sábado, 21 de março de 2026

O Eixo da Resistência - Os Tentáculos do Polvo.


No tabuleiro da guerra moderna, nada acontece por acaso. Enquanto o mundo assiste ao escalar das tensões, é preciso compreender que estamos perante um choque calculado de objetivos entre potências globais e regionais. Neste artigo, analiso a arquitetura da estratégia iraniana, os perigos reais nos estreitos marítimos e as razões que tornam este conflito uma ameaça existencial sem precedentes.

Em regra, quando um país decide entrar em guerra, ele sabe com quem está a lidar. Com a espionagem moderna altamente desenvolvida, os governos 'contam as espingardas' do inimigo antes do primeiro disparo. A meu ver, não houve erro de cálculo, mas sim um choque de objetivos: os EUA buscam conter a China, enquanto Israel enfrenta uma questão existencial.
O arsenal oculto do Irão — túneis quilométricos repletos de mísseis de longo alcance — justifica o temor histórico israelita. Os tentáculos de Polvo (governo de Teerão) cercaram o Médio Oriente, do Iraque ao Líbano, passando por Gaza, Cisjordânia e Iêmen. Assim, o Irão controla indiretamente o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. O regime fornece ideologia, financiamento e armas pesadas a grupos extremistas, ordenando ataques enquanto permanece oficialmente impune sob o manto de Estado soberano na ONU.
Embora ainda não possua a bomba atômica, o enriquecimento de urânio em níveis muito superiores ao necessário para fins energéticos revela as suas intenções. O risco atual é o bloqueio do Mar Vermelho pelos Houthis, o que estrangularia o Canal de Suez, prejudicando o Egito, a Arábia Saudita e a Europa. Tudo indica que o Irão antecipou este cenário; sua arquitetura de guerra e os atentados — do caso AMIA ao massacre de 07/10 — parecem armadilhas meticulosas. Até a possível eliminação de seus altos escalões é absorvida pela ideologia do martírio e pelo objetivo da expansão do xiismo.
O conflito tende a alastrar-se devido à vulnerabilidade dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. A estratégia iraniana é clara: usar escudos humanos e infraestrutura civil (escolas e hospitais) para proteger plataformas de lançamento, como faz o Hamas, garantindo que qualquer contra-ataque resulte em tragédias humanitárias.
Por fim, a ideia de um golpe de Estado interno no Irão parece distante, dada a sua imensa máquina de repressão. O regime dificilmente cairá sem uma capitulação imposta por forças externas, o que implicaria uma guerra terrestre, que poderia levar alguns anos ou, para acelerar o fim, o risco de uma catástrofe maior. Oxalá não cheguemos a esse ponto.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sábado, 14 de março de 2026

A Guerra no Irão: Porque o Martírio de Crianças não pode ser um "Dano Colateral"


Sempre fui uma pessoa transparente e pautei a minha vida pela clareza das minhas posições, desde os meus ideais políticos e ideológicos até à minha conversão ao judaísmo. Face ao atual conflito no Irão, sinto a necessidade de partilhar com os meus amigos a minha visão sobre este momento dramático.

Quero que fique claro: em momento algum apoio a violência nem me regozijo com a morte de quem quer que seja. Defendo, sim, o direito do Estado de Israel a proteger-se perante ameaças existenciais, sejam elas de grupos terroristas ou de Estados que coloquem em causa a sobrevivência do povo judeu. Contudo, como em tudo na vida, existem limites éticos intransponíveis.

Condeno veementemente o bárbaro bombardeamento ocorrido no passado dia 28 de fevereiro, no Irão, que atingiu uma escola primária e ceifou a vida a cerca de 170 meninas. Este é um acontecimento que nunca deveria ter ocorrido, sob hipótese alguma. Como pai, sinto uma tristeza profunda e uma revolta imensa perante a morte injusta de crianças inocentes. Os objetivos militares deveriam ser estritamente cirúrgicos; atingir civis, muitos dos quais desejavam uma mudança mas não a custo do sangue do seu próprio povo, é um erro trágico e inaceitável.

