quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Herança Sefardita na Genética da População Portuguesa Comtemporânea


Resumo
Este artigo analisa a presença e o impacto da herança genética e cultural dos judeus sefarditas na demografia portuguesa contemporânea. A partir de estudos na área da genética populacional e de revisões historiográficas, discute-se o processo de integração e assimilação forçada das comunidades judaicas a partir do final do século XV. O estudo reitera a complexidade da identidade ibérica, marcada pelo fenómeno dos cristãos-novos, cujos reflexos persistem na cultura material e imaterial do Portugal moderno.

1. Introdução
Portugal é historicamente reconhecido como uma das nações de matriz católica mais homogéneas da Europa Ocidental. Contudo, investigações contemporâneas no campo da paleogenética e da história social têm demonstrado que a composição demográfica do país possui uma profunda e complexa raiz multicultural. Entre os diferentes povos que moldaram o panorama populacional da Península Ibérica, a comunidade judaica sefardita assume um papel de destaque, embora grande parte desta herança permaneça desconhecida do público geral.
2. Evidências Genéticas da Ascendência Sefardita
A validação científica da forte presença judaica na linhagem biológica portuguesa ganhou tração com estudos de genética populacional baseados no mapeamento do cromossoma Y (linhagem masculina). Um dos marcos nesta investigação foi o estudo internacional publicado na revista científica American Journal of Human Genetics (2008), liderado por investigadores da Universidade de Leicester e que contou com a colaboração de várias entidades internacionais.
Os dados obtidos indicam que:
  • Média na Península Ibérica: Cerca de 19,8% dos habitantes da Península Ibérica moderna possuem marcadores genéticos associados a ancestrais judeus sefarditas. Outros 10,6% demonstram linhagem ligada a populações do Norte de África (árabes e berberes).
  • Assimetria Geográfica: A distribuição deste legado não é uniforme. O estudo identificou que, em determinadas regiões do sul de Portugal, a concentração de marcadores genéticos de origem sefardita atinge picos de aproximadamente 36,3% da amostra masculina.
Estes dados empíricos demonstram que, apesar dos séculos de homogeneização religiosa provocada pela Inquisição, a herança biológica das minorias religiosas foi amplamente preservada no património genético nacional.
3. Fatores Históricos de Dispersão e Assimilação
A fixação e posterior diluição da população judaica na região decorreu de três momentos históricos críticos:
  1. A Diáspora no Império Romano: O povoamento inicial intensificou-se após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelas forças romanas, que forçou o deslocamento de populações judaicas para os confins do Império, incluindo a província da Lusitânia.
  2. O Período do Al-Andalus: Durante a vigência do domínio islâmico na Península Ibérica (a partir do século VIII), as comunidades judaicas usufruíram de um estatuto de relativa tolerância religiosa e autonomia jurídica. Em centros urbanos como Lisboa, a população judaica chegou a ter uma densidade demográfica expressiva. Sob a influência cultural islâmica, muitos sábios judeus adotaram a língua árabe. É o caso do filósofo e médico Maimónides, que redigiu em judaico-árabe a sua célebre obra filosófica O Guia dos Perplexos (e não o Sepher HaZohar, que pertence à tradição da Cabala e foi escrito em aramaico e hebraico).
  3. A Conversão Forçada e o Édito de 1496: O momento de maior impacto demográfico ocorreu com o decreto de expulsão ou conversão forçada promulgado por D. Manuel I em 1496. Centenas de milhares de indivíduos foram batizados à força, dando origem à classe social dos cristãos-novos.
4. Marcas Culturais e a Questão dos Apelidos
A transição forçada para o cristianismo forçou os antigos judeus a camuflar as suas práticas religiosas originárias. Na culinária, este fenómeno deu origem à criação de enchidos como a alheira e a farinheira. Produzidos originalmente com carne de aves e pão, estes alimentos simulavam o consumo de carne de porco (proibida pela lei judaica), servindo de estratégia de proteção contra as denúncias de criptojudaísmo entregues ao Tribunal do Santo Ofício.
No que concerne à onomástica, a tradição popular portuguesa defende empiricamente que apelidos associados a elementos da flora (como Oliveira, Pereira ou Carvalho) denotam uma linhagem exclusivamente judaica. Contudo, a historiografia moderna relativiza esta premissa. Os cristãos-novos adotavam os apelidos já existentes na sociedade da época, muitas vezes apadrinhados por famílias da velha nobreza católica, o que torna impossível determinar a ascendência judaica com base apenas no apelido de uma família.
5. Conclusão
Embora a identidade sefardita tenha sido historicamente silenciada ou marginalizada, diversas figuras proeminentes da história e cultura portuguesa contemporânea assumiram e investigaram as suas raízes hebraicas. Exemplos notáveis incluem os antigos Presidentes da República Jorge Sampaio, o capitão Barros Basto, e os escritores Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco. A convergência entre a investigação documental e a biologia molecular moderna comprova que a história portuguesa é indissociável da matriz sefardita, cuja herança permanece viva na cultura e na genética do país.

Referências Bibliográficas
  • ADAMS, Susan M. et al. (2008). The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula. The American Journal of Human Genetics, v. 83, n. 6, p. 725-736.
  • MAIMÓNIDES, Moisés. O Guia dos Perplexos. (Tradução e notas). Introdução à filosofia medieval judaica.
  • TAVARES, Maria José Pimenta Ferro. Os Judeus em Portugal no Século XIV. Lisboa: Guimarães Editores, 1982.



Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


4 comentários:

Maria Teresa Carvalho disse...

A minha mãe é de Argoselo ,filha de comerciantes que viviam no Bairro de Baixo ,local da aldeia onde moravam os que se dedicavam aos negócios .No Bairro de Cima ,moravam as famílias de agricultores .O meu pai era natural de uma aldeia de Miranda do Douro,por que os meu avõ paterno embora fosse de Argozelo ,tinha ido viver para Miranda do Douro .O apelido do meu pai e do meu avô é Carvalho (nome de árvore ).Daí que sempre achei que teria origem judaica e até com um certo orgulho .Como sempre me interessei por tudo que se relacione com os serfaditas ,embora sem o conhecimento exacto das percentagens apresentadas no neste estudo ,tinha já essa ideia .Peço desculpa ,mas como li o resultado do estudo ,apenas quis comentar . M.Teresa Afonso Carvalho.

Filipe de Freitas Leal disse...

Muito obrigado pelo se comentário e ao mesmo tempo um testemunho, sim, há muitas famílias com nomes de árvores que têm origem judaica.
A existência de uma tão grande percentagem de portugueses com origem judaica pode nos dar uma pequena imagem do que Portugal antes da expulsão e da conversão forçada dos judeus nos ano de 1497.

Maria Teresa Carvalho disse...

Obrigada pela sua resposta .Sou natural de Mirandela ,estudei em Bragança e depois na Faculdade de Letras de Lisboa ,onde fiz o curso de História .Também por esse motivo ,o meu interesse pela história dos Judeus em geral e pela dos serfadistas em Portugal .

Anónimo disse...

Sim, sobrenomes como: Pereira, Oliveira, Pinto, Pimentel, Rosa, Flores, Cordeiro, Pinheiro, Lima, Macieira, Moreira, Cardoso, Teixeira, Aguiar, Ribeiro, etc., etc. Esses sao sobrenomes tipicamente Sefarditas, Cristãos Novos (Judeus de Portugal).

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