sábado, 14 de março de 2026

Morreu Jürgen Habermas - O Pensador que combateu o antissemitismo


Morreu hoje, aos 96 anos, o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas (1929-2026). Sua obra sobre Israel e o povo judeu é pilar central da cultura política alemã do pós-guerra, fundamentada no princípio do "nunca mais".

Em novembro de 2023, o pensador reafirmou que a existência de Israel e a segurança da vida judaica são imperativos éticos, derivados da responsabilidade histórica pelos crimes do regime nazista. Confira os pontos centrais de seu pensamento:

  1. Direito de Defesa e Solidariedade: No manifesto "Princípios de Solidariedade" (2023), Habermas defendeu que a reação militar de Israel aos ataques do Hamas é, em princípio, justificada pela ameaça existencial do grupo ao Estado judeu. No entanto, ressaltou que as ações em Gaza devem observar a proporcionalidade, evitar mortes de civis e buscar uma solução de paz.

  2. O Judaísmo na Identidade Europeia:
     Para ele, o judaísmo é um componente essencial da tradição intelectual do Ocidente. Habermas defendia que a Alemanha possui uma "dívida filosófica" com os judeus, buscando integrar suas contribuições ao idealismo alemão na cultura nacional e europeia. Além disso, via o combate ao antissemitismo como crucial para a preservação dos valores democráticos universais.
  3. Sionismo como Necessidade Histórica: Embora crítico do nacionalismo, ele reconhecia o Estado de Israel como uma necessidade vital para a autodeterminação e segurança do povo judeu após o Holocausto, servindo de refúgio contra ameaças contemporâneas, como o regime dos aiatolás.
Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Esquerda Woke: A Nova Face do Antissemitismo


Vivemos tempos de inversão de valores, onde as bandeiras do humanismo parecem ter sido substituídas por dogmas ideológicos cegos. Como alguém que dedicou a carreira a estudar as desigualdades sociais e os direitos humanos, observo com profunda preocupação o rumo que a chamada "Nova Esquerda" tomou. Neste artigo, analiso como o radicalismo Woke se tornou, ironicamente, o novo motor do antissemitismo global.

A Mecânica da Exclusão Ideológica

A perversão reside no facto de que esta "Nova Esquerda" sequestrou a linguagem da justiça social para a transformar numa arma de exclusão. Ao dividir o mundo numa dicotomia simplista entre "opressores" e "oprimidos" — baseada apenas em características identitárias e não em atos ou valores — retiraram ao indivíduo a sua humanidade para o reduzir a uma etiqueta coletiva. Nesta aritmética ideológica distorcida, o povo judeu foi arbitrariamente reclassificado como o "opressor supremo", ignorando séculos de perseguição e a sua própria autodeterminação. Assim, o que começou como uma suposta defesa das minorias vulneráveis transmutou-se, ironicamente, num sistema que legitima o antissemitismo sob a capa do progressismo, punindo o sucesso e a resiliência de um povo com a mesma retórica de exclusão que outrora dizia combater.

O Abandono da Razão pelo Dogma

A Nova Esquerda — radical e Woke — tornou-se o epicentro e o motor do antissemitismo a nível global. Ao promover a cultura do cancelamento e a "lacração", esta corrente perdeu a lucidez: abandonou a luta de classes e a lógica racional para se lançar num discurso dogmático, típico do fanatismo religioso. Mais grave ainda, apoia, com um silêncio sepulcral e cúmplice, as injustiças de ditadores como Maduro ou Khamenei, enquanto vocifera em altifalantes palavras de ordem como "morte a Israel" ou o já tristemente célebre mote "Palestina livre, do rio até ao mar".

A Ignorância como Ferramenta de Ódio

A esmagadora maioria destes políticos, intelectuais e influenciadores de opinião desconhece a origem real do conflito. Possuem uma visão enviesada e distorcida por doutrinas revisionistas de uma História que não estudaram, não conhecem e, por isso, não compreendem. Agem como cavaleiros do apocalipse, semeando o ódio onde deveria haver concórdia e festejando a guerra em vez de celebrar a paz. Incendeiam a opinião pública com desespero, em vez de oferecerem esperança.

