogroms and peasant violence, driven by economic debt and religious resentment. The Jew, now a citizen, was seen as an even more dangerous competitor.

Ultimately, the French Revolution was a necessary turning point. It removed Jews from a state of legal inferiority and placed them at the center of political and social life. However, by forcing a choice between faith and fatherland, it created the conditions to strengthen the Haskalah (the Jewish Enlightenment), which aligned with the intended assimilation. On the other hand, it planted the seeds of a new kind of conflict. This latent antisemitism no longer accepted the Jew as a "segregated subject" and even less as an "equal citizen," eventually culminating centuries later in profound crises like the Dreyfus Affair, proving that while law can change society, it can rarely change the hearts of men.

Bibliografia em português / Portuguese References

  • AZEVEDO, J. Lúcio de. História dos Cristãos-Novos Portugueses. Lisboa: Estampa, 1989. (Essencial para o contexto da diáspora sefardita de origem portuguesa em Bordéus e Baiona).

  • BADINTER, Robert. Livre e Iguais: A Emancipação dos Judeus (1789-1791). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991. (A obra definitiva sobre os debates na Assembleia Constituinte francesa).

  • DUBNOV, Simon. História do Povo Judeu. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987. (Oferece uma visão panorâmica da transição para a modernidade).

  • HERCULANO, Alexandre. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. (Importante para entender o antecedente da expulsão e o porquê da fuga para o sul da França).

  • SCLIAR, Moacyr. A Judia que Sabia Demais. (Embora ficcional em partes, seus ensaios sobre a condição judaica na modernidade abordam a tensão entre identidade e assimilação).


Bibliografia em Inglês / English References

  • BIRNBAUM, Pierre; KATZNELSON, Ira. Paths of Emancipation: Jews, States, and Citizenship. Princeton: Princeton University Press, 1995. (Analyses the "price" of citizenship across different Western nations).

  • HERTZBERG, Arthur. The French Enlightenment and the Jews: The Origins of Modern Anti-Semitism. New York: Columbia University Press, 1968. (A controversial and brilliant work arguing that the Enlightenment itself contained the seeds of modern antisemitism).

  • HYAMSON, Albert M. The Sephardim of England: A History of the Spanish and Portuguese Jewish Community, 1492-1951. London: Methuen, 1951. (Useful for the context of the Western Sephardic communities).

  • KERTZER, David I.; VATRI, Fabrizio. The Jews in Modern France. Berkeley: University of California Press, 1996.

  • MALINO, Frances. The Sephardic Jews of Bordeaux: Assimilation and Emancipation in Revolutionary and Napoleonic France. Tuscaloosa: University of Alabama Press, 1978. (The best specific reference for the Portuguese-origin Jews mentioned in your text).

  • VITAL, David. A People Apart: A Political History of the Jews in Europe 1789-1939. Oxford: Oxford University Press, 1999.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Conflito Israelo-Árabe: Uma Tragédia em Camadas Sobrepostas (Parte I)







(Parte I) Da Teologia Cristã do Séc I aos Nacionalismos  na Europa

Muitas vezes acredita-se que o conflito no Médio Oriente teve início em 1948. No entanto, um olhar atento à história revela que esta é, na verdade, uma tragédia de milénios, onde camadas teológicas e políticas se sobrepuseram para criar o impasse atual. Para compreender o presente, é preciso escavar o passado — de Roma à Europa Moderna, do dogma cristão à ortodoxia islâmica.

O Solo Sagrado - a Dimensão Teológica Islâmica 

O Islão, surgiu no  ano 622 EC, século VII, pelo Profeta Mohammed (Maomé) e tem uma mundivisão, na qual divide o mundo de forma binária: o Dar Al-Islam (Casa do Islão), indissociável do conceito de Waqf (património sagrado inalienável), e o Dar Al-Harb (Casa da Guerra), o mundo ainda por converter ou conquistar. Neste sentido, para a ortodoxia islâmica, a existência de Israel é vista como uma conspurcação ou um sacrilégio de um solo que se tornou sagrado.
De acordo com a doutrina tradicional, uma vez que uma terra foi integrada ao Dar al-Islam, ela deve pertencer a essa esfera para sempre. A criação de um Estado não-muçulmano em solo que foi governado pelo Islão por séculos — desde a conquista de Omar no século VII, tendo o intervalo do Reino Cristão de Jerusalém que foi conquistada aos cruzados em 2 de outubro de 1187 pelo líder muçulmano Saladino (Salah ad-Din) — é vista como uma regressão inaceitável. Na tradição corânica, judeus e demais infiéis, incluíndo os cristão, deveriam viver sob a condição de dhimmis (minorias protegidas, mas subordinadas). Estes conceitos estão na base religiosa do confronto.

