Mostrar mensagens com a etiqueta Judaísmo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Judaísmo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Como se Organizava a Judeia sob Ocupação Romana? (Capítulo 2)


A Rutura Asmoneia e a Brecha para Roma

Para compreendermos a perda da soberania judaica, importa recuar um século na história. Após a gloriosa Revolta dos Macabeus contra os gregos selêucidas, a dinastia asmoneia havia conseguido reconsagrar o Segundo Templo — o Beit HaMikdash HaSheni (בֵּית הַמִּקְדָּשׁ הַשֵּׁנִי). Foi a purificação deste santuário que deu origem à festividade de Chanuká (חֲנֻכָּה) termo que significa ‘dedicação’. Este feito devolveu à Judeia um período de relativa independência e paz. Contudo, esta mesma linhagem mergulhou mais tarde numa violenta e fratricida guerra civil.

De um lado, o rei e sumo pontífice eram a mesma pessoa, Aristóbulo II; do outro, erguia-se o seu irmão, Hircano II, liderando tropas revoltosas. De acordo com os relatos de Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas, constatamos que, no epicentro destes litígios bélicos e de profunda fragilidade interna, no ano 63 AEC, o Reino da Judeia foi invadido pelo exército da República Romana. O General Pompeu, o Grande, aproveitou a brecha e ocupou Jerusalém com as suas legiões. Ao apoiar as fações de Hircano II, Pompeu depôs o rei Aristóbulo II e entregou as rédeas do poder ao irmão rebelde.

O Trauma no Santo dos Santos: Pompeu e o Deus Invisível

Há um episódio deste momento que merece ser aqui lembrado, registado no Livro 1, Capítulo 7 de A Guerra dos Judeus (Josefo, 75 CE). Trata-se de um choque cultural e religioso imenso: o General Pompeu cometeu o terrível sacrilégio de entrar pessoalmente no Santo dos Santos, o Kodesh HaKodashim (קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים) — o lugar mais sagrado e inviolável do Templo, onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar, e somente uma vez por ano.

Pompeu esperava encontrar ali uma estátua de ouro do Deus dos judeus, à semelhança dos deuses pagãos da época. Para seu espanto, o recinto estava completamente vazio. Como bem descreve Montefiore (2011), o general romano avançou pelas cortinas e mistérios do santuário apenas para se deparar com o vazio absoluto; nem poderia ser de outra forma, era a coerência de um monoteísmo sem imagens: o vazio simbolizava fielmente a presença do Deus único e invisível no Santo dos Santos. A Arca da Aliança fora levada em 586 AEC pelos babilónios e, quando os judeus regressaram do exílio para erguer o Segundo Templo em 515 AEC, o coração do santuário permaneceu despido de qualquer imagem.[1] Embora Pompeu não tenha saqueado os tesouros materiais do Templo, a sua intrusão profana foi sentida por toda a nação judaica como uma humilhação insuportável, gerando um trauma religioso profundo que alimentaria o ódio judaico contra o jugo romano durante séculos.

A Teocracia Tutelada: O Templo, o Sinédrio e os Rabinos sob o Olhar de Roma

A partir daquele fatídico ano, a Judeia passou a figurar como um Reino Vassalo, curvado aos interesses da República Romana — importa lembrar que, nesta época, Roma ainda não era governada como um Império. Hircano II, agora sob a tutela de Roma, geria a política e a economia doméstica e acumulava a função de Sumo Sacerdote. Contudo, a forma como subira ao trono, revoltando-se contra o próprio irmão com o auxílio de forças estrangeiras, despiu-o de qualquer legitimidade moral aos olhos de grande parte do povo. Como bem aponta Goodman (2007), a interferência romana na escolha dos líderes locais quebrou a linha tradicional da autoridade divina, gerando, em grande medida, uma profunda sensação de abandono do povo por parte do Templo.

Para compreendermos a sociedade judaica desta era, temos de olhar para ela como uma estrutura piramidal e profundamente teocrática, cujo centro gravitacional absoluto era o Segundo Templo. O Templo estava longe de ser um mero espaço de culto; ele acumulava funções que hoje dividiríamos por várias instituições do Estado. Era o equivalente à Suprema Corte, albergando o Sinédrio, o Sanedrin (סַנְהֶדְרִין), que reunia na chamada "Sala das Pedras Polidas" para exercer o poder judicial em matérias religiosas, civis e criminais. Funcionava também como um Senado ou Grande Assembleia, a Knesset (כְּנֶסֶת), detendo o poder legislativo através da interpretação das leis bíblicas e da promulgação de decretos. Por fim, operava como o autêntico Banco Central da nação. Conhecido também como a Casa do Tesouro, o Otzar HaBeit (אוֹצַר הַבַּיִת), o Templo centralizava a cobrança de impostos e donativos e servia de cofre-forte onde os cidadãos podiam depositar as suas economias em segurança.