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English Version

The New Left and the Betrayal of Humanism: The New Engine of Global Antisemitism

By Filipe de Freitas Leal

We live in times of inverted values, where the banners of humanism seem to have been replaced by blind ideological dogmas. As someone who has dedicated a career to studying social inequalities and human rights, I observe with profound concern the direction the so-called "New Left" has taken. In this article, I analyse how Woke radicalism has ironically become the new engine of global antisemitism.

The Mechanics of Ideological Exclusion

The perversion lies in the fact that this "New Left" has hijacked the language of social justice to transform it into a weapon of exclusion. By dividing the world into a simplistic dichotomy of "oppressors" versus "oppressed" — based solely on identity characteristics rather than actions or values — they have stripped the individual of their humanity, reducing them to a collective label. Within this distorted ideological arithmetic, the Jewish people have been arbitrarily reclassified as the "ultimate oppressor", ignoring centuries of persecution and their own right to self-determination. Thus, what began as a supposed defence of vulnerable minorities has, ironically, transmuted into a system that legitimises antisemitism under the guise of progressivism, punishing the success and resilience of a people with the very rhetoric of exclusion it once claimed to fight.

The Abandonment of Reason for Dogma

The New Left — radical and Woke — has become the epicentre and the motor of antisemitism on a global scale. By promoting cancel culture and "virtue signalling", this movement has lost its lucidity: it has abandoned the class struggle and rational logic to throw itself into a dogmatic discourse typical of religious fanaticism. Even more grave is its support, through a deathly and complicit silence, for the injustices of dictators such as Maduro or Khamenei, while shouting slogans through loudspeakers like "death to Israel" or the now infamously celebrated motto "Palestine free, from the river to the sea".

Ignorance as a Tool for Hatred

The overwhelming majority of these politicians, intellectuals, and influencers are ignorant of the true origins of the conflict. They possess a biased vision, distorted by revisionist doctrines of a history they have not studied, do not know, and therefore do not understand. They act as horsemen of the apocalypse, sowing hatred where there should be concord and celebrating war instead of peace. They inflame public opinion with despair, rather than offering hope.

 Referências bibliográficas / References

·        Baddiel, D. (2021). Jews Don't Count. London: TLS Books.

·        Bernstein, D. L. (2022). Woke Antisemitism: How a Progressive Ideology Harms       the Jewish People. New York: Post Hill Press.

·        Braunstein, J.-F. (2022). La Religion Woke. Paris: Grasset.

·        Simons, J. W. (2023). Israelophobia: The Newest Version of the Oldest Hatred and What to Do About It. London: Constable.



Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


domingo, 8 de março de 2026

A Seletividade da Nova Esquerda: Entre a História e a Ideologia Revisionista


Será que as pautas da justiça social são património exclusivo de uma ideologia? Ao confrontar a retórica da Nova Esquerda com a profundidade de documentos como a Rerum Novarum, percebemos que a defesa dos oprimidos não exige a negação da história. Este texto analisa o perigo de transformar a luta anticolonial num escudo para regimes despóticos.

Este 
texto visa apresentar uma argumentação, que se pretende clara, tanto quanto possível bem estruturada, com foco na crítica à seletividade ideológica da esquerda radical e propondo soluções pragmáticas em vez de revisões históricas.

