sexta-feira, 10 de julho de 2026

Como se Organizava a Judeia sob Ocupação Romana? (Capítulo 2)


A Rutura Asmoneia e a Brecha para Roma

Para compreendermos a perda da soberania judaica, importa recuar um século na história. Após a gloriosa Revolta dos Macabeus contra os gregos selêucidas, a dinastia asmoneia havia conseguido reconsagrar o Segundo Templo — o Beit HaMikdash HaSheni (בֵּית הַמִּקְדָּשׁ הַשֵּׁנִי). Foi a purificação deste santuário que deu origem à festividade de Chanuká (חֲנֻכָּה) termo que significa ‘dedicação’. Este feito devolveu à Judeia um período de relativa independência e paz. Contudo, esta mesma linhagem mergulhou mais tarde numa violenta e fratricida guerra civil.

De um lado, o rei e sumo pontífice eram a mesma pessoa, Aristóbulo II; do outro, erguia-se o seu irmão, Hircano II, liderando tropas revoltosas. De acordo com os relatos de Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas, constatamos que, no epicentro destes litígios bélicos e de profunda fragilidade interna, no ano 63 AEC, o Reino da Judeia foi invadido pelo exército da República Romana. O General Pompeu, o Grande, aproveitou a brecha e ocupou Jerusalém com as suas legiões. Ao apoiar as fações de Hircano II, Pompeu depôs o rei Aristóbulo II e entregou as rédeas do poder ao irmão rebelde.

O Trauma no Santo dos Santos: Pompeu e o Deus Invisível

Há um episódio deste momento que merece ser aqui lembrado, registado no Livro 1, Capítulo 7 de A Guerra dos Judeus (Josefo, 75 CE). Trata-se de um choque cultural e religioso imenso: o General Pompeu cometeu o terrível sacrilégio de entrar pessoalmente no Santo dos Santos, o Kodesh HaKodashim (קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים) — o lugar mais sagrado e inviolável do Templo, onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar, e somente uma vez por ano.

Pompeu esperava encontrar ali uma estátua de ouro do Deus dos judeus, à semelhança dos deuses pagãos da época. Para seu espanto, o recinto estava completamente vazio. Como bem descreve Montefiore (2011), o general romano avançou pelas cortinas e mistérios do santuário apenas para se deparar com o vazio absoluto; nem poderia ser de outra forma, era a coerência de um monoteísmo sem imagens: o vazio simbolizava fielmente a presença do Deus único e invisível no Santo dos Santos. A Arca da Aliança fora levada em 586 AEC pelos babilónios e, quando os judeus regressaram do exílio para erguer o Segundo Templo em 515 AEC, o coração do santuário permaneceu despido de qualquer imagem.[1] Embora Pompeu não tenha saqueado os tesouros materiais do Templo, a sua intrusão profana foi sentida por toda a nação judaica como uma humilhação insuportável, gerando um trauma religioso profundo que alimentaria o ódio judaico contra o jugo romano durante séculos.

A Teocracia Tutelada: O Templo, o Sinédrio e os Rabinos sob o Olhar de Roma

A partir daquele fatídico ano, a Judeia passou a figurar como um Reino Vassalo, curvado aos interesses da República Romana — importa lembrar que, nesta época, Roma ainda não era governada como um Império. Hircano II, agora sob a tutela de Roma, geria a política e a economia doméstica e acumulava a função de Sumo Sacerdote. Contudo, a forma como subira ao trono, revoltando-se contra o próprio irmão com o auxílio de forças estrangeiras, despiu-o de qualquer legitimidade moral aos olhos de grande parte do povo. Como bem aponta Goodman (2007), a interferência romana na escolha dos líderes locais quebrou a linha tradicional da autoridade divina, gerando, em grande medida, uma profunda sensação de abandono do povo por parte do Templo.

Para compreendermos a sociedade judaica desta era, temos de olhar para ela como uma estrutura piramidal e profundamente teocrática, cujo centro gravitacional absoluto era o Segundo Templo. O Templo estava longe de ser um mero espaço de culto; ele acumulava funções que hoje dividiríamos por várias instituições do Estado. Era o equivalente à Suprema Corte, albergando o Sinédrio, o Sanedrin (סַנְהֶדְרִין), que reunia na chamada "Sala das Pedras Polidas" para exercer o poder judicial em matérias religiosas, civis e criminais. Funcionava também como um Senado ou Grande Assembleia, a Knesset (כְּנֶסֶת), detendo o poder legislativo através da interpretação das leis bíblicas e da promulgação de decretos. Por fim, operava como o autêntico Banco Central da nação. Conhecido também como a Casa do Tesouro, o Otzar HaBeit (אוֹצַר הַבַּיִת), o Templo centralizava a cobrança de impostos e donativos e servia de cofre-forte onde os cidadãos podiam depositar as suas economias em segurança.

Todavia, com a dominação romana, essas funções foram controladas e perderam a autonomia. Nas decisões finais, quer do Sinédrio, quer da Knesset, ou mesmo na gestão bancária, nada poderia ser feito sem a autorização e o controlo rígido de Roma. Foi esta situação que deu a ideia ao povo de que o Templo se corrompera — não no sentido de uma prevaricação individual, mas porque perdera a sua natureza e função inicial. Esta subordinação ao poder pagão é descrita por Sanders (1992) como o catalisador para a perda do prestígio da aristocracia do Templo junto das massas. Ao verem o Templo corrompido, o povo passou a conferir aos rabinos uma maior importância e legitimidade religiosa, na medida em que estes estavam ao seu lado para manter vivas a fé, as tradições, a cultura e a identidade judaica. Em certo sentido, os rabinos acabaram por ser uma resistência à dominação estrangeira. Foi nesta época que surgiram duas grandes correntes do pensamento rabínico de importância fulcral: a Escola do Rabbi Hillel, o Ancião (110 AEC – 8 EC) e a Escola do Rabbi Shammai (50 AEC – 30 EC).