Todavia, com a dominação romana, essas funções foram controladas e perderam a autonomia. Nas decisões finais, quer do Sinédrio, quer da Knesset, ou mesmo na gestão bancária, nada poderia ser feito sem a autorização e o controlo rígido de Roma. Foi esta situação que deu a ideia ao povo de que o Templo se corrompera — não no sentido de uma prevaricação individual, mas porque perdera a sua natureza e função inicial. Esta subordinação ao poder pagão é descrita por Sanders (1992) como o catalisador para a perda do prestígio da aristocracia do Templo junto das massas. Ao verem o Templo corrompido, o povo passou a conferir aos rabinos uma maior importância e legitimidade religiosa, na medida em que estes estavam ao seu lado para manter vivas a fé, as tradições, a cultura e a identidade judaica. Em certo sentido, os rabinos acabaram por ser uma resistência à dominação estrangeira. Foi nesta época que surgiram duas grandes correntes do pensamento rabínico de importância fulcral: a Escola do Rabbi Hillel, o Ancião (110 AEC – 8 EC) e a Escola do Rabbi Shammai (50 AEC – 30 EC).

A Perda da Autonomia sob o Domínio Romano

A ocupação romana veio impor uma mudança de vida e organização a toda a sociedade da Judeia. Não apenas impôs a submissão à tutela de Roma, não se limitando a uma mudança coreográfica no topo do poder; chegou para reconfigurar e submeter as instituições mais sagradas da Judeia. Para garantir que a província fosse efetivamente controlada, a engrenagem romana anulou a independência administrativa, jurídica e financeira local através de três eixos asfixiantes:

  • O Sumo Sacerdote - Cohen Gadol (כֹּהֵן גָּדוֹל): Deixou de ser um cargo dinástico ou vitalício e passou a ser um cargo ao serviço de Roma, nomeado pelo próprio César, que tinha a autoridade de destituir e nomear os Sumos Sacerdotes de acordo com os interesses políticos; nesse sentido, operava como um mero vassalo. (Goodman, 2007)
  • O Sinédrio (Suprema Corte): Era a autoridade jurídica, composta por 71 membros, os 70 sábios e o Presidente Nassi (נָשִׂיא), órgão que legislava à medida que fazia a jurisprudência e a interpretação da Legislação em vigor — a Torá escrita e a tradição oral (leis consuetudinárias). Como o Sinédrio podia julgar, mas não condenar à morte, os crimes de sedição e lesa-majestade não podiam ser sentenciados por este conselho; tinham de ser enviados para a instância superior, ou seja, o Tribunal Romano denominado Praetorium (Pretório) (Sanders, 1992). Ali, o magistrado era o próprio Governador Romano, que na prática exercia o poder supremo acima do Rei da Judeia e do Sumo Pontífice. Foi devido a esta limitação que Jesus não pôde ser julgado em definitivo pelo Sinédrio, mas falaremos disto mais adiante.
  • O Tesouro do Templo: Em teoria, detinha as funções de banco central, onde as pessoas podiam guardar os seus bens valiosos em segurança. Com o domínio romano, porém, foi repetidamente saqueado ou taxado por generais romanos. Tamanha era a riqueza do Templo e a dimensão do saque que muito desse dinheiro serviu para custear obras monumentais na própria cidade de Roma (Goodman, 2007).

A Dinâmica do Poder Local: Da Linhagem Sagrada aos Idumeus

Na hierarquia do poder, a palavra final sobre a geopolítica e os assuntos macroeconómicos pertencia ao Governador Romano da Síria, que representava os interesses de Roma na região. Ao governante local cabiam apenas os assuntos domésticos de menor relevância para a República.

O arranjo de Hircano II como Etnarca e Sumo Sacerdote durou pouco tempo. Os romanos acabaram por lhe retirar os títulos políticos e transferiram a administração civil para uma outra linhagem influente na região. O poder escorregou assim dos asmoneus para os idumeus. Foi desta dinastia idumeia que emergiu o infame Rei Herodes, um monarca que não pertencia à linhagem real de David nem à nobreza judaica, mas que herdou a coroa por direta imposição e conveniência de Roma (Josefo, 75 CE).

O Mosaico Sectário: Entre a Lei, a Ascese e a Lâmina

No xadrez religioso, o tecido social dividia-se naquilo que Flávio Josefo descreve como as principais escolas filosóficas — ou seitas — que disputavam a influência sobre as mentes e corações da Judeia:

  • Os Fariseus: Judeus devotos, profundamente observantes das leis religiosas e da tradição oral. Como bem observa Sanders (1992), eles tendiam a conformar-se com o domínio político de Roma, desde que tivessem total liberdade para praticar a sua fé. Tinham grande apoio entre as classes populares.
  • Os Saduceus: Uma elite aristocrática e sacerdotal, que formava uma espécie de partido da classe alta. Controlavam as funções políticas do Templo e aliavam-se frequentemente ao poder romano para salvaguardar a sua riqueza, influência e estatuto (Goodman, 2007).
  • Os Essénios: Místicos e ascetas que viviam o judaísmo de forma radical. Repudiando a corrupção política e as disputas de poder em Jerusalém, isolaram-se em comunidades monásticas nas montanhas do deserto da Judeia e na região do Negueve.
  • Os Zelotas e os Sicários: À margem dos grupos acima, erguia-se uma fação político-militar de resistência intransigente. Combinando o zelo religioso com o nacionalismo radical, recusavam categoricamente pagar tributo a um soberano pagão e viam a submissão a Roma como uma traição a Deus, recorrendo ao punhal e à guerrilha urbana para semear o estopim da revolta armada.