A Nova Esquerda — ou, mais precisamente, a moderna Esquerda Radical — tende a analisar questões atuais sob o viés histórico do colonialismo, do esclavagismo, do racismo e da libertação dos povos. Essa postura consolidou um posicionamento ideológico contra o sionismo e a própria existência de Israel. Contudo, essa visão acaba, por vezes, amparando regimes como o dos aiatolás, silenciando perante as injustiças e massacres cometidos pelo regime teocrático e ditatorial do Irã.
Ao analisarmos as bases teóricas da crítica esquerdista ao sionismo, destaca-se o argumento anticolonialista que acusa Israel de ser um projeto de colonização. Todavia, essa premissa ignora que o colonialismo na África e na Ásia persistiu até o século XX e que a presença judaica na Palestina foi contínua, chegando a representar um terço da população local no período do mandato britânico. Além disso, ao classificar Israel meramente como "colônia", nega-se que a migração dos judeus europeus foi uma fuga desesperada da perseguição nazi-fascista.
Outro pilar dessa crítica é a luta antiesclavagista direcionada às potências europeias e aos EUA. Embora o esclavagismo tenha sido uma realidade até o final do século XIX, tanto ele quanto o colonialismo são fatos pretéritos. As sequelas socioeconômicas atuais não se resolvem no passado, mas sim no presente e a longo prazo. Tais soluções não emergem de retóricas ideológicas sectárias ou da reescrita da história — prática comum em regimes despóticos —, mas de políticas públicas que combatam a desigualdade e defendam os direitos humanos.
É importante notar que essas pautas não são patrimônio exclusivo da esquerda ou da direita. Prova disso é a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891), que abordou as questões sociais e laborais de forma mais lúcida e menos retórica que as doutrinas de esquerda da época. A atualidade do documento é tamanha que, após atualizações no papado de João Paulo II, serviu de base para o Socialismo Cristão e a Democracia Cristã.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sábado, 7 de março de 2026

A Geopolítica como Claque: Onde Nos Leva a Ideologia Cega e Irracional?


Neste post eu escrevo o facto de hoje vivermos tempos em que a análise geopolítica foi substituída pela paixão cega das claques. Quando a ideologia se sobrepõe à verdade humana, perdemos a capacidade de enxergar a raiz dos conflitos e o sofrimento de quem neles padece.

É desolador observarmos como os conflitos armados são debatidos por colunistas, comentadores, intelectuais e até cidadãos comuns, como se fossem meros jogos de futebol. A análise leviana, doutrinária e sectária — moldada estritamente pelo espectro político de quem fala — ignora a tragédia real em prol de uma narrativa de "claque".

Para compreender a profundidade dessas questões, recuso-me a seguir cartilhas ideológicas. Elas são, por natureza, rígidas demais para atingir a raiz dos problemas. O entendimento real exige, acima de tudo, humildade intelectual: é preciso fazer "tábua rasa", buscar informações multidisciplinares e manter a objetividade.

Sem intenção de ofender, é impossível não notar como a "Nova Esquerda" e suas doutrinas pós-modernas têm se mostrado míopes e sectárias, incapazes de uma visão holística. Minha crítica nasce de uma percepção compartilhada por muitos: primeiro, a Esquerda abandonou a defesa das classes trabalhadoras; depois, os valores da família. Agora, parece abandonar os democratas ao redor do mundo.

Ao aliar-se estrategicamente a regimes como o do Irão, Rússia, China e Cuba — ignorando que são ditaduras opressoras e persecutórias — a Esquerda vira as costas aos venezuelanos, aos árabes e, tragicamente, às feministas e democratas iranianos. Diante desse cenário, a pergunta torna-se inevitável: afinal, o que é a Esquerda hoje e a quem ela realmente serve?

quinta-feira, 5 de março de 2026

A Geopolítica do Apocalipse: Os Pilares Teológicos da Inimizade do Irão contra Israel