Além disso, creio que a intervenção militar não deve ter como fim último a simples mudança de regime pela força, mas sim a neutralização de ameaças nucleares e balísticas. É imperativo evitar que o Irão colapse numa catástrofe humanitária ou numa guerra civil que gere um vazio de poder, tal como aconteceu na Síria ou na Líbia. A meu ver, nem a morte de Ali Khamenei deveria ter sido procurada desta forma; se em vida era um tirano, morto corre o risco de ser transformado em mártir.

A guerra deve ser sempre o último recurso face a ameaças à existência. No entanto, não podemos aceitar que existam danos 'colaterais' que signifiquem a morte de inocentes. A justiça e a defesa não se podem divorciar da humanidade.

Este texto abordou eventos extremamente recentes e sensíveis referentes ao conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026. Texto que preserva a minha transparência e os meus valores e ideias tendo organizado os argumentos de forma a reforçar a minha visão ética e humanitária.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

Morreu Jürgen Habermas - O Pensador que combateu o antissemitismo


Morreu hoje, aos 96 anos, o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas (1929-2026). Sua obra sobre Israel e o povo judeu é pilar central da cultura política alemã do pós-guerra, fundamentada no princípio do "nunca mais".

Em novembro de 2023, o pensador reafirmou que a existência de Israel e a segurança da vida judaica são imperativos éticos, derivados da responsabilidade histórica pelos crimes do regime nazista. Confira os pontos centrais de seu pensamento:

  1. Direito de Defesa e Solidariedade: No manifesto "Princípios de Solidariedade" (2023), Habermas defendeu que a reação militar de Israel aos ataques do Hamas é, em princípio, justificada pela ameaça existencial do grupo ao Estado judeu. No entanto, ressaltou que as ações em Gaza devem observar a proporcionalidade, evitar mortes de civis e buscar uma solução de paz.

  2. O Judaísmo na Identidade Europeia:
     Para ele, o judaísmo é um componente essencial da tradição intelectual do Ocidente. Habermas defendia que a Alemanha possui uma "dívida filosófica" com os judeus, buscando integrar suas contribuições ao idealismo alemão na cultura nacional e europeia. Além disso, via o combate ao antissemitismo como crucial para a preservação dos valores democráticos universais.
  3. Sionismo como Necessidade Histórica: Embora crítico do nacionalismo, ele reconhecia o Estado de Israel como uma necessidade vital para a autodeterminação e segurança do povo judeu após o Holocausto, servindo de refúgio contra ameaças contemporâneas, como o regime dos aiatolás.
Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Esquerda Woke: A Nova Face do Antissemitismo


Vivemos tempos de inversão de valores, onde as bandeiras do humanismo parecem ter sido substituídas por dogmas ideológicos cegos. Como alguém que dedicou a carreira a estudar as desigualdades sociais e os direitos humanos, observo com profunda preocupação o rumo que a chamada "Nova Esquerda" tomou. Neste artigo, analiso como o radicalismo Woke se tornou, ironicamente, o novo motor do antissemitismo global.

A Mecânica da Exclusão Ideológica

A perversão reside no facto de que esta "Nova Esquerda" sequestrou a linguagem da justiça social para a transformar numa arma de exclusão. Ao dividir o mundo numa dicotomia simplista entre "opressores" e "oprimidos" — baseada apenas em características identitárias e não em atos ou valores — retiraram ao indivíduo a sua humanidade para o reduzir a uma etiqueta coletiva. Nesta aritmética ideológica distorcida, o povo judeu foi arbitrariamente reclassificado como o "opressor supremo", ignorando séculos de perseguição e a sua própria autodeterminação. Assim, o que começou como uma suposta defesa das minorias vulneráveis transmutou-se, ironicamente, num sistema que legitima o antissemitismo sob a capa do progressismo, punindo o sucesso e a resiliência de um povo com a mesma retórica de exclusão que outrora dizia combater.

