A mais longa hostilidade da história humana
Uma das questões que durante mais tempo me inquietou foi compreender onde, quando, como e porquê surgiu o ódio aos judeus. A maioria das pessoas, influenciada pelos meios de comunicação e por narrativas rápidas e frequentemente descontextualizadas, tende a situar essa hostilidade no conflito israelo-árabe iniciado em 1948, hoje entendido sobretudo como uma disputa territorial entre israelitas e palestinianos. No entanto, muito antes disso, o Holocausto (1933–1945) já revelara a existência de um ódio profundo e sistemático, materializado num plano deliberado de extermínio de um povo, da sua cultura, das suas tradições e, sobretudo, da sua religião — o judaísmo, matriz das religiões abraâmicas. Recuando ainda mais, encontramos uma longa sucessão de perseguições, expulsões, torturas inquisitoriais, guetos de exclusão e pogroms. Mas porquê?
Uma resposta plausível a esta questão milenar poderá remontar às origens do próprio clã de Abraão, cujos membros vieram a ser designados como hebreus. A palavra “hebreu” deriva do hebraico Avar (עָבַר), que significa “atravessar” ou “passar para o outro lado”, dando origem ao termo Ivri (עִבְרִי). Alguns estudiosos associam estes grupos aos chamados “Habiru” (ou Apiru), mencionados em fontes egípcias, hititas e mesopotâmicas, bem como em registos da região de Canaã. Embora esta identificação não seja consensual, o termo parece referir-se a populações marginalizadas ou estrangeiras — “os que vêm de fora”, os que não pertencem. À primeira vista, trata-se de uma distinção neutra; porém, contém já uma ideia latente de separação: estes indivíduos não são “dos nossos”. Mais do que estrangeiros, eram percebidos como diferentes. Mas em quê, exatamente?
O historiador Robert Wistrich (1945–2015) contribuiu de forma decisiva para esta discussão ao situar as raízes do antissemitismo ainda na Idade do Bronze, sugerindo que se trata de uma das formas mais persistentes de hostilidade na história. Segundo esta perspetiva, muito antes dos mundos grego e romano ou do surgimento do cristianismo, já existiam tensões entre os antigos israelitas e povos como egípcios, edomitas, babilónios ou sírios. Importa, contudo, sublinhar que estas hostilidades não tinham uma base racial no sentido moderno, mas resultavam sobretudo de um choque civilizacional, profundamente enraizado em diferenças religiosas e culturais.
Enquanto as civilizações vizinhas praticavam formas de politeísmo, frequentemente acompanhadas de sincretismo religioso, os hebreus desenvolveram um monoteísmo rigoroso. O Deus de Israel era invisível, não representável, e a sua adoração excluía qualquer forma de idolatria. Mais ainda: ao contrário de outros povos, que divinizavam os seus reis, os hebreus, sobretudo durante o período dos Juízes, reconheciam apenas a soberania divina. Esta estrutura teológica implicava uma visão política singular, na qual nenhuma autoridade humana podia reclamar estatuto divino.
Para os grandes impérios da Antiguidade, onde religião e poder político estavam profundamente entrelaçados, esta postura não era apenas uma excentricidade religiosa. Era frequentemente interpretada como uma forma de insubordinação. Participar nos cultos oficiais era, em muitos casos, uma demonstração de lealdade cívica; recusá-los podia ser entendido como rejeição da ordem estabelecida. Assim, o monoteísmo judaico era por vezes percecionado como uma espécie de “ateísmo” — não pela ausência de fé, mas pela recusa em reconhecer os deuses visíveis das sociedades envolventes.
De acordo com Wistrich, um dos fatores centrais desta tensão residia na resistência dos judeus à assimilação cultural. Numa época em que o sincretismo era comum e até incentivado, a manutenção de uma identidade religiosa e social distinta podia ser interpretada como isolamento deliberado ou até arrogância. A observância rigorosa da Torá, a rejeição de casamentos mistos e o conceito de Am Segulá (עַם סְגֻלָּה), frequentemente traduzido como “povo escolhido” — no sentido de uma responsabilidade espiritual e não de superioridade — reforçavam essa perceção externa de separação.
Essa diferença manifestava-se também no quotidiano. As leis alimentares, as regras de pureza ritual, a circuncisão e a observância do Shabat criavam fronteiras sociais claras. Evitar alimentos preparados por não judeus, por exemplo, não era apenas uma prática religiosa, mas uma forma de preservar identidade e evitar a idolatria. Para observadores externos, estas práticas podiam parecer sinais de exclusivismo ou até de desprezo.
Além disso, o judaísmo não se limitava a afirmar a superioridade do seu Deus; afirmava a inexistência das demais divindades. Num mundo onde os deuses eram parte integrante da ordem social e política, tal afirmação podia ser sentida como profundamente ofensiva. Assim, a diferença religiosa transformava-se em tensão cultural, e a tensão cultural em hostilidade.