A Economia da Submissão e o Apagamento Cultural

A transição para o modelo de vassalagem romana esmagou a economia local. Roma passou a exigir impostos pesados — afinal, eram os tributos extraídos das províncias e reinos vassalos que financiavam a máquina pública e a opulência romana. Empresas privadas de cobrança de impostos estabeleceram-se na região através dos chamados Publicanos. Estes cobradores tornaram-se o rosto visível da opressão e um foco constante de revolta popular, uma vez que a população judaica se via obrigada a entregar até 25% de tudo o que produzia. Este sufoco financeiro gerou um desespero social profundo, criando o solo fértil ideal para que as promessas messiânicas e de libertação divina florescessem entre as massas (Sanders, 1992).

A base desta pirâmide social era composta por camponeses, agricultores, pastores e artesãos — uma massa considerável de camponeses pobres que subsistia de forma rudimentar. Como medida de contenção política, uma fatia significativa da população que se mantivera fiel ao deposto Aristóbulo II foi escravizada e deportada para Roma. Foi a estratégia encontrada pelos romanos e por Hircano II para extirpar potenciais líderes de motins e limpar a oposição (Goodmann, 2007).

À semelhança do que fizera em invasões anteriores sob o domínio de babilónios, assírios, persas e gregos, a Judeia enfrentava agora um novo império. Contudo, a ocupação romana não visava apenas a extração de recursos; o objetivo a longo prazo era a assimilação cultural e a Pax Romana. Embora inicialmente tenham mantido algumas estruturas locais, o plano final exigia uma submissão identitária total.

O verdadeiro ponto de viragem ocorreu no ano 6 EC. O etnarca Herodes Arquelau, que herdara o governo de seu pai, Herodes o Grande, demonstrou uma incapacidade crónica de liderança. Após anos de um governo despótico e marcado por extrema crueldade, Arquelau foi formalmente deposto pelo Imperador César Augusto. Roma aboliu de imediato o estatuto de Reino Vassalo, fundindo a Judeia, a Samaria e a Idumeia numa única Província Romana de Administração Direta (Joséfo, 75 CE). A soberania local, que já era puramente simbólica, desaparecia por completo; a partir de então, o novo governador romano ditava as ordens a partir da capital costeira de Cesareia.

Para inaugurar este novo regime fiscal, o Governador Romano da Síria, Públio Sulpício Quirino, ordenou um recenseamento geral de pessoas e bens. Para a mentalidade judaica, este censo era intolerável. Ser contado por um império pagão equivalia a aceitar que o povo escolhido se tornara propriedade de Roma. Este insulto teológico e económico serviu de estopim definitivo para inflamar o radicalismo dos Zelotas e dos Sicários, arrastando as massas camponesas para a clandestinidade e para a revolta (Goodmann, 2007).

Foi precisamente neste ambiente de sufoco quotidiano, desespero social e fervor apocalítico que se extinguiu qualquer ilusão de conciliação com o invasor pagão. Se as instituições tradicionais do Templo pareciam corrompidas e os punhais dos rebeldes traziam apenas uma brutal retaliação militar, a salvação da nação judaica teria de vir diretamente de uma intervenção divina. O solo estava fértil para o messianismo popular. É neste cenário de busca por libertação espiritual que começam a ecoar na Galileia as pregações de uma nova e carismática fação dissidente: a seita judaica dos Notzrim. Como veremos nos próximos capítulos, este não seria um fenómeno isolado, integrando uma longa e trágica esteira de movimentos messiânicos que culminaria, décadas mais tarde, com a revolta de Bar Kokhba (Sanders, 1992).


[1] É frequente confundir os espólios retratados no Arco de Tito, em Roma, com a Arca da Aliança. Todavia, os relevos romanos mostram apenas a Mesa dos Pães da Proposição e a Menorá; a Arca já tinha desaparecido séculos antes, aquando da invasão babilónica em 586 AEC.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Dos hebreus aos judeus — A origem ancestral do antissemitismo ( 1°Capituloo)




A mais longa hostilidade da história humana

Uma das questões que mais me perseguiu durante muito tempo foi entender onde, quando, como e porquê surgiu o ódio aos judeus. A maioria das pessoas, influenciada pelos meios de comunicação e por publicações rápidas e descontextualizadas, foca-se no conflito israelo-árabe iniciado em 1948, que hoje opõe israelitas e palestinianos numa disputa aparentemente territorial. No entanto, antes disso, o Holocausto (1933-1945) já fora revelador de um ódio visceral e de um maquiavélico plano de extermínio de um povo, da sua cultura, das suas tradições e, sobretudo, da sua religião — o judaísmo, o berço das religiões abraâmicas. Se recuarmos ainda mais, encontramos tantos outros capítulos de perseguições, expulsões, torturas da Inquisição, guetos de exclusão e pogroms mortíferos. Mas porquê?