A Perda da Autonomia sob o Domínio Romano

A ocupação romana veio impor uma mudança de vida e organização a toda a sociedade da Judeia. Não apenas impôs a submissão à tutela de Roma, não se limitando a uma mudança coreográfica no topo do poder; chegou para reconfigurar e submeter as instituições mais sagradas da Judeia. Para garantir que a província fosse efetivamente controlada, a engrenagem romana anulou a independência administrativa, jurídica e financeira local através de três eixos asfixiantes:

  • O Sumo Sacerdote - Cohen Gadol (כֹּהֵן גָּדוֹל): Deixou de ser um cargo dinástico ou vitalício e passou a ser um cargo ao serviço de Roma, nomeado pelo próprio César, que tinha a autoridade de destituir e nomear os Sumos Sacerdotes de acordo com os interesses políticos; nesse sentido, operava como um mero vassalo. (Goodman, 2007)
  • O Sinédrio (Suprema Corte): Era a autoridade jurídica, composta por 71 membros, os 70 sábios e o Presidente Nassi (נָשִׂיא), órgão que legislava à medida que fazia a jurisprudência e a interpretação da Legislação em vigor — a Torá escrita e a tradição oral (leis consuetudinárias). Como o Sinédrio podia julgar, mas não condenar à morte, os crimes de sedição e lesa-majestade não podiam ser sentenciados por este conselho; tinham de ser enviados para a instância superior, ou seja, o Tribunal Romano denominado Praetorium (Pretório) (Sanders, 1992). Ali, o magistrado era o próprio Governador Romano, que na prática exercia o poder supremo acima do Rei da Judeia e do Sumo Pontífice. Foi devido a esta limitação que Jesus não pôde ser julgado em definitivo pelo Sinédrio, mas falaremos disto mais adiante.
  • O Tesouro do Templo: Em teoria, detinha as funções de banco central, onde as pessoas podiam guardar os seus bens valiosos em segurança. Com o domínio romano, porém, foi repetidamente saqueado ou taxado por generais romanos. Tamanha era a riqueza do Templo e a dimensão do saque que muito desse dinheiro serviu para custear obras monumentais na própria cidade de Roma (Goodman, 2007).

A Dinâmica do Poder Local: Da Linhagem Sagrada aos Idumeus

Na hierarquia do poder, a palavra final sobre a geopolítica e os assuntos macroeconómicos pertencia ao Governador Romano da Síria, que representava os interesses de Roma na região. Ao governante local cabiam apenas os assuntos domésticos de menor relevância para a República.

O arranjo de Hircano II como Etnarca e Sumo Sacerdote durou pouco tempo. Os romanos acabaram por lhe retirar os títulos políticos e transferiram a administração civil para uma outra linhagem influente na região. O poder escorregou assim dos asmoneus para os idumeus. Foi desta dinastia idumeia que emergiu o infame Rei Herodes, um monarca que não pertencia à linhagem real de David nem à nobreza judaica, mas que herdou a coroa por direta imposição e conveniência de Roma (Josefo, 75 CE).

O Mosaico Sectário: Entre a Lei, a Ascese e a Lâmina

No xadrez religioso, o tecido social dividia-se naquilo que Flávio Josefo descreve como as principais escolas filosóficas — ou seitas — que disputavam a influência sobre as mentes e corações da Judeia:

  • Os Fariseus: Judeus devotos, profundamente observantes das leis religiosas e da tradição oral. Como bem observa Sanders (1992), eles tendiam a conformar-se com o domínio político de Roma, desde que tivessem total liberdade para praticar a sua fé. Tinham grande apoio entre as classes populares.
  • Os Saduceus: Uma elite aristocrática e sacerdotal, que formava uma espécie de partido da classe alta. Controlavam as funções políticas do Templo e aliavam-se frequentemente ao poder romano para salvaguardar a sua riqueza, influência e estatuto (Goodman, 2007).
  • Os Essénios: Místicos e ascetas que viviam o judaísmo de forma radical. Repudiando a corrupção política e as disputas de poder em Jerusalém, isolaram-se em comunidades monásticas nas montanhas do deserto da Judeia e na região do Negueve.
  • Os Zelotas e os Sicários: À margem dos grupos acima, erguia-se uma fação político-militar de resistência intransigente. Combinando o zelo religioso com o nacionalismo radical, recusavam categoricamente pagar tributo a um soberano pagão e viam a submissão a Roma como uma traição a Deus, recorrendo ao punhal e à guerrilha urbana para semear o estopim da revolta armada.

A Economia da Submissão e o Apagamento Cultural

A transição para o modelo de vassalagem romana esmagou a economia local. Roma passou a exigir impostos pesados — afinal, eram os tributos extraídos das províncias e reinos vassalos que financiavam a máquina pública e a opulência romana. Empresas privadas de cobrança de impostos estabeleceram-se na região através dos chamados Publicanos. Estes cobradores tornaram-se o rosto visível da opressão e um foco constante de revolta popular, uma vez que a população judaica se via obrigada a entregar até 25% de tudo o que produzia. Este sufoco financeiro gerou um desespero social profundo, criando o solo fértil ideal para que as promessas messiânicas e de libertação divina florescessem entre as massas (Sanders, 1992).

A base desta pirâmide social era composta por camponeses, agricultores, pastores e artesãos — uma massa considerável de camponeses pobres que subsistia de forma rudimentar. Como medida de contenção política, uma fatia significativa da população que se mantivera fiel ao deposto Aristóbulo II foi escravizada e deportada para Roma. Foi a estratégia encontrada pelos romanos e por Hircano II para extirpar potenciais líderes de motins e limpar a oposição (Goodmann, 2007).

À semelhança do que fizera em invasões anteriores sob o domínio de babilónios, assírios, persas e gregos, a Judeia enfrentava agora um novo império. Contudo, a ocupação romana não visava apenas a extração de recursos; o objetivo a longo prazo era a assimilação cultural e a Pax Romana. Embora inicialmente tenham mantido algumas estruturas locais, o plano final exigia uma submissão identitária total.