Esta hostilidade está bem documentada em fontes da Antiguidade Clássica. Um exemplo notável encontra-se na obra Contra Ápio, de Flávio Josefo (século I d.C.), que responde a narrativas antijudaicas anteriores. Josefo descreve polémicas surgidas em Alexandria, particularmente entre os séculos III e II a.C., num contexto de forte presença judaica na cidade. A tradução da Bíblia hebraica para grego — a Septuaginta — tornou acessíveis aos leitores helenísticos relatos como o Êxodo, no qual os egípcios surgem como opressores punidos pelo Deus de Israel.
Em reação, autores como Manetom e Ápio terão produzido versões alternativas e profundamente hostis dessa narrativa. Embora os textos originais não tenham sobrevivido, Josefo relata que os judeus eram retratados como leprosos expulsos do Egito, e não como um povo libertado. Outras acusações incluíam práticas absurdas e difamatórias, como o culto de uma divindade com cabeça de asno ou o sacrifício ritual de estrangeiros — ideias que antecipam, em forma embrionária, acusações que ressurgiriam mais tarde na Europa medieval sob a forma de libelos de sangue.
Todos estes elementos contribuíram para a formação de uma imagem negativa dos judeus no imaginário coletivo das sociedades vizinhas. O que para os próprios era fidelidade religiosa e preservação identitária, para os outros podia parecer rejeição do convívio humano. Daí emergiu uma acusação recorrente: a de misantropia, ou seja, de um suposto ódio à humanidade.
Importa, contudo, evitar uma leitura excessivamente linear ou determinista. O antissemitismo não surgiu de forma uniforme nem permaneceu inalterado ao longo dos milénios; assumiu formas distintas consoante os contextos históricos. Ainda assim, é possível identificar padrões recorrentes que remontam à Antiguidade: a perceção do judeu como “o outro”, como elemento resistente à assimilação, como corpo estranho no seio das sociedades dominantes.
Enquanto muitos povos acabavam por se integrar nas culturas imperiais que os absorviam, os judeus tendiam a preservar uma continuidade identitária notável. Essa persistência, longe de ser neutra aos olhos exteriores, tornava-se frequentemente motivo de suspeita ou rejeição.
É neste ponto que se encontra uma das raízes mais profundas deste fenómeno: a tensão entre uma maioria que valoriza a integração e uma minoria que insiste em manter a sua diferença.
Assim se acendeu um processo histórico de longa duração. Os sistemas religiosos e políticos da Antiguidade desapareceram ou transformaram-se profundamente, mas certas perceções e preconceitos persistiram, adaptando-se a novos contextos. O antissemitismo não nasceu de um único acontecimento nem de uma causa isolada, mas de uma combinação complexa de fatores — religiosos, culturais e sociais — que encontraram, desde cedo, terreno fértil na dificuldade humana em lidar com a diferença.
De
civilização em civilização, de era em era, que caiam umas sobre as outras como
peças de dominó, cada uma com novas formas de preconceito mas sempre o mesmo
ódio, pesar disso os judeus salvaram a Torá que é a sua razão de ser, e a Torá
salvou os judeus, o povo do livro, tal como ainda hoje são denominados pelas outras
duas religiões abraâmicas.
Nos capítulos seguintes, esse legado encontrará novas expressões, particularmente com o surgimento do cristianismo e a sua relação ambivalente com o judaísmo no seio do Império Romano.
_____________
English Version
From Hebrews to Jews — The Ancestral Origin of Antisemitism
One of the questions that haunted me for a long time was where, when, how, and why hatred of the Jews first emerged. Most people, influenced by the media and by quick, decontextualised publications, focus on the Arab-Israeli conflict that began in 1948 and that today opposes Israelis and Palestinians in what appears to be a merely territorial dispute. Yet long before that, the Holocaust (1933–1945) had already revealed a visceral hatred and a Machiavellian plan to exterminate a people, its culture, its traditions, and above all its religion — Judaism, the cradle of the Abrahamic faiths. If we go further back, we find many other chapters of persecution, expulsions, the tortures of the Inquisition, exclusionary ghettos, and deadly pogroms. But why?
The most plausible answer to this millennia-old question may, in fact, lie in the birth of Abraham’s own clan, whose members came to be known as Hebrews. The word “Hebrew” is commonly linked to the Hebrew Avar (עָבַר), meaning “to cross” or “to pass over”, giving rise to Ivri (עִבְרִי). Some scholars have associated these groups with the so-called Habiru (or Apiru), mentioned in Egyptian, Hittite, and Mesopotamian sources, as well as in records from Canaan. Although this identification is not universally accepted, the term seems to have referred to marginal or foreign populations — those who came from outside, those who did not belong. At first glance, this appears to be a neutral distinction; in practice, however, it already carries an underlying idea of separation: these people were not “one of us”. More than foreigners, they were perceived as different. But different in what, exactly?