O Povo que Veio do Outro Lado

A resposta mais provável a esta questão milenar remonta, na verdade, ao nascimento do próprio clã de Abraão — em hebraico diz-se Avraham (אברהם), que significa "pai de multidões" —, cujos membros foram denominados hebreus. A palavra hebreu provém do hebraico Avar (עָבַר), que significa "atravessar" ou "passar para o outro lado", dando origem ao termo Ivri (עִבְרִי), que sifnifica hebreu.

Há a probabilidade de que fossem identificados como o povo "Habiru" (ou Apiru), mencionado em tábuas dos egípcios, hititas, mesopotâmicos e da própria região de Canaã. O significado desta palavra remete para "o outro" — no sentido daquele que vem de fora, que é diferente ou que não pertence ao grupo nativo. Este conceito parece inócuo, mas carrega uma mensagem subliminar de separação: tal indivíduo ou comunidade não é "dos nossos". Isso, por si só, traduzia a ideia de que os hebreus não vinham apenas de outro lugar, mas eram intrinsecamente diferentes. Mas em quê?

Um Monoteísmo Radical e Político

O historiador Robert Wistrich (1945-2015) traz luz a estas questões sobre a origem ancestral do antissemitismo, situando o seu início ainda na Idade do Bronze. O autor afirma, inclusive, tratar-se da “hostilidade mais longa da história”, manifestando-se muito antes dos Impérios Grego e Romano e do Cristianismo. Para Wistrich, os filisteus, edomitas, sírios, babilónios, egípcios e outros povos helénicos já odiavam os judeus, mas não por questões raciais.

O ódio nascia de um choque civilizacional fundamentado não apenas na diferença religiosa, mas especificamente na forma de culto. Enquanto as outras civilizations adoravam deuses antropomórficos de pedra e madeira, os hebreus prestavam culto ao Deus Criador que, sendo invisível, não podia — nem devia — ser representado em imagens esculpidas ou pintadas. Mais do que isso: ao contrário dos outros povos, que divinizavam os seus reis e imperadores, os hebreus faziam do Deus único o seu único governante, no chamado Período dos Juízes (Wistrich, 1991). O Reino de Israel passou, por isso, um longo período sem a figure de um rei terreno.

Esta recusa em divinizar líderes políticos e em vergar a espinha perante os panteões dos impérios dominantes transformou os hebreus num enigma perigoso para o mundo antigo. Para um faraó egípcio ou, mais tarde, para um imperador helénico, a religião era o cimento que unia o Estado. Adorar os deuses locais era uma demonstração de lealdade civil. Assim, o monoteísmo radical dos hebreus não era visto apenas como uma excentricidade teológica, mas sim como uma insubordinação política — uma espécie de "ateísmo" aos olhos dos pagãos, já que recusavam os deuses visíveis em prol de uma Divindade invisível.

A Barreira do Quotidiano e o Rótulo de Misantropia

A tese de Wistrich aponta que esta recusa dos judeus em fundirem-se com as demais culturas foi o principal catalisador desse ódio. Aos olhos dos povos vizinhos — que eram politeístas e praticavam o sincretismo cultural e religioso —, o isolamento judaico era interpretado como arrogância (Wistrich, 1991). Por zelo, fidelidade e estrita observância às regras da Torá e da tradição, o sincretismo era rejeitado e os casamentos mistos, proibidos. Esta conduta baseava-se no conceito de Am Segulá (עַם סְגֻלָּה), que significa "povo tesouro" ou "povo escolhido" (importando ressalvar que, para o judaísmo, "escolhido" não evoca superioridade, mas sim uma responsabilidade perante uma missão divina).

Além da esfera política, esta diferenciação manifestava-se de forma vincada no quotidiano, erguendo barreiras sociais complexas. Para evitar a idolatria, os judeus viviam apartados: não consumiam alimentos ou bebidas dos pagãos, temendo que tivessem sido oferecidos a divindades estrangeiras. A postura teológica do judaísmo era inflexível: eles não se limitavam a afirmar que o Deus de Israel era superior; declaravam categoricamente que as divindades vizinhas eram falsas, meras pedras sem vida (Wistrich, 1991). No dia a dia, as leis de pureza ritual, a circuncisão e a guarda estrita do Shabat (שבת) — um dia inteiro de descanso laboral que os gregos e romanos mais tarde ridicularizariam como pura preguiça — criavam um isolamento voluntário.

Esta rejeição total era sentida pelo mundo exterior como uma ofensa intolerável. Para as maiorias pagãs, esta insistência em permanecer rigidamente "separado" não era interpretada como piedade, mas sim como soberba ou um profundo desprezo pelo resto da humanidade. Assim, o que começou como incompreensão e estranheza rapidamente se transformou em repulsa, estabelecendo as bases de um preconceito milenar que rotulou os judeus de "misantropos" — acusados de nutrirem um suposto ódio pela humanidade —, alimentando a engrenagem de hostilidade que perdura até aos dias de hoje (Wistrich, 1991).