As Raízes Europeias do Conflito - a Dimensão Cristã

Contudo, o problema moderno tem raízes profundas na Europa. Se na dimensão islâmica o obstáculo era o dogma do solo sagrado, na dimensão cristã europeia imperou o dogma do Deicídio. O Império Romano iniciou a Diáspora forçada e a renomeação da Judeia para Palestina. A partir de Constantino, (que não era batizado) foi oficializada a religião cristã, e feitos concílios onde se iniciou a marginalização dos judeus de forma institucional, nomeadamente com a Teologia da Substituição, em que os judeus por terem morto Jesus e não o  terem reconhecido como Messias deixaram de ser na ótica cristã, o povo de Deus, e é este o elemento que fundamentou o Antissemitismo na Europa cristã.
Ao longo dos séculos, essa exclusão assumiu formas violentas: expulsões em massa (como na Inglaterra e França medievais), o terror da Inquisição na Península Ibérica e os sangrentos pogroms na Europa de Leste e Rússia. A essa pressão somou-se a dimensão judaica, que é a própria resiliência do povo judeu na preservação da sua identidade, etnia, religião e cultura distinta que os mantinha como um povo separado, não apenas pelas comunidades israelitas espalhadas pelo mundo, mas também pelos guetos.

Das Revoluções Liberais ao Nacionalismo - a Dimensão Política.

Com o surgimento dos Estados-nação, fruto das revoluções liberais do fim do século XVIII e no início do século XIX, como fruto da Revolução Francesa, os judeus passaram a ser vistos como o "elemento estranho". A Europa de forma endémica, ansiava por ver-se livre dos judeus, e para alimentar este ódio, surgiram ferramentas de propaganda como os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação da polícia secreta czarista para culpar os judeus pelas agitações sociais. Quando a tentativa de integração via Haskalá (Iluminismo Judaico) faliu perante este antissemitismo sistémico, nasceu o Sionismo. Este movimento de autodeterminação foi, por fim, tragicamente validado pelo Holocausto, devido à exclusão que culminou na criação dos guetos na Europa do Leste durante a ocupação nazi, onde centenas de milhares de pessoas, como no caso de Varsóvia, foram empilhadas em condições subumanas de fome e doenças em áreas de apenas 3 km², transformando bairros históricos em antecâmaras para o extermínio. Assim, o Sionismo não foi uma ideolgia e nem sequer uma escolha opcional, mas a única saída para um problema profundamente europeu, tendo em conta a sua origem histórica e geografica.

O Testemunho da Pedra - a Dimensão Documental dos Factos Históricos 

A imagem que ilustra esta reflexão é a do Arco do Triunfo de Tito, em Roma. Ele é o testemunho histórico da guerra romano-judaica. Ali, gravada na pedra, está a prova de que o passado de há dois mil anos nunca deixou de estar presente nos dias atuais.
Resta-me dizer ainda, que não me cabe a competência de resolver o conflito, nem a pretensão de tomar partido como se de um jogo se tratasse. Cabe-me sim, o desejo pela paz e o esforço para compreender as raízes deste confronto, e procuro fundamentar o meu ponto de vista em dados históricos concretos em vez de narrativas ideológicas que ignoram a verdade dos factos.

Bibliografia Consultada

Para dar "qualidade e referências" a este estudo, consultei as seguintes obras de referência:

  • BENSOUSSAN, George. As Origens do Conflito Israelo-Árabe (1870-1950). Lisboa: Editora Guerra & Paz, 2009.
    (Preferi esta edição de Portugal, por ser-me a mais acessível do que a edição original no idioma francês).
  • ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
    (Nota: No Brasil, o volume que contém "A Origem do Antissemitismo Moderno" é publicado pela Companhia das Letras).
  • HERZL, Theodor. O Estado Judeu. Lisboa: Antígona, 2009.
    (Preferi esta edição de Portugal, por ser a mais atual e acessível no idioma).
  • MORRIS, Benny. The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947–1949. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
    (Nota: Não existe edição portuguesa deste título específico. A obra do autor publicada no Brasil é "Um Estado, Dois Estados", pela Editora Sêfer que irei consultar para a segunda parte da introdução).
  • ROSS, Dennis. The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2004.
    (Nota: Permanece a edição original em inglês, pois não há tradução para o português no Brasil ou em Portugal até o momento).
  • YE'OR, Bat. The Dhimmi: Jews and Christians Under Islam. London: Fairleigh Dickinson University Press, 1985.
    (Nota: Obra sem tradução para o português; utiliza-se a referência internacional padrão).
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Este artigo tem continuação na Parte II ainda a ser elaborada. Previsão entre uma a duas semanas.

English Version

The Arab-Israeli Conflict: A Tragedy of Overlapping Layers (Part I)

By Filipe de Freitas Leal

It is a common misconception that the conflict in the Middle East began in 1948. However, an analytical examination of history reveals a millennia-old tragedy, where theological and political strata have overlapped to create the current impasse. To comprehend the present, one must excavate the past—from Rome to Modern Europe, and from Christian dogma to Islamic orthodoxy.