Para compreender a fundo a hostilidade do regime iraniano contra Israel, é necessário transcender a análise política convencional e mergulhar nos dogmas do pensamento xiita. Para Teerão, o conflito não é uma disputa territorial comum, mas uma missão sagrada de purificação do solo islâmico.
Aqui estão os pilares teológicos que sustentam esta visão:
1. A Terra como "Waqf" (Legado Inalienável)
No pensamento jurídico fundamentalista seguido por Khomeini, o mundo divide-se em Dar Al-Islam (Território do Islão) e Dar Al-Harb (Território da Guerra). Qualquer terra que já tenha sido governada pelo Islão torna-se um Waqf — um património sagrado e inalienável pertencente à comunidade muçulmana (Umma) sob a guarda de Deus.
  • O Dogma da Inversão: Para o regime, é uma abominação teológica que "infiéis" governem crentes. Embora judeus e cristãos sejam considerados "Povos do Livro" (Ahl al-Kitab), o seu lugar dogmático seria o de Dhimmis (minorias protegidas, mas submissas e sem poder político). A existência de Israel é vista como um "roubo" de um território sagrado e, pior, uma inversão da hierarquia divina, onde o antigo submisso agora governa sobre o solo do Islão.
2. A Reinterpretação dos "Filhos de Israel"
Khomeini e os seus sucessores utilizam versículos do Alcorão (das Suras Al-Baqarah e Al-Ma'idah) sobre a desobediência de grupos israelitas no passado para alimentar uma narrativa anacrónica.
  • A Aplicação: O moderno Estado de Israel não é visto como uma entidade política secular, mas como o herdeiro das "características de traição" descritas nos textos antigos. Nesta visão, combater o sionismo é a continuação direta da luta dos profetas contra a corrupção e a arrogância.
3. Escatologia Xiita: O Retorno do Mahdi
A teologia xiita é profundamente marcada pela crença no retorno do 12º Imam, o Mahdi, que virá para estabelecer a justiça final.
  • O Papel de Jerusalém: A tradição escatológica afirma que o Mahdi travará uma batalha final contra as forças do mal e liderará a oração na Mesquita de Al-Aqsa.
  • Aceleração do Destino: Diferente de uma espera passiva, o regime de Teerão vê-se como a "vanguarda" que deve preparar o cenário para este retorno. A eliminação de Israel é vista como um pré-requisito teológico; ao "limpar" o caminho para o Messias islâmico, o regime acredita estar a cumprir um cronograma divino.
Conclusão: Uma Ameaça Existencial
O regime teocrático do Irão e os seus proxies (Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias) não lutam por fronteiras ou pela autodeterminação palestiniana — que serve apenas como ferramenta de propaganda. O objetivo final é a eliminação total de Israel. Nesta visão apocalíptica, muitos analistas veem paralelos com a batalha final de Yajuj e Majuj (Gog e Magog), sugerindo que, para os Aiatolás, estamos a viver os capítulos finais de um confronto cósmico onde a diplomacia humana não tem lugar.
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A ideologia central do Hamas, conforme estabelecido no seu Estatuto de Fundação de 1988, baseia-se na premissa de que a Palestina histórica — abrangendo toda a área entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, incluindo o território de Israel — é uma terra islâmica de waqf (posse religiosa inalienável).
Essa visão teológica e política implica o seguinte:
Propriedade Perpétua: A terra pertence à comunidade muçulmana (Ummah) e não pode ser cedida, vendida ou alienada por nenhum líder ou autoridade, nem por um período limitado.
Conflito Religioso: O Hamas argumenta e admite que o conflito não é apenas uma disputa territorial, mas um dever religioso. Portanto, a libertação da Palestina é tratada como uma Jihad (guerra santa) individual e obrigatória para todos os muçulmanos.
Rejeição de Israel: Baseado nessa ideologia, o Hamas rejeita o reconhecimento da legitimidade de Israel e opõe-se a qualquer acordo de paz que resulte na perda de território palestino.
Atualizações e nuances:
Embora o documento de 2017 tenha suavizado parte da linguagem e aceitado um estado palestino provisório nas fronteiras de 1967 (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental), o Hamas não renunciou formalmente ao seu estatuto original de 1988 nem à ideologia de que toda a Palestina é um waqf islâmico. Líderes do grupo frequentemente afirmam que o documento de 2017 é um complemento, não um substituto, da visão fundamental do grupo


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Israel x Palestina e Irão: A Origem do Conflito



Olá a todos, como estão? Cá estou de volta a aprofundar um tema muito polémico. Eu estive a informar-me sobre detalhes do conflito Israelo-árabe, detalhes que a imprensa não revela e uma parte dos intelectuais, uns desconhecem, outros não entendem, e outros ainda pior, escondem de nós.