O Choque Literário em Alexandria e as Primeiras Calúnias

Há, inclusivamente, o registo de um exemplo literário fundamental em Contra Ápio (Volumes I e II), da autoria de Flávio Josefo, que descreve de forma clara a existência deste sentimento antijudaico já na Antiguidade Clássica. Mais precisamente entre os séculos III e II a.C., na cidade de Alexandria — onde residia uma grande comunidade de imigrantes judeus —, surgiu uma forte reação egípcia à Bíblia dos Setenta, a Septuaginta (Josefo, 93 d.C./1992), traduzida para o grego por setenta sábios e escribas. Ao lerem essa versão grega, os egípcios tomaram conhecimento do relato do Êxodo, onde eram identificados como opressores cujo Faraó e povo sofreram as dez pragas como castigo do Deus dos hebreus.

Em resposta, autores de matriz egípcia e helenística, como Ápio e Manetom, escreveram uma versão própria e distorcida do Êxodo. Embora essa literatura original tenha desaparecido, conhecemos o seu teor por intermédio de Flávio Josefo, que a refutou vigorosamente. Josefo relata que a narrativa egípcia procurava humilhar os judeus, alegando que os hebreus, em vez de libertos por milagre, teriam sido expulsos do Egito por serem leprosos, doentes e preguiçosos. O relato difamatório afirmava ainda que o Deus dos hebreus tinha a forma de uma cabeça de asno e que estes sacrificavam e comiam um grego a cada ano na Páscoa judaica — uma calúnia primitiva que serviu, séculos mais tarde, de base para as terríveis acusações de Libelo de Sangue durante a Idade Média.

O Inconformismo que Atravessou Milénios

Todos estes fatores combinados moldaram o judaísmo no inconsciente coletivo dos povos vizinhos da terra de Canaã — desde os amalequitas aos filisteus, passando pelos edomitas — como o berço de um proto-humanismo disruptivo. Numa época em que os povos eram subjugados por tiranias divinizadas, um Deus invisível cujas leis codificadas na Torá exigiam a justiça social, o descanso ao sábado, o respeito pela vida e a proibição de imoralidades era algo subversivo.

Em total oposição à alteridade, desenvolveu-se um sentimento de hostilidade baseado unicamente na diferença e, acima de tudo, na resiliência de um povo que não se deixava assimilar. Enquanto qualquer outro estrangeiro imigrado no Império Romano — fosse ele grego, gaulês ou egípcio — acabava por se diluir na cultura dominante, geralmente logo na segunda geração, os judeus permaneciam fiéis à sua identidade. O judeu isolado, o eterno "estranho", o eterno "outro", deu origem a um antissemitismo estrutural que, longe de ter nascido de uma hora para a outra, remonta à própria Idade do Bronze, por volta de 1700 a.C. (Wistrich, 1991).

É precisamente neste nó górdio que reside a raiz ancestral deste fenómeno: a intolerância da maioria perante uma minoria que se recusava obstinadamente a deixar de existir enquanto povo.

Assim se acendeu um pavio que atravessaria milénios sem nunca se apagar. Os deuses de pedra e madeira dos vizinhos de Canaã caíram no esquecimento, mas o preconceito contra o Deus invisível e o povo que O guardava ganhou vida própria. O antissemitismo nascia ali, na Idade do Bronze: não como uma resposta a algo que os judeus tivessem feito, mas sim ao que eles decidiram ser — inconformistas num mundo de moldes pré-fabricados. Uma fogueira milenar que, em breve, receberia um novo combustível que mudaria o rumo da humanidade: o nascimento do Cristianismo e o choque no seio do Império Romano.

De civilização em civilização, de era em era, as potências caíam umas sobre as outras como peças de dominó, cada uma moldando novas formas de preconceito, mas alimentando sempre o mesmo ódio. Apesar disso, os judeus salvaram a Torá, que é a sua razão de ser, e a Torá salvou os judeus — o "Povo do Livro", tal como ainda hoje são denominados pelas outras duas religiões abraâmicas.

Nos capítulos seguintes, esse legado encontrará novas expressões, particularmente com o surgimento do cristianismo e a sua relação ambivalente com o judaísmo no seio do Império Romano. 

_____________

English Version

From Hebrews to Jews — The Ancestral Origin of Antisemitism

by Filipe de Freitas Leal

One of the questions that haunted me for the longest time was understanding where, when, how, and why the hatred towards Jews first emerged. Most people, influenced by the media and quick, decontextualized publications, tend to focus on the Israeli-Arab conflict that began in 1948, which is framed today as an apparently territorial dispute between Israelis and Palestinians. However, long before that, the Holocaust (1933–1945) had already revealed a visceral hatred and a machiavellian plan to exterminate a people, their culture, their traditions, and, above all, their religion—Judaism, the cradle of the Abrahamic faiths. If we journey even further back, we encounter endless other chapters of persecution, expulsions, inquisitorial torture, ghettos of exclusion, and deadly pogroms. But why?

The most likely answer to this ancient question actually traces back to the birth of
Abraham’s clan—in Hebrew called Avraham (אברהם), which means "father of multitudes"—whose members were designated as Hebrews. The word Hebrew comes from the Hebrew Avar (עָבַר), meaning "to cross over" or "to pass to the other side," giving rise to the term Ivri (עִבְרִי). There is a probability that they were identified as the "Habiru" (or Apiru) people, mentioned in tablets by the Egyptians, Hittites, Mesopotamians, and within the region of Canaan itself. The meaning of this word points to "the other"—in the sense of someone who comes from the outside, who is different, or who does not belong to the native group. This concept might seem harmless, but it carries a subliminal message of separation: that individual or community is not "one of us." This, in itself, conveyed the idea that the Hebrews did not just come from somewhere else, but were intrinsically different. But in what way?