O verdadeiro ponto de viragem ocorreu no ano 6 EC. O etnarca Herodes Arquelau, que herdara o governo de seu pai, Herodes o Grande, demonstrou uma incapacidade crónica de liderança. Após anos de um governo despótico e marcado por extrema crueldade, Arquelau foi formalmente deposto pelo Imperador César Augusto. Roma aboliu de imediato o estatuto de Reino Vassalo, fundindo a Judeia, a Samaria e a Idumeia numa única Província Romana de Administração Direta (Joséfo, 75 CE). A soberania local, que já era puramente simbólica, desaparecia por completo; a partir de então, o novo governador romano ditava as ordens a partir da capital costeira de Cesareia.

Para inaugurar este novo regime fiscal, o Governador Romano da Síria, Públio Sulpício Quirino, ordenou um recenseamento geral de pessoas e bens. Para a mentalidade judaica, este censo era intolerável. Ser contado por um império pagão equivalia a aceitar que o povo escolhido se tornara propriedade de Roma. Este insulto teológico e económico serviu de estopim definitivo para inflamar o radicalismo dos Zelotas e dos Sicários, arrastando as massas camponesas para a clandestinidade e para a revolta (Goodmann, 2007).

Foi precisamente neste ambiente de sufoco quotidiano, desespero social e fervor apocalítico que se extinguiu qualquer ilusão de conciliação com o invasor pagão. Se as instituições tradicionais do Templo pareciam corrompidas e os punhais dos rebeldes traziam apenas uma brutal retaliação militar, a salvação da nação judaica teria de vir diretamente de uma intervenção divina. O solo estava fértil para o messianismo popular. É neste cenário de busca por libertação espiritual que começam a ecoar na Galileia as pregações de uma nova e carismática fação dissidente: a seita judaica dos Notzrim. Como veremos nos próximos capítulos, este não seria um fenómeno isolado, integrando uma longa e trágica esteira de movimentos messiânicos que culminaria, décadas mais tarde, com a revolta de Bar Kokhba (Sanders, 1992).


[1] É frequente confundir os espólios retratados no Arco de Tito, em Roma, com a Arca da Aliança. Todavia, os relevos romanos mostram apenas a Mesa dos Pães da Proposição e a Menorá; a Arca já tinha desaparecido séculos antes, aquando da invasão babilónica em 586 AEC.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Dos hebreus aos judeus — A origem ancestral do antissemitismo ( 1°Capituloo)




A mais longa hostilidade da história humana

Uma das questões que mais me perseguiu durante muito tempo foi entender onde, quando, como e porquê surgiu o ódio aos judeus. A maioria das pessoas, influenciada pelos meios de comunicação e por publicações rápidas e descontextualizadas, foca-se no conflito israelo-árabe iniciado em 1948, que hoje opõe israelitas e palestinianos numa disputa aparentemente territorial. No entanto, antes disso, o Holocausto (1933-1945) já fora revelador de um ódio visceral e de um maquiavélico plano de extermínio de um povo, da sua cultura, das suas tradições e, sobretudo, da sua religião — o judaísmo, o berço das religiões abraâmicas. Se recuarmos ainda mais, encontramos tantos outros capítulos de perseguições, expulsões, torturas da Inquisição, guetos de exclusão e pogroms mortíferos. Mas porquê?

O Povo que Veio do Outro Lado

A resposta mais provável a esta questão milenar remonta, na verdade, ao nascimento do próprio clã de Abraão — em hebraico diz-se Avraham (אברהם), que significa "pai de multidões" —, cujos membros foram denominados hebreus. A palavra hebreu provém do hebraico Avar (עָבַר), que significa "atravessar" ou "passar para o outro lado", dando origem ao termo Ivri (עִבְרִי), que sifnifica hebreu.

Há a probabilidade de que fossem identificados como o povo "Habiru" (ou Apiru), mencionado em tábuas dos egípcios, hititas, mesopotâmicos e da própria região de Canaã. O significado desta palavra remete para "o outro" — no sentido daquele que vem de fora, que é diferente ou que não pertence ao grupo nativo. Este conceito parece inócuo, mas carrega uma mensagem subliminar de separação: tal indivíduo ou comunidade não é "dos nossos". Isso, por si só, traduzia a ideia de que os hebreus não vinham apenas de outro lugar, mas eram intrinsecamente diferentes. Mas em quê?

Um Monoteísmo Radical e Político

O historiador Robert Wistrich (1945-2015) traz luz a estas questões sobre a origem ancestral do antissemitismo, situando o seu início ainda na Idade do Bronze. O autor afirma, inclusive, tratar-se da “hostilidade mais longa da história”, manifestando-se muito antes dos Impérios Grego e Romano e do Cristianismo. Para Wistrich, os filisteus, edomitas, sírios, babilónios, egípcios e outros povos helénicos já odiavam os judeus, mas não por questões raciais.

O ódio nascia de um choque civilizacional fundamentado não apenas na diferença religiosa, mas especificamente na forma de culto. Enquanto as outras civilizations adoravam deuses antropomórficos de pedra e madeira, os hebreus prestavam culto ao Deus Criador que, sendo invisível, não podia — nem devia — ser representado em imagens esculpidas ou pintadas. Mais do que isso: ao contrário dos outros povos, que divinizavam os seus reis e imperadores, os hebreus faziam do Deus único o seu único governante, no chamado Período dos Juízes (Wistrich, 1991). O Reino de Israel passou, por isso, um longo período sem a figure de um rei terreno.

Esta recusa em divinizar líderes políticos e em vergar a espinha perante os panteões dos impérios dominantes transformou os hebreus num enigma perigoso para o mundo antigo. Para um faraó egípcio ou, mais tarde, para um imperador helénico, a religião era o cimento que unia o Estado. Adorar os deuses locais era uma demonstração de lealdade civil. Assim, o monoteísmo radical dos hebreus não era visto apenas como uma excentricidade teológica, mas sim como uma insubordinação política — uma espécie de "ateísmo" aos olhos dos pagãos, já que recusavam os deuses visíveis em prol de uma Divindade invisível.