Um desses detalhes é, a bem da verdade, uma das causas fundamentais do conflito, que opõe os países muçulmanos face ao Estado de Israel, (sobretudo os mais radicais), trata-se do dogma religioso do 'Waqf' ou Dogma do Solo Sagrado do Islão, e também dos 'Dhimis' (os não muçulmanos chamados de infiéis que para viverem no Dar al-Islam ou a Casa do Islão e poder praticar a sua religião devem pagar o imposto da 'Gizhya'), quanto ao solo Sagrado, compreende toda o território do I Califado. E é devido a isto que em 1979, após a Revolução Islâmica, o Irão colocou na sua constituição programática a missão da destruição total da Entidade Sionista, e dos judeus, chamando de Israel um cancro no solo Sagrado do Islão.

O Hamas em Gaza, tal como o Hezbollah do Líbano, ou a Jihad Islâmica, são os tais proxies, grupos terroristas, financiados pelo Irão, e que têm esta visão dogmática do Waqf. E foi este dogma religioso que levou os países árabes a não aceitarem a partilha da Palestina pela Resolução 181 da ONU em 1947.

Yasser Arafat não era um religioso, pelo contrário era um muçulmano secular casado com uma católica, mas apesar de ser secular, de reconhecer o direito de Israel como Estado e de querer a Palestina livre, ele hesitou, pois tinha medo do que se chama hoje de "A rua árabe" e a reação da ala mais radical, e por isso rejeitou a solução dos dois Estados, na Reunião de Camp David no ano 2000; bastava dizer sim e a Palestina hoje seria livre e existia. O mundo ficou perplexo, inclusive levou Bill Clinton a dizer que a recusa de Arafat foi "uma tragédia de dimensões históricas"

O atentado de 07/10 foi a gota D'Água que mudou o paradigma de ação defensiva de Israel e da politica dos EUA face ao conflito, somando-se os atentados contra os navios no Mar Vermelho pelos Houtis, e fez com que Israel e os EUA mudassem a tática, antes atacavam defensivamente apenas os tentáculos do polvo, que eram os grupos terroristas financiados pelo Irão, mas agora a tática passou a ser a necessidade de eliminar a cabeça do Polvo (o regime teocrático do Irão). Não é para menos, o governo de Teerão calculou mal as consequências do 07/10. Esperava liderar o mundo árabe contra Israel.

Agora o problema é saber como este embroglio se resolve. Nenhuma das possibilidades é fácil, e todas trazem consequências. A queda do regime é uma Caixa de Pandora, que pode abrir-se para outros males que não sabemos quais são. Se Yasser Arafat tinha medo da rua Árabe, é bom que os EUA tenham medo do vazio de poder, porque não sabemos até que ponto a população quer como líder o Príncipe Rheza Pahlavi, filho do Xá deposto em 1979.

Ou será que vale mais deixar tudo como está no Irão e fazer um ultimato como o Artigo 5 da NATO-OTAN, dizendo ao Irão: "Se atacares Israel, vais pelos ares". Enfim, algo tem que ser bem calculado, porque há o perigo de cair o poder na rua e no vazio de autoridade, algo que poderá deflagrar numa guerra civil, e nesse caso ninguém sai a ganhar.

Facto é que há milhares de mortos, milhares de presos políticos e de execuções no Irão. Um povo sem armas não consegue derrubar um governo Teocrático, fanático e tirano.

Enquanto tudo isto se passa os manifestantes e a oposição clamam pela libertação que venha dos EUA, mas até mais de Israel.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

EUA X IRÀO - Guerra ou Pressão ?





   
Não faz sentido nenhum gerar uma enorme despesa militar e toda a aparatosa armada americana no Golfo, se fosse só para pressionar. Tudo de facto indica para uma Guerra, a meu ver, o Irão fez por merecer, está em guerra com Israel, o Ocidente e a civilização cristã há 47 anos, mas usa apenas os Proxies ou forças entrepostas como se nada tivesse a ver com o regime teocrático xiita e persecutório dos Ayiatholás. 