Sacred Soil – The Islamic Theological Dimension

Islam emerged in 622 CE (7th century) through the Prophet Muhammad, presenting a world-view that divides the globe into a binary structure: Dar al-Islam (the House of Islam), which is inseparable from the concept of Waqf (an inalienable sacred endowment), and Dar al-Harb (the House of War), representing the world yet to be converted or conquered. Consequently, within Islamic orthodoxy, the existence of Israel is perceived as a desecration or a sacrilege of soil that has been rendered sacred.

According to traditional doctrine, once a land has been integrated into Dar al-Islam, it must belong to that sphere in perpetuity. The establishment of a non-Muslim state on land that was governed by Islam for centuries—from the conquest by Umar in the 7th century, notwithstanding the interval of the Christian Kingdom of Jerusalem (later reconquered from the Crusaders on 2 October 1187 by the Muslim leader Saladin)—is viewed as an unacceptable regression. In the Qur'anic tradition, Jews and other "infidels", including Christians, were expected to live under the status of dhimmis (protected but subordinated minorities). These concepts form the religious foundation of the confrontation.

The European Roots of the Conflict – The Christian Dimension

Nevertheless, the modern problem has deep roots in Europe. Whilst the Islamic dimension presented the obstacle of sacred soil, the European Christian dimension was dominated by the dogma of Deicide. The Roman Empire initiated the forced Diaspora and the renaming of Judaea to Palestine. From the reign of Constantine onwards (who, notably, was not baptised at the time), the Christian religion was officialised. Subsequent councils initiated the institutional marginalisation of the Jews, most notably through "Replacement Theology" (Supersessionism). This doctrine posited that because the Jews had killed Jesus and failed to recognise him as the Messiah, they had ceased to be God’s chosen people in the Christian view. This element served as the fundamental basis for anti-Semitism in Christian Europe.

Over the centuries, this exclusion manifested in violent forms: mass expulsions (as seen in medieval England and France), the terror of the Inquisition in the Iberian Peninsula, and the bloody pogroms in Eastern Europe and Russia. Added to this pressure was the Jewish dimension itself—the resilience of the Jewish people in preserving their distinct identity, ethnicity, religion, and culture, which maintained them as a separate people, not only through scattered communities worldwide but also through the imposition of ghettos.

From Liberal Revolutions to Nationalism – The Political Dimension

With the rise of nation-states resulting from the liberal revolutions of the late 18th and early 19th centuries—the fruit of the French Revolution—Jews began to be perceived as the "alien element". Europe, in an endemic fashion, yearned to rid itself of its Jewish population. To fuel this animosity, propaganda tools emerged, such as The Protocols of the Elders of Zion, a forgery by the Tsarist secret police designed to blame Jews for social unrest. When the attempt at integration via the Haskalah (Jewish Enlightenment) failed in the face of this systemic anti-Semitism, Zionism was born. This movement of self-determination was, ultimately and tragically, validated by the Holocaust. This was the culmination of an exclusion that led to the creation of ghettos in Eastern Europe during the Nazi occupation, where hundreds of thousands—as in the case of Warsaw—were crowded into subhuman conditions of starvation and disease within areas of just 3 km², transforming historic neighbourhoods into antechambers for extermination. Thus, Zionism was not merely an ideology or an optional choice, but the sole recourse to a profoundly European problem, given its historical and geographical origins.

The Testimony of Stone – The Documentary Dimension of Historical Facts

The image illustrating this reflection is that of the Arch of Titus in Rome. It serves as a historical testimony to the Roman-Jewish War. There, etched in stone, lies the proof that the past of two thousand years ago has never ceased to be present in the modern day.

It remains for me to state that I possess neither the competence to resolve the conflict nor the pretension to take sides as if it were a game. Rather, I am driven by a desire for peace and an effort to understand the roots of this confrontation. I seek to ground my perspective in concrete historical data rather than ideological narratives that ignore factual truth.

Consulted Bibliography

To provide academic rigour and references to this study, the following seminal works were consulted:

BENSOUSSAN, George. As Origens do Conflito Israelo-Árabe (1870-1950). Lisbon: Editora Guerra & Paz, 2009. (The Portuguese edition was preferred due to its accessibility over the original French).

ARENDT, Hannah. The Origins of Totalitarianism: Antisemitism, Imperialism, Totalitarianism. New York: Harcourt, Brace & Co., 1951. (Note: In Brazil, the volume containing "The Origins of Modern Antisemitism" is published by Companhia das Letras).

HERZL, Theodor. The Jewish State (Der Judenstaat). 1896. (The 2009 Portuguese edition by Antígona, Lisbon, was utilised for this study).

MORRIS, Benny. The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947–1949. Cambridge: Cambridge University Press, 1987. (Note: No Portuguese edition of this specific title exists; the author's work One State, Two States is available via Editora Sêfer).

ROSS, Dennis. The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2004. (Original English edition consulted as no Portuguese translation is currently available).

YE'OR, Bat. The Dhimmi: Jews and Christians Under Islam. London: Fairleigh Dickinson University Press, 1985. (Consulted via the standard international reference).


This article continues in Part II, currently in preparation. Expected within one to two weeks.


 
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