A Barreira do Quotidiano e o Rótulo de Misantropia

A tese de Wistrich aponta que esta recusa dos judeus em fundirem-se com as demais culturas foi o principal catalisador desse ódio. Aos olhos dos povos vizinhos — que eram politeístas e praticavam o sincretismo cultural e religioso —, o isolamento judaico era interpretado como arrogância (Wistrich, 1991). Por zelo, fidelidade e estrita observância às regras da Torá e da tradição, o sincretismo era rejeitado e os casamentos mistos, proibidos. Esta conduta baseava-se no conceito de Am Segulá (עַם סְגֻלָּה), que significa "povo tesouro" ou "povo escolhido" (importando ressalvar que, para o judaísmo, "escolhido" não evoca superioridade, mas sim uma responsabilidade perante uma missão divina).

Além da esfera política, esta diferenciação manifestava-se de forma vincada no quotidiano, erguendo barreiras sociais complexas. Para evitar a idolatria, os judeus viviam apartados: não consumiam alimentos ou bebidas dos pagãos, temendo que tivessem sido oferecidos a divindades estrangeiras. A postura teológica do judaísmo era inflexível: eles não se limitavam a afirmar que o Deus de Israel era superior; declaravam categoricamente que as divindades vizinhas eram falsas, meras pedras sem vida (Wistrich, 1991). No dia a dia, as leis de pureza ritual, a circuncisão e a guarda estrita do Shabat (שבת) — um dia inteiro de descanso laboral que os gregos e romanos mais tarde ridicularizariam como pura preguiça — criavam um isolamento voluntário.

Esta rejeição total era sentida pelo mundo exterior como uma ofensa intolerável. Para as maiorias pagãs, esta insistência em permanecer rigidamente "separado" não era interpretada como piedade, mas sim como soberba ou um profundo desprezo pelo resto da humanidade. Assim, o que começou como incompreensão e estranheza rapidamente se transformou em repulsa, estabelecendo as bases de um preconceito milenar que rotulou os judeus de "misantropos" — acusados de nutrirem um suposto ódio pela humanidade —, alimentando a engrenagem de hostilidade que perdura até aos dias de hoje (Wistrich, 1991).

O Choque Literário em Alexandria e as Primeiras Calúnias

Há, inclusivamente, o registo de um exemplo literário fundamental em Contra Ápio (Volumes I e II), da autoria de Flávio Josefo, que descreve de forma clara a existência deste sentimento antijudaico já na Antiguidade Clássica. Mais precisamente entre os séculos III e II a.C., na cidade de Alexandria — onde residia uma grande comunidade de imigrantes judeus —, surgiu uma forte reação egípcia à Bíblia dos Setenta, a Septuaginta (Josefo, 93 d.C./1992), traduzida para o grego por setenta sábios e escribas. Ao lerem essa versão grega, os egípcios tomaram conhecimento do relato do Êxodo, onde eram identificados como opressores cujo Faraó e povo sofreram as dez pragas como castigo do Deus dos hebreus.

Em resposta, autores de matriz egípcia e helenística, como Ápio e Manetom, escreveram uma versão própria e distorcida do Êxodo. Embora essa literatura original tenha desaparecido, conhecemos o seu teor por intermédio de Flávio Josefo, que a refutou vigorosamente. Josefo relata que a narrativa egípcia procurava humilhar os judeus, alegando que os hebreus, em vez de libertos por milagre, teriam sido expulsos do Egito por serem leprosos, doentes e preguiçosos. O relato difamatório afirmava ainda que o Deus dos hebreus tinha a forma de uma cabeça de asno e que estes sacrificavam e comiam um grego a cada ano na Páscoa judaica — uma calúnia primitiva que serviu, séculos mais tarde, de base para as terríveis acusações de Libelo de Sangue durante a Idade Média.

O Inconformismo que Atravessou Milénios

Todos estes fatores combinados moldaram o judaísmo no inconsciente coletivo dos povos vizinhos da terra de Canaã — desde os amalequitas aos filisteus, passando pelos edomitas — como o berço de um proto-humanismo disruptivo. Numa época em que os povos eram subjugados por tiranias divinizadas, um Deus invisível cujas leis codificadas na Torá exigiam a justiça social, o descanso ao sábado, o respeito pela vida e a proibição de imoralidades era algo subversivo.

Em total oposição à alteridade, desenvolveu-se um sentimento de hostilidade baseado unicamente na diferença e, acima de tudo, na resiliência de um povo que não se deixava assimilar. Enquanto qualquer outro estrangeiro imigrado no Império Romano — fosse ele grego, gaulês ou egípcio — acabava por se diluir na cultura dominante, geralmente logo na segunda geração, os judeus permaneciam fiéis à sua identidade. O judeu isolado, o eterno "estranho", o eterno "outro", deu origem a um antissemitismo estrutural que, longe de ter nascido de uma hora para a outra, remonta à própria Idade do Bronze, por volta de 1700 a.C. (Wistrich, 1991).

É precisamente neste nó górdio que reside a raiz ancestral deste fenómeno: a intolerância da maioria perante uma minoria que se recusava obstinadamente a deixar de existir enquanto povo.

Assim se acendeu um pavio que atravessaria milénios sem nunca se apagar. Os deuses de pedra e madeira dos vizinhos de Canaã caíram no esquecimento, mas o preconceito contra o Deus invisível e o povo que O guardava ganhou vida própria. O antissemitismo nascia ali, na Idade do Bronze: não como uma resposta a algo que os judeus tivessem feito, mas sim ao que eles decidiram ser — inconformistas num mundo de moldes pré-fabricados. Uma fogueira milenar que, em breve, receberia um novo combustível que mudaria o rumo da humanidade: o nascimento do Cristianismo e o choque no seio do Império Romano.

De civilização em civilização, de era em era, as potências caíam umas sobre as outras como peças de dominó, cada uma moldando novas formas de preconceito, mas alimentando sempre o mesmo ódio. Apesar disso, os judeus salvaram a Torá, que é a sua razão de ser, e a Torá salvou os judeus — o "Povo do Livro", tal como ainda hoje são denominados pelas outras duas religiões abraâmicas.