O Abandono da Razão pelo Dogma

A Nova Esquerda — radical e Woke — tornou-se o epicentro e o motor do antissemitismo a nível global. Ao promover a cultura do cancelamento e a "lacração", esta corrente perdeu a lucidez: abandonou a luta de classes e a lógica racional para se lançar num discurso dogmático, típico do fanatismo religioso. Mais grave ainda, apoia, com um silêncio sepulcral e cúmplice, as injustiças de ditadores como Maduro ou Khamenei, enquanto vocifera em altifalantes palavras de ordem como "morte a Israel" ou o já tristemente célebre mote "Palestina livre, do rio até ao mar".

A Ignorância como Ferramenta de Ódio

A esmagadora maioria destes políticos, intelectuais e influenciadores de opinião desconhece a origem real do conflito. Possuem uma visão enviesada e distorcida por doutrinas revisionistas de uma História que não estudaram, não conhecem e, por isso, não compreendem. Agem como cavaleiros do apocalipse, semeando o ódio onde deveria haver concórdia e festejando a guerra em vez de celebrar a paz. Incendeiam a opinião pública com desespero, em vez de oferecerem esperança.

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English Version

The New Left and the Betrayal of Humanism: The New Engine of Global Antisemitism

By Filipe de Freitas Leal

We live in times of inverted values, where the banners of humanism seem to have been replaced by blind ideological dogmas. As someone who has dedicated a career to studying social inequalities and human rights, I observe with profound concern the direction the so-called "New Left" has taken. In this article, I analyse how Woke radicalism has ironically become the new engine of global antisemitism.

The Mechanics of Ideological Exclusion

The perversion lies in the fact that this "New Left" has hijacked the language of social justice to transform it into a weapon of exclusion. By dividing the world into a simplistic dichotomy of "oppressors" versus "oppressed" — based solely on identity characteristics rather than actions or values — they have stripped the individual of their humanity, reducing them to a collective label. Within this distorted ideological arithmetic, the Jewish people have been arbitrarily reclassified as the "ultimate oppressor", ignoring centuries of persecution and their own right to self-determination. Thus, what began as a supposed defence of vulnerable minorities has, ironically, transmuted into a system that legitimises antisemitism under the guise of progressivism, punishing the success and resilience of a people with the very rhetoric of exclusion it once claimed to fight.

The Abandonment of Reason for Dogma

The New Left — radical and Woke — has become the epicentre and the motor of antisemitism on a global scale. By promoting cancel culture and "virtue signalling", this movement has lost its lucidity: it has abandoned the class struggle and rational logic to throw itself into a dogmatic discourse typical of religious fanaticism. Even more grave is its support, through a deathly and complicit silence, for the injustices of dictators such as Maduro or Khamenei, while shouting slogans through loudspeakers like "death to Israel" or the now infamously celebrated motto "Palestine free, from the river to the sea".

Ignorance as a Tool for Hatred

The overwhelming majority of these politicians, intellectuals, and influencers are ignorant of the true origins of the conflict. They possess a biased vision, distorted by revisionist doctrines of a history they have not studied, do not know, and therefore do not understand. They act as horsemen of the apocalypse, sowing hatred where there should be concord and celebrating war instead of peace. They inflame public opinion with despair, rather than offering hope.

 Referências bibliográficas / References

·        Baddiel, D. (2021). Jews Don't Count. London: TLS Books.

·        Bernstein, D. L. (2022). Woke Antisemitism: How a Progressive Ideology Harms       the Jewish People. New York: Post Hill Press.

·        Braunstein, J.-F. (2022). La Religion Woke. Paris: Grasset.

·        Simons, J. W. (2023). Israelophobia: The Newest Version of the Oldest Hatred and What to Do About It. London: Constable.



Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


domingo, 8 de março de 2026

A Seletividade da Nova Esquerda: Entre a História e a Ideologia Revisionista


Será que as pautas da justiça social são património exclusivo de uma ideologia? Ao confrontar a retórica da Nova Esquerda com a profundidade de documentos como a Rerum Novarum, percebemos que a defesa dos oprimidos não exige a negação da história. Este texto analisa o perigo de transformar a luta anticolonial num escudo para regimes despóticos.

Este 
texto visa apresentar uma argumentação, que se pretende clara, tanto quanto possível bem estruturada, com foco na crítica à seletividade ideológica da esquerda radical e propondo soluções pragmáticas em vez de revisões históricas.