The historian Robert Wistrich (1945–2015) brings light to these questions about the ancestral origin of antisemitism, placing its beginning back in the Bronze Age. The author even states that it is the longest hostility in history, manifesting itself long before the Greek and Roman Empires and Christianity. For Wistrich, the Philistines, Edomites, Syrians, Babylonians, Egyptians, and other Hellenic peoples already hated the Jews, but not for racial reasons. The hatred stems from a civilizational clash that was based not only on religious difference, but specifically on the form of worship. While other civilizations worshipped anthropomorphic gods of stone and wood, the Hebrews worshipped the Creator God who, being invisible, could not—and should not—be represented in sculpted or painted images. More than that: unlike other peoples, who divinized their kings and emperors, the Hebrews made the one God their sole ruler during what is called the Period of the Judges (Wistrich, 1991). The Kingdom of Israel therefore spent a long period without the figure of an earthly king.

This refusal to divinize political leaders and to bow before the pantheons of ruling empires turned the Hebrews into a dangerous enigma to the ancient world. For an Egyptian Pharaoh or, later, a Hellenic emperor, religion was the cement that held the State together. Worshipping local gods was a demonstration of civic loyalty. Thus, the radical monotheism of the Hebrews was not seen merely as a theological eccentricity, but as political insubordination—a kind of "atheism" in the eyes of pagans, since they rejected visible gods in favor of an invisible Divinity.

Wistrich’s thesis points out that this refusal of the Jews to blend in with other cultures was the primary catalyst for this hatred. In the eyes of neighboring peoples—who were polytheistic and practiced cultural and religious syncretism—Jewish isolation was interpreted as arrogance (Wistrich, 1991). Out of zeal, faithfulness, and strict adherence to the rules of the Torah and tradition, syncretism was rejected and intermarriage was forbidden. This conduct was rooted in the concept of Am Segula (עַם סְגֻלָּה), which means "treasure people" or "chosen people" (though it is vital to clarify that, in Judaism, "chosen" does not imply superiority, but rather a responsibility toward a divine mission).

Beyond the political sphere, this differentiation manifested clearly in daily life, raising complex social barriers. To avoid idolatry, Jews lived apart: they did not consume food or drinks from pagans, fearing they might have been offered to foreign deities. The theological stance of Judaism was inflexible: they did not merely claim that the God of Israel was superior; they categorically declared that neighboring deities were false, mere lifeless stones (Wistrich, 1991). Day to day, laws of ritual purity, circumcision, and the strict observance of Shabbat (שבת)—a whole day of rest from labor that Greeks and Romans would later ridicule as pure laziness—created a voluntary isolation.

This total rejection was felt by the outside world as an intolerable offense. To the pagan majorities, this insistence on remaining rigidly "separate" was not interpreted as piety, but as hubris or a deep contempt for the rest of humanity. Thus, what began as misunderstanding and strangeness quickly mutated into repulsion, laying the groundwork for a millenary prejudice that labeled Jews as "misanthropes"—accused of harboring a supposed hatred for mankind—fueling the machinery of hostility that endures to this day (Wistrich, 1991).

There is, in fact, a fundamental literary record in Against Apion (Volumes I and II), written by Flavius Josephus, which clearly describes the existence of this anti-Jewish sentiment back in Classical Antiquity. More precisely between the 3rd and 2nd centuries BCE, in the city of Alexandria—where a large community of Jewish immigrants lived—a strong Egyptian backlash arose against the Translation of the Seventy, the Septuagint (Josephus, 93 CE/1992), translated into Greek by seventy scholars and scribes. Upon reading this Greek version, the Egyptians learned of the Exodus narrative, where they were identified as oppressors whose Pharaoh and people suffered the ten plagues as a punishment from the God of the Hebrews.

In response, authors of Egyptian and Hellenistic background, such as Apion and Manetho, wrote their own distorted version of the Exodus. Although this original literature has vanished, we know its content through Flavius Josephus, who vigorously refuted it. Josephus reports that the Egyptian narrative sought to humiliate the Jews, claiming that the Hebrews, instead of being freed by a miracle, had been expelled from Egypt because they were lepers, diseased, and lazy. The defamatory account even claimed that the God of the Hebrews had the shape of an ass's head and that they sacrificed and consumed a Greek person every year during the Jewish Passover—a primitive slander that served, centuries later, as the blueprint for the terrifying Blood Libel accusations during the Middle Ages.

All these factors combined shaped Judaism in the collective subconscious of the peoples neighboring the land of Canaan—from the Amalekites to the Philistines, passing through the Edomites—as the birthplace of a disruptive proto-humanism. At a time when peoples were subjugated by divinized tyrannies, an invisible God whose laws codified in the Torah demanded social justice, rest on the Sabbath, respect for life, and the prohibition of immoralities was highly subversive.