Nos capítulos seguintes, esse legado encontrará novas expressões, particularmente com o surgimento do cristianismo e a sua relação ambivalente com o judaísmo no seio do Império Romano. 

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English Version

From Hebrews to Jews — The Ancestral Origin of Antisemitism

by Filipe de Freitas Leal

One of the questions that haunted me for the longest time was understanding where, when, how, and why the hatred towards Jews first emerged. Most people, influenced by the media and quick, decontextualized publications, tend to focus on the Israeli-Arab conflict that began in 1948, which is framed today as an apparently territorial dispute between Israelis and Palestinians. However, long before that, the Holocaust (1933–1945) had already revealed a visceral hatred and a machiavellian plan to exterminate a people, their culture, their traditions, and, above all, their religion—Judaism, the cradle of the Abrahamic faiths. If we journey even further back, we encounter endless other chapters of persecution, expulsions, inquisitorial torture, ghettos of exclusion, and deadly pogroms. But why?

The most likely answer to this ancient question actually traces back to the birth of
Abraham’s clan—in Hebrew called Avraham (אברהם), which means "father of multitudes"—whose members were designated as Hebrews. The word Hebrew comes from the Hebrew Avar (עָבַר), meaning "to cross over" or "to pass to the other side," giving rise to the term Ivri (עִבְרִי). There is a probability that they were identified as the "Habiru" (or Apiru) people, mentioned in tablets by the Egyptians, Hittites, Mesopotamians, and within the region of Canaan itself. The meaning of this word points to "the other"—in the sense of someone who comes from the outside, who is different, or who does not belong to the native group. This concept might seem harmless, but it carries a subliminal message of separation: that individual or community is not "one of us." This, in itself, conveyed the idea that the Hebrews did not just come from somewhere else, but were intrinsically different. But in what way?

The historian Robert Wistrich (1945–2015) brings light to these questions about the ancestral origin of antisemitism, placing its beginning back in the Bronze Age. The author even states that it is the longest hostility in history, manifesting itself long before the Greek and Roman Empires and Christianity. For Wistrich, the Philistines, Edomites, Syrians, Babylonians, Egyptians, and other Hellenic peoples already hated the Jews, but not for racial reasons. The hatred stems from a civilizational clash that was based not only on religious difference, but specifically on the form of worship. While other civilizations worshipped anthropomorphic gods of stone and wood, the Hebrews worshipped the Creator God who, being invisible, could not—and should not—be represented in sculpted or painted images. More than that: unlike other peoples, who divinized their kings and emperors, the Hebrews made the one God their sole ruler during what is called the Period of the Judges (Wistrich, 1991). The Kingdom of Israel therefore spent a long period without the figure of an earthly king.

This refusal to divinize political leaders and to bow before the pantheons of ruling empires turned the Hebrews into a dangerous enigma to the ancient world. For an Egyptian Pharaoh or, later, a Hellenic emperor, religion was the cement that held the State together. Worshipping local gods was a demonstration of civic loyalty. Thus, the radical monotheism of the Hebrews was not seen merely as a theological eccentricity, but as political insubordination—a kind of "atheism" in the eyes of pagans, since they rejected visible gods in favor of an invisible Divinity.

Wistrich’s thesis points out that this refusal of the Jews to blend in with other cultures was the primary catalyst for this hatred. In the eyes of neighboring peoples—who were polytheistic and practiced cultural and religious syncretism—Jewish isolation was interpreted as arrogance (Wistrich, 1991). Out of zeal, faithfulness, and strict adherence to the rules of the Torah and tradition, syncretism was rejected and intermarriage was forbidden. This conduct was rooted in the concept of Am Segula (עַם סְגֻלָּה), which means "treasure people" or "chosen people" (though it is vital to clarify that, in Judaism, "chosen" does not imply superiority, but rather a responsibility toward a divine mission).

Beyond the political sphere, this differentiation manifested clearly in daily life, raising complex social barriers. To avoid idolatry, Jews lived apart: they did not consume food or drinks from pagans, fearing they might have been offered to foreign deities. The theological stance of Judaism was inflexible: they did not merely claim that the God of Israel was superior; they categorically declared that neighboring deities were false, mere lifeless stones (Wistrich, 1991). Day to day, laws of ritual purity, circumcision, and the strict observance of Shabbat (שבת)—a whole day of rest from labor that Greeks and Romans would later ridicule as pure laziness—created a voluntary isolation.

This total rejection was felt by the outside world as an intolerable offense. To the pagan majorities, this insistence on remaining rigidly "separate" was not interpreted as piety, but as hubris or a deep contempt for the rest of humanity. Thus, what began as misunderstanding and strangeness quickly mutated into repulsion, laying the groundwork for a millenary prejudice that labeled Jews as "misanthropes"—accused of harboring a supposed hatred for mankind—fueling the machinery of hostility that endures to this day (Wistrich, 1991).

There is, in fact, a fundamental literary record in Against Apion (Volumes I and II), written by Flavius Josephus, which clearly describes the existence of this anti-Jewish sentiment back in Classical Antiquity. More precisely between the 3rd and 2nd centuries BCE, in the city of Alexandria—where a large community of Jewish immigrants lived—a strong Egyptian backlash arose against the Translation of the Seventy, the Septuagint (Josephus, 93 CE/1992), translated into Greek by seventy scholars and scribes. Upon reading this Greek version, the Egyptians learned of the Exodus narrative, where they were identified as oppressors whose Pharaoh and people suffered the ten plagues as a punishment from the God of the Hebrews.

In response, authors of Egyptian and Hellenistic background, such as Apion and Manetho, wrote their own distorted version of the Exodus. Although this original literature has vanished, we know its content through Flavius Josephus, who vigorously refuted it. Josephus reports that the Egyptian narrative sought to humiliate the Jews, claiming that the Hebrews, instead of being freed by a miracle, had been expelled from Egypt because they were lepers, diseased, and lazy. The defamatory account even claimed that the God of the Hebrews had the shape of an ass's head and that they sacrificed and consumed a Greek person every year during the Jewish Passover—a primitive slander that served, centuries later, as the blueprint for the terrifying Blood Libel accusations during the Middle Ages.