A Nova Esquerda — ou, mais precisamente, a moderna Esquerda Radical — tende a analisar questões atuais sob o viés histórico do colonialismo, do esclavagismo, do racismo e da libertação dos povos. Essa postura consolidou um posicionamento ideológico contra o sionismo e a própria existência de Israel. Contudo, essa visão acaba, por vezes, amparando regimes como o dos aiatolás, silenciando perante as injustiças e massacres cometidos pelo regime teocrático e ditatorial do Irã.
Ao analisarmos as bases teóricas da crítica esquerdista ao sionismo, destaca-se o argumento anticolonialista que acusa Israel de ser um projeto de colonização. Todavia, essa premissa ignora que o colonialismo na África e na Ásia persistiu até o século XX e que a presença judaica na Palestina foi contínua, chegando a representar um terço da população local no período do mandato britânico. Além disso, ao classificar Israel meramente como "colônia", nega-se que a migração dos judeus europeus foi uma fuga desesperada da perseguição nazi-fascista.
Outro pilar dessa crítica é a luta antiesclavagista direcionada às potências europeias e aos EUA. Embora o esclavagismo tenha sido uma realidade até o final do século XIX, tanto ele quanto o colonialismo são fatos pretéritos. As sequelas socioeconômicas atuais não se resolvem no passado, mas sim no presente e a longo prazo. Tais soluções não emergem de retóricas ideológicas sectárias ou da reescrita da história — prática comum em regimes despóticos —, mas de políticas públicas que combatam a desigualdade e defendam os direitos humanos.
É importante notar que essas pautas não são patrimônio exclusivo da esquerda ou da direita. Prova disso é a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891), que abordou as questões sociais e laborais de forma mais lúcida e menos retórica que as doutrinas de esquerda da época. A atualidade do documento é tamanha que, após atualizações no papado de João Paulo II, serviu de base para o Socialismo Cristão e a Democracia Cristã.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sábado, 7 de março de 2026

A Geopolítica como Claque: Onde Nos Leva a Ideologia Cega e Irracional?


Neste post eu escrevo o facto de hoje vivermos tempos em que a análise geopolítica foi substituída pela paixão cega das claques. Quando a ideologia se sobrepõe à verdade humana, perdemos a capacidade de enxergar a raiz dos conflitos e o sofrimento de quem neles padece.

É desolador observarmos como os conflitos armados são debatidos por colunistas, comentadores, intelectuais e até cidadãos comuns, como se fossem meros jogos de futebol. A análise leviana, doutrinária e sectária — moldada estritamente pelo espectro político de quem fala — ignora a tragédia real em prol de uma narrativa de "claque".

Para compreender a profundidade dessas questões, recuso-me a seguir cartilhas ideológicas. Elas são, por natureza, rígidas demais para atingir a raiz dos problemas. O entendimento real exige, acima de tudo, humildade intelectual: é preciso fazer "tábua rasa", buscar informações multidisciplinares e manter a objetividade.

Sem intenção de ofender, é impossível não notar como a "Nova Esquerda" e suas doutrinas pós-modernas têm se mostrado míopes e sectárias, incapazes de uma visão holística. Minha crítica nasce de uma percepção compartilhada por muitos: primeiro, a Esquerda abandonou a defesa das classes trabalhadoras; depois, os valores da família. Agora, parece abandonar os democratas ao redor do mundo.

Ao aliar-se estrategicamente a regimes como o do Irão, Rússia, China e Cuba — ignorando que são ditaduras opressoras e persecutórias — a Esquerda vira as costas aos venezuelanos, aos árabes e, tragicamente, às feministas e democratas iranianos. Diante desse cenário, a pergunta torna-se inevitável: afinal, o que é a Esquerda hoje e a quem ela realmente serve?

quinta-feira, 5 de março de 2026

A Geopolítica do Apocalipse: Os Pilares Teológicos da Inimizade do Irão contra Israel