In total opposition to alterity, a feeling of hostility developed, based solely on difference and, above all, on the resilience of a people who refused to be assimilated. While any other foreigner who immigrated into the Roman Empire—be they Greek, Gaul, or Egyptian—ended up diluting into the dominant culture, usually by the second generation, the Jews remained faithful to their identity. The isolated Jew, the eternal "stranger," the eternal "other," gave rise to a structural antisemitism that, far from being born overnight, traces back to the Bronze Age itself, around 1700 BCE (Wistrich, 1991).

It is precisely in this Gordian knot that the ancestral root of this phenomenon lies: the intolerance of the majority toward a minority that obstinately refused to cease to exist as a people.

Thus, a fuse was lit that would cross millennia without ever burning out. The gods of stone and wood of Canaan’s neighbors fell into oblivion, but the prejudice against the invisible God and the people who guarded Him took on a life of its own. Antisemitism was born right there, in the Bronze Age: not as a reaction to anything the Jews had done, but to what they chose to be—nonconformists in a world of pre-fabricated molds. A millenary fire that would soon receive a new fuel, changing the course of humanity: the birth of Christianity and the clash within the heart of the Roman Empire.

            From civilization to civilization, from era to era, empires collapsed upon one another like falling dominoes, each shaping new forms of prejudice, yet always feeding the exact same hatred. Despite this, the Jews saved the Torah, which is their reason for being, and the Torah saved the Jews—the "People of the Book," just as they are still called today by the other two Abrahamic religions.

In the chapters that follow, this legacy will find new expressions, especially with the rise of Christianity and its ambivalent relationship with Judaism within the Roman Empire.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Tesouro do Judaísmo: Como e Porquê os Judeus Sobreviveram 2000 Anos na Diáspora?


Parte I - A Natureza intrínseca e singular do Judaísmo (A essência do Povo do Livro)

Há uma diferença intrínseca do Judaísmo face às outras duas religiões abraâmicas, o cristianismo foi instrumentalizado pelo poder político de Roma, que serviu para a expansão do Cristianismo, o Islão pelo contrário instrumentalizou a política e fez dela o seu braço armado para a expansão, ao contrário, o Judaísmo utilizou a Diáspora como um laboratório de refinamento intelectual. O resultado é um "tesouro epistemológico" inegualável que agora se apresenta como o antídoto contra a barbárie.

I. A Anatomia da Diferença: Por que o Judaísmo não é um Braço Religioso a serviço do Poder Político?

Diferentemente do Cristianismo, que se fundiu à estrutura administrativa do Império Romano, de onde conquistou a Europa e a partir de Roma geria a fé e a política de continentes, e também do Islão, que nasceu pela força da espada e sob a égide do Califado como um procjeto de governança e expansão teológica, o Judaísmo seguiu uma trajetória centrífuga e oposta. O aspecto fundamental aqui é a natureza da sua "missão". Sendo uma religião etnocêntrica e não proselitista, o Judaísmo não possui o motor da "conquista de almas" nem se diz a condição exclusiva para a salvação espiritual. 

Assim, sem a necessidade e sem a mínima pretensão de converter o "outro", a religião judaica nunca precisou de exércitos para validar o seu credo nem a sua crença ou divindade. O poder político, para o judeu da Diáspora, não era um instrumento de controlo, mas uma ameaça externa a ser navegada, os judeus estavam sempre prontos para fugir, nunca para desistir de ser quem eram. Isso gerou uma separação crucial: enquanto outras fés buscavam o Poder Universal (o mundo sob uma bandeira), o Judaísmo focou na Continuidade Particular (o povo sob uma lei). O resultado foi a preservação de uma identidade singular e de uma consciência compartilha.

II. O Milagre do Refinamento: 2000 Anos a separar o "Trigo do Joio"

O aspeto mais cruel da história judaica — o antissemitismo endémico — é também o arquitecto da sua sofisticação. A expulsão e o massacre funcionaram como um processo de selecção metafísica. Sem terra, os judeus foram forçados a investir no único capital que não poderia ser confiscado: o seu intelecto, aliado a uma engenharia de sobrevivência como povo e nação sem terra.

Este é o ponto crucial: a inteligência judaica não é um traço biológico, mas uma necessidade de sobrevivência espiritual. A dedicação à Torá e ao Talmud criou uma "aristocracia do saber" que foi e ainda é ensinada de geração em geração (LeDor VaDor) onde o status não vinha da linhagem militar, mas da capacidade de interpretar a lei. Esse rigor hermenêutico transbordou para a Filosofia e através desta, para todas as áreas da ciência. A Diáspora não foi apenas um exílio; foi um período de destilação onde o "joio" da superficialidade foi queimado nas fogueiras das perseguições, restando o "trigo" de uma resiliência mística e intelectual sem paralelos.

III. A Ontologia do Conflito: A Luz vs. As Trevas da Ignorância

Se no passado o Antissemitismo foi forjado pela Teologia da Substituição e alimentado pelo dogma do Deícidio (a Crucifixão de Cristo), no cenário contemporâneo, o confronto entre Israel e as forças do Eixo da Resistência como o Irão, Houties, Hezbollah e o Hamas (este último equivale a uma palavra que em hebraico significa "violência") é a manifestação física de um choque ontológico. O fundamentalismo que move o terrorismo é alimentado pela ignorância e pelo ódio religioso que se baseia no dogma de Waqf — a ideia de que o território do Dar Al-Islam (Casa do Islão) é inalienável e absoluto e afirmam que a morte é um troféu. Dizem que amam mais a morte do que os israelitas amam a vida.