All these factors combined shaped Judaism in the collective subconscious of the peoples neighboring the land of Canaan—from the Amalekites to the Philistines, passing through the Edomites—as the birthplace of a disruptive proto-humanism. At a time when peoples were subjugated by divinized tyrannies, an invisible God whose laws codified in the Torah demanded social justice, rest on the Sabbath, respect for life, and the prohibition of immoralities was highly subversive.

In total opposition to alterity, a feeling of hostility developed, based solely on difference and, above all, on the resilience of a people who refused to be assimilated. While any other foreigner who immigrated into the Roman Empire—be they Greek, Gaul, or Egyptian—ended up diluting into the dominant culture, usually by the second generation, the Jews remained faithful to their identity. The isolated Jew, the eternal "stranger," the eternal "other," gave rise to a structural antisemitism that, far from being born overnight, traces back to the Bronze Age itself, around 1700 BCE (Wistrich, 1991).

It is precisely in this Gordian knot that the ancestral root of this phenomenon lies: the intolerance of the majority toward a minority that obstinately refused to cease to exist as a people.

Thus, a fuse was lit that would cross millennia without ever burning out. The gods of stone and wood of Canaan’s neighbors fell into oblivion, but the prejudice against the invisible God and the people who guarded Him took on a life of its own. Antisemitism was born right there, in the Bronze Age: not as a reaction to anything the Jews had done, but to what they chose to be—nonconformists in a world of pre-fabricated molds. A millenary fire that would soon receive a new fuel, changing the course of humanity: the birth of Christianity and the clash within the heart of the Roman Empire.

            From civilization to civilization, from era to era, empires collapsed upon one another like falling dominoes, each shaping new forms of prejudice, yet always feeding the exact same hatred. Despite this, the Jews saved the Torah, which is their reason for being, and the Torah saved the Jews—the "People of the Book," just as they are still called today by the other two Abrahamic religions.

In the chapters that follow, this legacy will find new expressions, especially with the rise of Christianity and its ambivalent relationship with Judaism within the Roman Empire.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


domingo, 28 de junho de 2026

A Filosofia como base do saber

A Crise Silenciosa do Capital Cultural

Vivemos numa era paradoxal: nunca tivemos tanto acesso à informação, mas raramente fomos tão pobres em densidade cultural.

Discute-se com frequência, nos corredores académicos, a gritante escassez de capital cultural tanto nos estudantes que ingressam no ensino superior, como naqueles que o concluem. Esta lacuna na cultura geral não é um fenómeno espontâneo; é o sintoma de uma crise estrutural.

Trata-se de um défice partilhado, que:

  • Começa na erosão do estímulo intelectual no seio familiar;
  • Perpetua-se nas diretrizes tecnocráticas do Ministério da Educação;
  • É exponenciado pela ditadura do clique rápido na internet;
  • Alimenta-se do esvaziamento de conteúdos das televisões generalistas;
  • Propaga-se na manipulação do pensamento através das redes sociais;
  • Consolida-se numa tendência de consumo e imediatismo que despreza a análise e o pensamento crítico.

Confrontada com esta fragmentação, a Universidade vê-se na ingrata posição de tentar erguer catedrais de conhecimento sobre fundações de areia.

A Filosofia como Matriz do Conhecimento

Um dos erros mais graves desta engrenagem pedagógica é a ausência da Filosofia como disciplina obrigatória e transversal do 10.º ao 12.º ano.

Sendo a matriz fundacional das ciências sociais, a Filosofia não é um mero exercício de abstração ou de erudição estéril. Ela oferece o mapa conceptual e ontológico necessário para compreender a evolução das sociedades humanas.

O conhecimento das correntes filosóficas ao longo da História é a chave que nos permite descodificar as premissas teóricas de tantas outras disciplinas. Idealmente, a transição para o espaço académico pressupõe a posse deste ecossistema mínimo de referências, indispensáveis para a construção de um percurso científico e reflexivo sólido.

O Pensamento Complexo e a Aprendizagem em Rede

Mais do que acumular dados isolados, a verdadeira aprendizagem opera no que Edgar Morin designou como "pensamento complexo" — uma interligação holística entre saberes, onde o conhecimento funciona em rede.

A Filosofia atua como o nó central desta teia, coadjuvada pela História e pela Geografia, que contextualizam as coordenadas temporais e espaciais onde as grandes ideias da humanidade ganharam corpo.

É este diálogo interdisciplinar que nos dota de um espírito crítico agudo. A Filosofia ensina-nos a ver além das aparências, a julgar com base na ética e a agir com discernimento. Torna-se, assim, a ferramenta basilar para o exercício pleno da cidadania, assente na dialética entre direitos e deveres, e no refinamento do "saber ser" e do "saber estar".

Do Pensamento Crítico à Prática do Serviço Social

Para quem escolhe o caminho das ciências sociais — e, especificamente, para a minha área de formação, o Serviço Social —, esta base filosófica não é opcional; é uma exigência de sobrevivência profissional.

O Serviço Social não se reduz a uma prática tecnocrática ou burocrática de triagem de problemas sociais. Ele exige o diagnóstico das estruturas de opressão, a compreensão das desigualdades e a promoção da dignidade humana.

"Sem a Filosofia e a sua herança ética, o assistente social corre o risco de se tornar um mero reprodutor de regras do sistema, privado da capacidade crítica para questionar as causas profundas da injustiça social."

A Filosofia dá-nos o suporte reflexivo para que a nossa intervenção no terreno seja verdadeiramente transformadora e promotora de emancipação. Contudo, esta necessidade não se limita aos profissionais das Ciências Sociais. Esta matriz permite formar melhores alunos, melhores cidadãos e profissionais de excelência em qualquer área, precisamente por desenvolver o sentido analítico e o pensamento crítico.

O Papel Transformador da Academia

Recentemente, num debate sobre este tema, uma pessoa amiga lembrava-me de que "para quem detém os fundamentos, a Faculdade oferece os meios propícios para o desabrochar das capacidades e potencialidades". É uma constatação feliz e visível em muitos estudantes do nosso instituto.