Para compreender a fundo a hostilidade do regime iraniano contra Israel, é necessário transcender a análise política convencional e mergulhar nos dogmas do pensamento xiita. Para Teerão, o conflito não é uma disputa territorial comum, mas uma missão sagrada de purificação do solo islâmico.
Aqui estão os pilares teológicos que sustentam esta visão:
1. A Terra como "Waqf" (Legado Inalienável)
No pensamento jurídico fundamentalista seguido por Khomeini, o mundo divide-se em Dar Al-Islam (Território do Islão) e Dar Al-Harb (Território da Guerra). Qualquer terra que já tenha sido governada pelo Islão torna-se um Waqf — um património sagrado e inalienável pertencente à comunidade muçulmana (Umma) sob a guarda de Deus.
  • O Dogma da Inversão: Para o regime, é uma abominação teológica que "infiéis" governem crentes. Embora judeus e cristãos sejam considerados "Povos do Livro" (Ahl al-Kitab), o seu lugar dogmático seria o de Dhimmis (minorias protegidas, mas submissas e sem poder político). A existência de Israel é vista como um "roubo" de um território sagrado e, pior, uma inversão da hierarquia divina, onde o antigo submisso agora governa sobre o solo do Islão.
2. A Reinterpretação dos "Filhos de Israel"
Khomeini e os seus sucessores utilizam versículos do Alcorão (das Suras Al-Baqarah e Al-Ma'idah) sobre a desobediência de grupos israelitas no passado para alimentar uma narrativa anacrónica.
  • A Aplicação: O moderno Estado de Israel não é visto como uma entidade política secular, mas como o herdeiro das "características de traição" descritas nos textos antigos. Nesta visão, combater o sionismo é a continuação direta da luta dos profetas contra a corrupção e a arrogância.
3. Escatologia Xiita: O Retorno do Mahdi
A teologia xiita é profundamente marcada pela crença no retorno do 12º Imam, o Mahdi, que virá para estabelecer a justiça final.
  • O Papel de Jerusalém: A tradição escatológica afirma que o Mahdi travará uma batalha final contra as forças do mal e liderará a oração na Mesquita de Al-Aqsa.
  • Aceleração do Destino: Diferente de uma espera passiva, o regime de Teerão vê-se como a "vanguarda" que deve preparar o cenário para este retorno. A eliminação de Israel é vista como um pré-requisito teológico; ao "limpar" o caminho para o Messias islâmico, o regime acredita estar a cumprir um cronograma divino.
Conclusão: Uma Ameaça Existencial
O regime teocrático do Irão e os seus proxies (Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias) não lutam por fronteiras ou pela autodeterminação palestiniana — que serve apenas como ferramenta de propaganda. O objetivo final é a eliminação total de Israel. Nesta visão apocalíptica, muitos analistas veem paralelos com a batalha final de Yajuj e Majuj (Gog e Magog), sugerindo que, para os Aiatolás, estamos a viver os capítulos finais de um confronto cósmico onde a diplomacia humana não tem lugar.
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A ideologia central do Hamas, conforme estabelecido no seu Estatuto de Fundação de 1988, baseia-se na premissa de que a Palestina histórica — abrangendo toda a área entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, incluindo o território de Israel — é uma terra islâmica de waqf (posse religiosa inalienável).
Essa visão teológica e política implica o seguinte:
Propriedade Perpétua: A terra pertence à comunidade muçulmana (Ummah) e não pode ser cedida, vendida ou alienada por nenhum líder ou autoridade, nem por um período limitado.
Conflito Religioso: O Hamas argumenta e admite que o conflito não é apenas uma disputa territorial, mas um dever religioso. Portanto, a libertação da Palestina é tratada como uma Jihad (guerra santa) individual e obrigatória para todos os muçulmanos.
Rejeição de Israel: Baseado nessa ideologia, o Hamas rejeita o reconhecimento da legitimidade de Israel e opõe-se a qualquer acordo de paz que resulte na perda de território palestino.
Atualizações e nuances:
Embora o documento de 2017 tenha suavizado parte da linguagem e aceitado um estado palestino provisório nas fronteiras de 1967 (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental), o Hamas não renunciou formalmente ao seu estatuto original de 1988 nem à ideologia de que toda a Palestina é um waqf islâmico. Líderes do grupo frequentemente afirmam que o documento de 2017 é um complemento, não um substituto, da visão fundamental do grupo


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Israel x Palestina e Irão: A Origem do Conflito



Olá a todos, como estão? Cá estou de volta a aprofundar um tema muito polémico. Eu estive a informar-me sobre detalhes do conflito Israelo-árabe, detalhes que a imprensa não revela e uma parte dos intelectuais, uns desconhecem, outros não entendem, e outros ainda pior, escondem de nós.