Os muitos ataques a Israel e os ataques a navios ocidentais no Mar Vermelho partiram das ordens de Teerão, o hediondo ataque de 07/10 em Israel foi orquestrado por ordem de Teerão e visava levar Israel a perder a cabeça. Nada foi por acaso e nem em vão na cabeça daquela gente fanática, capaz de matar o próprio povo para se manterem no poder, e fazem tudo isso em nome de Deus. Portanto Chega! O que eu acho é que a guerra vai trazer consequências que não sabemos bem quais serão.

O Esmagamento do Hamas e do Hezbollah eram condição sine qua non para pôr fim ao terrorismo. E o mundo árabe sabe que Israel não vai fazer as malas, entregar Jerusalém, Tel Aviv e o resto de Israel e ir-se embora. 

Daí a emergência dos acordos de Abraão. Aliás, na queda do Irão, quem mais sai a ganhar é a Arábia Saudita. A questão é que a Solução dos dois Estados tem que ser resolvida de facto, quer Netanyahu goste quer não, porque para o bem dos palestinianos e dos israelitas, é importante resolver esta questão. Que todavia, há que dizer, a bem da verdade, que nunca foi aceite pelos países e líderes árabes mais radicais, entre eles o Irão que defende a destruição do Estado de Israel e o extermínio dos judeus, daí a célebre frase "Palestina Livre do Rio até ao Mar".

Após o esmagamento do Hamas, do Hezbollah, da queda de Maduro e da asfixia do Iémen, a prioridade passa a ser derrubar o regime que financia o terrorismo, ou seja, a teocracia do Irão. Para mim, tudo isto faz parte de um plano de sobrevivência ou morte dos EUA e de Israel em maior grau, mas também do Ocidente, que pode permitir um maior equilíbrio e estabilidade no Médio Oriente.

Mas esta guerra pode ser o estopim para um conflito maior, oxalá não seja, mas tem potencial para isso. E ainda por arrastão, irá antecipar a grande crise económica que será parecida com a crise de 1929, que aliás fará com que os ricos fiquem ainda mais ricos e os pobres mais pobres.

Mas há outro fator, é que a queda do Irão, asfixia em parte a Rússia, que é fomentada por armas e pelos drones iranianos na Guerra contra a Ucrânia. E é aqui que a porca torce o rabo, o que fará a China e como reagirá a Rússia, vão ficar a ver quietinhos a estratégia geopolítica dos EUA e Israel ou vão intervir? E se sim, como?

Creio que a China ganha em manter o Soft power, o objetivo deles é preciso, certeiro e infalível, o domínio econômico, e vão conseguir. A Rússia é que pode se aventurar, ou talvez ceda num acordo de paz, desde que lhe concedam território. Não sei o que se irá passar. 

Enquanto isso, a Índia cresce economicamente seguindo os passos dos sábios chineses. A família Tata esfrega as mãos de contente com as escaramuças dos EUA e a derrocada da economia ocidental. Sim a crise será mundial, mas vai afetar os mercados "decadentes" muito mais do que os emergentes.

Resta uma palavra final de solidariedade e sentimento para o povo iraniano, homens e mulheres, corajosos e lutadores, de diferentes classes sociais e faixas etárias, que são hoje os mártires pela democracia e a libertação da sua patria. Fala-se em muitos milhares de mortos. Para dar apoio à insurreição popular a ONU e a UE declaram a Guarda Revolucionária do Irão como um grupo terrorista e genocida que massacra o próprio povo.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Eleições em Portugal: Seguro Vs. Ventura.


Gosto dos comentários de Miguel Morgado na SIC. Os comentadores de direita são mais livres nas suas opiniões do que os de Esquerda, devido a que estes últimos têm uma rigidez ideológica que não lhes permite uma opinião que possa ferir a ideologia marxista, ou meramente socialista. Há na esquerda, não apenas uma rigidez ideológica, mas também um policiamento da linguagem e das ideias dos seus membros, o chamado politicamente correto ou ainda o pensamento Woke.