O ensino superior funciona como um catalisador que nos projeta para voos intelectuais mais altos. Contudo, estas competências e este privilégio do saber não nos pertencem de forma egoísta; temos o imperativo ético de colocar este capital cultural ao serviço da comunidade, devolvendo à sociedade o conhecimento aqui gerado.

O Hábito da Leitura e uma Recomendação

Todavia, este desabrochar esbarra num obstáculo contemporâneo alarmante: a perda do hábito da leitura profunda, uma crise que afeta jovens e adultos (e da qual eu próprio, por vezes, me sinto refém devido à tirania do tempo).

A leitura não pode ser um ato esporádico ou utilitarista de ler apenas algumas páginas por dia; deve ser um hábito quotidiano, um alimento intelectual, epistemológico e interdisciplinar. É ela que nos permite acumular conhecimentos, lançar novas questões e encontrar novas respostas através do ligar e religar de ciências e saberes.

Foi precisamente nesta busca pelas fontes do conhecimento, explorando a biblioteca do ISCSP, que me deparei com uma obra de excecional relevância: "Itinerários da Teoria Sociológica", de José Júlio Gonçalves.

É um livro que recomendo vivamente pela sua clareza e profundidade ao mapear com precisão as bases epistemológicas e filosóficas que fundaram e estruturaram a Sociologia, servindo de bússola para qualquer estudante que queira compreender o social.

Um Tributo Necessário à Docência

Por fim, seria de uma profunda injustiça atribuir este desenvolvimento académico apenas ao esforço individual ou às estruturas físicas da instituição. O verdadeiro milagre da academia reside no carisma, na dedicação e no rigor do profissionalismo dos professores.

Deixo aqui o meu sincero reconhecimento e agradecimento público a todo o corpo docente do ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas), onde frequentei com orgulho o curso de Licenciatura em Serviço Social.

Numa era em que os ventos da modernidade teimam em desvalorizar e precarizar a carreira docente, estes profissionais fazem da pedagogia, com enorme sacrifício pessoal, o sentido das suas vidas. Àqueles que transformam a transmissão do saber num ato de resistência e generosidade, dedico a minha mais sincera gratidão.





English Version

Philosophy as the Foundation of Knowledge

We live in a paradoxical era: never have we had so much access to information, yet rarely have we been so impoverished in cultural density.

It is frequently discussed within academic corridors how glaring the scarcity of cultural capital is, both in students entering higher education and in those completing it. This gap in general knowledge is not a spontaneous phenomenon; it is the symptom of a structural crisis.

It is a shared deficit that:

  • Begins with the erosion of intellectual stimulation within the family unit;
  • Perpetuates itself through the technocratic guidelines of the Ministry of Education;
  • Is compounded by the dictatorship of the quick click on the internet;
  • Feeds on the hollowed-out content of mainstream television;
  • Propagates through the manipulation of thought on social media;
  • Consolidates into a trend of consumerism and immediacy that disregards analysis and critical thinking.

Confronted with this fragmentation, the University finds itself in the ungrateful position of trying to build cathedrals of knowledge upon foundations of sand.

Philosophy as the Matrix of Knowledge

One of the gravest errors of this pedagogical machinery is the absence of Philosophy as a mandatory and transversal subject from the 10th to the 12th grade.

As the foundational matrix of the social sciences, Philosophy is not a mere exercise in abstraction or sterile erudition. It offers the conceptual and ontological map necessary to understand the evolution of human societies.

Knowledge of philosophical currents throughout history is the key that allows us to decode the theoretical premises of so many other disciplines. Ideally, the transition to the academic sphere presupposes the possession of this minimal ecosystem of references, which is indispensable for building a solid scientific and reflective path.

Complex Thought and Networked Learning

Rather than just accumulating isolated data, true learning operates within what Edgar Morin termed "complex thought" — a holistic interconnection between disciplines, where knowledge functions as a network.

Philosophy acts as the central node of this web, supported by History and Geography, which contextualize the temporal and spatial coordinates where humanity’s great ideas took shape.

It is this interdisciplinary dialogue that equips us with a sharp critical spirit. Philosophy teaches us to see beyond appearances, to judge based on ethics, and to act with discernment. It thus becomes the foundational tool for the full exercise of citizenship, grounded in the dialectic between rights and duties, and in the refinement of knowing how to "be" and how to "conduct oneself" in society.

From Critical Thinking to the Practice of Social Work

For those who choose the path of the social sciences — and, specifically, for my field of training, Social Work — this philosophical foundation is not optional; it is a requirement for professional survival.

Social Work cannot be reduced to a technocratic or bureaucratic practice of sorting through social problems. It demands the diagnosis of structural oppression, the understanding of inequalities, and the promotion of human dignity.

"Without Philosophy and its ethical heritage, the social worker risks becoming a mere reproducer of the system's rules, deprived of the critical capacity to question the root causes of social injustice."

Philosophy provides us with the reflective support so that our intervention on the ground can be truly transformative and emancipatory. However, this need is not limited to social science professionals. This matrix allows for the development of better students, better citizens, and excellent professionals in any field, precisely by fostering an analytical mindset and critical thinking.

The Transformative Role of the Academy

Recently, during a debate on this topic, a close friend reminded me that "for those who hold the fundamentals, the University offers the propitious means for the blossoming of capabilities and potential." It is a joyful observation, visible in many students at our institute.

Higher education functions as a catalyst that projects us toward higher intellectual heights. Yet, these skills and this privilege of knowledge do not belong to us selfishly; we have an ethical imperative to place this cultural capital at the service of the community, returning to society the knowledge generated here.

The Habit of Reading and a Recommendation

Nevertheless, this blossoming clashes with an alarming contemporary obstacle: the loss of the habit of deep reading, a crisis that affects both youth and adults (and to which I myself, at times, feel held hostage due to the tyranny of time).

Reading cannot be a sporadic or utilitarian act of just flipping through a few pages a day; it must be a daily habit, an intellectual, epistemological, and interdisciplinary nourishment. It is what allows us to accumulate knowledge, raise new questions, and find new answers by linking and relinking sciences and fields of knowledge.