Um desses detalhes é, a bem da verdade, uma das causas fundamentais do conflito, que opõe os países muçulmanos face ao Estado de Israel, (sobretudo os mais radicais), trata-se do dogma religioso do 'Waqf' ou Dogma do Solo Sagrado do Islão, e também dos 'Dhimis' (os não muçulmanos chamados de infiéis que para viverem no Dar al-Islam ou a Casa do Islão e poder praticar a sua religião devem pagar o imposto da 'Gizhya'), quanto ao solo Sagrado, compreende toda o território do I Califado. E é devido a isto que em 1979, após a Revolução Islâmica, o Irão colocou na sua constituição programática a missão da destruição total da Entidade Sionista, e dos judeus, chamando de Israel um cancro no solo Sagrado do Islão.

O Hamas em Gaza, tal como o Hezbollah do Líbano, ou a Jihad Islâmica, são os tais proxies, grupos terroristas, financiados pelo Irão, e que têm esta visão dogmática do Waqf. E foi este dogma religioso que levou os países árabes a não aceitarem a partilha da Palestina pela Resolução 181 da ONU em 1947.

Yasser Arafat não era um religioso, pelo contrário era um muçulmano secular casado com uma católica, mas apesar de ser secular, de reconhecer o direito de Israel como Estado e de querer a Palestina livre, ele hesitou, pois tinha medo do que se chama hoje de "A rua árabe" e a reação da ala mais radical, e por isso rejeitou a solução dos dois Estados, na Reunião de Camp David no ano 2000; bastava dizer sim e a Palestina hoje seria livre e existia. O mundo ficou perplexo, inclusive levou Bill Clinton a dizer que a recusa de Arafat foi "uma tragédia de dimensões históricas"

O atentado de 07/10 foi a gota D'Água que mudou o paradigma de ação defensiva de Israel e da politica dos EUA face ao conflito, somando-se os atentados contra os navios no Mar Vermelho pelos Houtis, e fez com que Israel e os EUA mudassem a tática, antes atacavam defensivamente apenas os tentáculos do polvo, que eram os grupos terroristas financiados pelo Irão, mas agora a tática passou a ser a necessidade de eliminar a cabeça do Polvo (o regime teocrático do Irão). Não é para menos, o governo de Teerão calculou mal as consequências do 07/10. Esperava liderar o mundo árabe contra Israel.

Agora o problema é saber como este embroglio se resolve. Nenhuma das possibilidades é fácil, e todas trazem consequências. A queda do regime é uma Caixa de Pandora, que pode abrir-se para outros males que não sabemos quais são. Se Yasser Arafat tinha medo da rua Árabe, é bom que os EUA tenham medo do vazio de poder, porque não sabemos até que ponto a população quer como líder o Príncipe Rheza Pahlavi, filho do Xá deposto em 1979.

Ou será que vale mais deixar tudo como está no Irão e fazer um ultimato como o Artigo 5 da NATO-OTAN, dizendo ao Irão: "Se atacares Israel, vais pelos ares". Enfim, algo tem que ser bem calculado, porque há o perigo de cair o poder na rua e no vazio de autoridade, algo que poderá deflagrar numa guerra civil, e nesse caso ninguém sai a ganhar.

Facto é que há milhares de mortos, milhares de presos políticos e de execuções no Irão. Um povo sem armas não consegue derrubar um governo Teocrático, fanático e tirano.

Enquanto tudo isto se passa os manifestantes e a oposição clamam pela libertação que venha dos EUA, mas até mais de Israel.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

 
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