É precisamente este tipo de rigidez ideológica, em defesa da ortodoxia, (algo próprio das religiões) que fez com que a Esquerda mais radical perdesse estas eleições de uma forma humilhante. A Esquerda parece que vive fora da realidade algo quase patológico.

E por fim, não é preciso ser de esquerda nem de direita para se defender a democracia, princípios e valores humanistas que de resto os democratas-cristãos há muito tempo têm, basta ver a Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII no fim do século XIX e que serviu de base à fundação da Democracia Cristã em Itália,

Não sei se Ventura será eleito. Penso que não, tal como o Miguel Morgado, que nesta luta uma grande parte dos eleitores da direita e centro-direita votarão no Seguro, o que não quer dizer que não seja uma luta renhida. Mas o discurso por vezes mono-temático e radical de André Ventura não é um discurso transversal. Não nos esqueçamos que os liberais  não se prendem por discursos mono-temáticos ou excessivamente radicais do ponto de vista ideológico, eles querem é pragmatismo estão-se nas tintas para leis de imigração desde que os imigrantes ganhem pouco e dêem lucro, para os Liberais a Pátria é a União Europeia, o Euro e a Bolsa de Valores. Discursos do ventura não dão lucro.

E os demais partidos são a grosso modo mais do mesmo, com um verniz socializante mas só mesmo de fachada. O próprio Seguro é um liberal.

Quanto ao Almirante Gouveia e Melo, creio que ele esperava ser o novo Ramalho Eanes, e obter como há 50 anos, o apoio das forças democráticas do PS, PSD e CDS, mas o PSD não teve coragem de apoiar a candidatura transversal como o Almirante pretendia, e sem apoios partidários o discurso de Gouveia e Melo foi fraco, periclitante, vazio, porque tentou não se comprometer demasiado e quis agradar a gregos e troianos. E assim o PSD mereceu esta derrota ( para aprender a dar a palavra às bases) E com esta derrota, Montenegro colocou a sua imagem e o próprio PSD em perigo, e até pode ser substituído pelo Chega e a IL nas próximas eleições.

O Almirante naufragou numas eleições em que não serviu para ser o novo Ramalho Eanes com o eixo-democrático e nem o novo Américo Thomaz em Belém com o Ventura em São Bento.

Se Ventura for eleito, o que eu acho difícil, ele terá então um desafio enorme, o de ultrapassar a imagem de extremista que não é de todo aceitável na UE, vai ter que lidar com dossiers muito para além da imigração, e não poderá se posicionar contra os compromissos assumidos por Portugal nos governos anteriores. Ou seja, terá que fazer uma metamorfose, indo de Salazar a Georgia Meloni. Deixar de lado a linguagem agressiva e apresentar uma imagem moderada, assertiva e diplomática.

António José Seguro tem tudo o que precisa para agradar a quase todos como queria o Almirante, é que seguro é na verdade um líder fraco, um hesitante, aliás no PS líderes de punho só me lembro de dois, goste-se ou não , foram Mário Soares e José Sócrates, os demais líderes foram hesitantes como António Guterres que se queixava do pântano, mas o pântano era a sua falta de punho nas decisões políticas e partidárias.

Voltando à questão central deste texto que já vai longo, creio que a ascensão de André Ventura a Belém, seria o início da "Era da Incerteza" em Portugal em particular para o PSD e o PS, bem como do início de crises políticas que culminariam em dissoluções do Parlamento que fizessem Ventura beneficiar o seu partido em eleições legislativas. Mas ao contrário do que se diz, Ventura não é um fascista, nem um perigo para a democracia porque claramente ele não governaria em Ditadura.

Eu pessoalmente prefiro mil vezes Ventura como Primeiro Ministro para mostrar o que de facto vale, do que como Presidente que tem que ser para todos os portugueses e não apenas para uma parcela de portugueses que votaram nele.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

 
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