It was precisely in this search for the sources of knowledge, while exploring the ISCSP library, that I came across an exceptionally relevant work: "Itinerários da Teoria Sociológica" (Itineraries of Sociological Theory), by José Júlio Gonçalves.

It is a book I highly recommend for its clarity and depth in precisely mapping the epistemological and philosophical foundations that established and structured Sociology, serving as a compass for any student wishing to understand the social sphere.

A Necessary Tribute to Teaching

Finally, it would be a profound injustice to attribute this academic development solely to individual effort or the institution's physical structures. The true miracle of academia resides in the charisma, dedication, and rigorous professionalism of the teachers.

I leave here my sincere recognition and public gratitude to the entire faculty of ISCSP (Higher Institute of Social and Political Sciences), where I proudly completed my Bachelor’s Degree in Social Work.

In an era when the winds of modernity insist on devaluing and casualizing the teaching career, these professionals make pedagogy, at great personal sacrifice, the meaning of their lives. To those who transform the transmission of knowledge into an act of resistance and generosity, I dedicate my most sincere gratitude.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Acordo EUA e Irão - Estratégia ou Traição?


Aparentemente, os EUA mudaram sua postura com Israel e fecharam um acordo com o Irão. Essa decisão promete o fim das lutas e a abertura do Estreito de Ormuz. Enquanto Washington chama a mudança de pragmatismo, Jerusalém fala em traição e Teerão comemora uma vitória.

Contudo, ainda não há vencedores reais. O regime dos aiatolás continua de pé. Israel não venceu a guerra e ficou isolado diante de um perigo que continua vivo, e por fim os EUA conseguem um acordo para salvar a face e algo mais.
Mas será que as coisas mudaram tanto assim da noite para o dia? Há motivos para acreditar que esse isolamento de Israel não é um erro e nem uma traição, mas sim uma escolha estratégica. Existe uma clara jogada política, económica e militar por trás disso.
1. Estratégia Política
O presidente Donald Trump não pode se reeleger, no entanto, precisa que seu partido vença as próximas eleições intercalares para manter a maioria no Congresso e o Senado. Do mesmo modo, em Israel Benjamin Netanyahu quer garantir a sua continuidade no poder. O isolamento pode unir o povo de Israel contra um inimigo comum. Diante de uma luta pela sobrevivência, Netanyahu pode voltar a ser visto pelos cidadãos como a única opção segura.
2. Estratégia Económica
O plano principal é evitar que a crise piore e cause um colapso financeiro a nível mundial. Reabrir as rotas de comércio ajuda a travar o aumento da inflação e do desemprego, protegendo a economia global e, principalmente, a estadunidense.
3. Estratégia Militar
Ao deixar Israel isolado, o governo e as IDF ganham espaço de manobra para se defender sem colocar os soldados dos EUA no meio do conflito e sem trazer complicações diplomáticas para Washington. Além disso, a situação serve como um teste. O mundo verá até onde o Irão está disposto a cumprir o acordo, ou até onde é capaz de ir para além de vingar-se, cumprir a sua promessa ideológica e escatológica destruição de Israel.
O Verdadeiro Desafio
Fazer uma guerra sem fim contra o Irão não trará resultados definitivos. O verdadeiro desafio agora é outro. O futuro da região depende de descobrir quem, dentro do próprio governo iraniano, está pronto para mudar o regime por dentro. Além disto tudo, a capacidade militar do Irão por hora está reduzida, o Hamas está destruido, o Hezbollá no Libano está isolado desde o acordo de Israel com o governo libanês, os houties no Iemen, foram atacados e estão enfraquecidos, não é uma vitória para Israel, mas com o enfraquecimento do Eixo da Resistência é um bom recomeço.
English Version

US-Iran Agreement - Strategy or Treason?

The Strategic Shift in the Middle East

by Filipe de Freitas Leal

Apparently, the US has shifted its stance toward Israel and struck a deal with Iran. This decision promises an end to the fighting and the reopening of the Strait of Hormuz. While Washington calls this move pragmatism, Jerusalem decries it as a betrayal, and Tehran celebrates a victory.

However, there are no real winners yet. The ayatollah regime remains standing. Israel did not win the war and finds itself isolated in the face of a danger that remains very much alive. Finally, the US secures a deal to save face and perhaps a bit more.

But have things really changed so drastically overnight? There is reason to believe that Israel's isolation is neither a mistake nor a betrayal, but rather a strategic choice. There is a clear political, economic, and military play behind it.

1. Political Strategy

President Donald Trump cannot run for reelection; however, he needs his party to win the upcoming midterm elections to maintain the majority in the House and the Senate. Similarly, in Israel, Benjamin Netanyahu wants to ensure his political survival. This isolation could unite the people of Israel against a common enemy. Faced with a fight for survival, Netanyahu could once again be seen by citizens as the only safe option.

2. Economic Strategy

The primary plan is to prevent the crisis from worsening and triggering a global financial collapse. Reopening trade routes helps curb rising inflation and unemployment, thereby protecting the global economy and, most importantly, the American economy.

3. Military Strategy

By leaving Israel isolated, the government and the IDF gain room to maneuver to defend themselves without putting US soldiers in the middle of the conflict and without bringing diplomatic complications to Washington. In addition, this situation serves as a test. The world will see how far Iran is willing to go to comply with the agreement, or how far it is capable of going beyond seeking revenge to fulfill its ideological and eschatological promise of destroying Israel.

The Real Challenge

Waging an endless war against Iran will not yield definitive results. The real challenge now lies elsewhere. The future of the region depends on identifying who, within the Iranian government itself, is ready to change the regime from within.

On top of all this, Iran's military capacity is currently reduced, Hamas is destroyed, Hezbollah in Lebanon is isolated following Israel's agreement with the Lebanese government, and the Houthis in Yemen have been attacked and weakened. While this is not an outright victory for Israel, the weakening of the Axis of Resistance offers a solid fresh start.


Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


 
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