The historian Robert Wistrich (1945–2015) made a major contribution to this discussion by locating the roots of antisemitism as far back as the Bronze Age, suggesting that it is one of the longest-lasting forms of hostility in history. In this view, long before the Greek and Roman worlds or the rise of Christianity, tensions already existed between the ancient Israelites and peoples such as the Egyptians, Edomites, Babylonians, and Syrians. It is important, however, to stress that these hostilities did not have a racial basis in the modern sense, but arose above all from a civilisational clash rooted in religious and cultural difference.
Whereas neighbouring civilisations practised forms of polytheism often accompanied by religious syncretism, the Hebrews developed a strict monotheism. The God of Israel was invisible, unrepresentable, and any form of idolatry was excluded. Moreover, unlike other peoples who deified their kings, the Hebrews, especially during the period of the Judges, recognised only divine sovereignty. This theological structure implied a distinctive political vision, in which no human authority could claim divine status.
For the major empires of antiquity, where religion and political power were deeply intertwined, this stance was not merely a religious eccentricity. It was often interpreted as insubordination. Participating in official cults frequently functioned as a civic demonstration of loyalty; refusing them could be read as a rejection of the established order. In that sense, Jewish monotheism was sometimes perceived as a kind of “atheism” — not because it lacked faith, but because it rejected the visible gods of the surrounding societies.
According to Wistrich, one of the central factors in this tension was Jewish resistance to cultural assimilation. In an age when syncretism was common and often encouraged, the preservation of a distinct religious and social identity could be interpreted as deliberate isolation or even arrogance. Strict observance of the Torah, the rejection of mixed marriages, and the concept of Am Segulá (עַם סְגֻלָּה), often translated as “chosen people” — in the sense of a spiritual responsibility rather than superiority — reinforced this external perception of separation.
That difference was also visible in everyday life. Dietary laws, ritual purity rules, circumcision, and the observance of Shabbat created clear social boundaries. Avoiding food prepared by non-Jews, for instance, was not simply a religious practice, but a way of preserving identity and avoiding idolatry. To outside observers, such practices could appear as signs of exclusivity or even contempt.
More than that, Judaism did not merely claim the superiority of its God; it denied the existence of the other divinities. In a world where gods were part of the social and political order, such a claim could be felt as deeply offensive. Religious difference therefore became cultural tension, and cultural tension became hostility.
This hostility is well documented in Classical sources. A notable example appears in Flavius Josephus’s Against Apion (first century CE), which responds to earlier anti-Jewish narratives. Josephus describes polemics that emerged in Alexandria, especially during the third and second centuries BCE, in a context of a large Jewish presence in the city. The Greek translation of the Hebrew Bible — the Septuagint — made narratives such as the Exodus accessible to Hellenistic readers, in which the Egyptians appear as oppressors punished by the God of Israel.
In response, authors such as Manetho and Apion allegedly produced alternative and deeply hostile versions of this history. Although their original texts have not survived, Josephus reports that the Jews were portrayed as lepers expelled from Egypt rather than as a people liberated from slavery. Other accusations included absurd and defamatory claims, such as the worship of a deity with an ass’s head or the ritual sacrifice of foreigners — ideas that later reappeared in medieval Europe in the form of blood libels.
All these elements contributed to the formation of a negative image of Jews in the collective imagination of neighbouring societies. What the Jews themselves understood as religious fidelity and the preservation of identity could, to outsiders, look like a rejection of human fellowship. From that perception emerged a recurring accusation: misanthropy, that is, the supposed hatred of humanity.
It is important, however, to avoid an excessively linear or deterministic reading. Antisemitism did not emerge in a uniform way, nor did it remain unchanged over the centuries; it assumed different forms according to historical context. Even so, it is possible to identify recurring patterns that reach back into antiquity: the perception of the Jew as “the other”, as a people resistant to assimilation, as a foreign body within the dominant societies.
While many peoples were eventually absorbed into the imperial cultures that conquered them, the Jews tended to preserve a remarkable degree of continuity in their identity. That persistence, far from being neutral in the eyes of outsiders, often became a source of suspicion or rejection.
Here lies one of the deepest roots of the phenomenon: the tension between a majority that values integration and a minority that insists on maintaining its difference.
Thus a long historical process was set in motion. The religious and political systems of antiquity disappeared or were profoundly transformed, but certain perceptions and prejudices endured, adapting themselves to new contexts. Antisemitism was not born from a single event or a single cause, but from a complex combination of religious, cultural, and social factors that, from very early on, found fertile ground in humanity’s difficulty in dealing with difference.
De
civilização em civilização, de era em era, que caiam umas sobre as outras como
peças de dominó, cada uma com novas formas de preconceito mas sempre o mesmo
ódio, pesar disso os judeus salvaram a Torá que é a sua razão de ser, e a Torá
salvou os judeus, o povo do livro, tal como ainda hoje são denominados pelas outras
duas religiões abraâmicas.
In the chapters that follow, this legacy will find new expressions, especially with the rise of Christianity and its ambivalent relationship with Judaism within the Roman Empire.
quarta-feira, julho 01, 2026
Filipe de Freitas Leal