Para o pensamento judaico, a vida é o valor supremo (Pikuach Nefesh). O aspecto fundamental aqui é o amor à vida que reside no saber versus o amor à morte. A violência é vista como o estágio mais baixo da consciência humana — o subproduto da inveja e da escuridão intelectual. A existência de Israel, portanto, não é apenas nem nunca foi uma questão de definição de fronteiras, mas a garantia de um espaço onde o "amor à Torá" (ao saber) prevalece sobre a pulsão de destruição. O Estado de Israel é o porto seguro para o tesouro acumulado no exílio.

IV. A Redenção Epistemológica: Um Futuro da plenitude e Luz

A conclusão desta saga milenar não é a vitória militar, mas uma revolução na forma como a humanidade percebe a realidade. A "grande missão" do povo israelita, como sugerido pela mística da Kabalá, é uma contribuição epistemológica. Não se trata de converter o mundo ao Judaísmo, mas de elevar o mundo à compreensão de que o Mal é, em si mesmo, por essência, a falta de luz.

No futuro, o antissemitismo e o racismo serão vistos como resíduos de uma era pré-racional, nichos de indivíduos incapazes de processar a complexidade da vida. A luz da sabedoria judaica, preservada por dois milénios de Diáspora, servirá como uma lente circular: A Kabalá ajuda a humanidade a evoluir até o ponto de ser capaz de entender as verdades que o povo judeu guardou em segredo. Quando a ignorância for dissipada, a violência (hamas) perderá a sua razão de ser, e a contribuição intelectual e mística do Judaísmo será finalmente reconhecida como o milagre que salvou a consciência humana da extinção.

Parte II - O Estado de Israel como Porto Seguro Existencial

VI. A Essência não depende do Estado
Historicamente, o argumento de que o Judaísmo "não depende do Estado" refere-se à sua identidade ontológica. Durante 2000 anos, o Judaísmo provou ser a única civilização que embora espalhada pelo mundo, foi capaz de se manter como uma nação coesa, com as suas leis, língua litúrgica, religião e cultura sem ter um território, um exército ou uma capital. Nesse sentido, o "Judaísmo" como conceito e fé é independente de estruturas políticas ou Estatais. O judaísmo sobreviveu aos dois cativeiros, a Grécia, a Roma, à Inquisição e aos Czares apenas com o "Estado de consciência" proporcionado pela oração e a devoção ao estudo da Torá. 
VII. A Existência física exige o Estado (Sionismo)
O Sionismo surgiu no século XIX como uma resposta pragmática a uma conclusão trágica: embora o Judaísmo (a ideia) fosse imortal, os judeus (as pessoas) estavam sendo exterminados. O antissemitismo moderno (racial e nacionalista) mostrou que a espiritualidade e a cultura não eram escudos contra balas e câmaras de gás.
O choque que eu menciono é o coração do debate interno de todos os judeus:
  • Antes de 1948: Muitos judeus ortodoxos eram contra o Sionismo político, acreditando que a identidade deveria continuar sendo puramente espiritual até a era messiânica.
  • Depois do Holocausto: Ficou claro que, sem soberania, o "tesouro" (a sabedoria de 2000 anos) poderia desaparecer simplesmente porque não haveria mais ninguém vivo para carregá-lo.
A Síntese

O Sionismo não nega que o Judaísmo possa existir sem um Estado; ele afirma que os judeus não devem ser obrigados a sofrer continuas perseguições e massacres para provar essa independência espiritual. Se foram precisos 40 anos do deserto para estarem prontos como nação para entrar na Terra Prometida, e se foi preciso sobreviver a 2000 anos de Diáspora forçada, que serviu para criar um povo resiliente e singular, será necessário agora a existência do Estado de Israel para que a luz do judaísmo possa contribuir ainda mais para a elevação mundial, e assim, Israel cumprir sua missão de ser Luz para as Nações não por si só, mas pelo "Livro" que é a Bíblia Hebraica, a Torá, o Tanach. Está é aliás a verdadeira essência de ser o Povo Eleito, que não deve ser interpretado como pretensão de superioridade, mas sim por ter recebido sobre si a missão que se refere a manter viva a Torá até ao fim dos tempos, onde em paz, seja então entregue a toda a humanidade.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.


sábado, 19 de outubro de 2024

Israel - O Crescimento da Extrema Direita





Se preferir pode ouvir o artigo.

É imperativo que se diga que, se por um lado o problema Israelo-árabe é causado pela agressão e a insistente recusa dos árabes da Palestina em reconhecer o Estado de Israel, o que levou à Guerra da Independência em 1948; Por outro lado, o problema também é causado ou agravado pelo radicalismo do sionismo religioso e a política de expansão dos colonatos. Há que lembrar que Ygal Amir, um colono ultra-radical que em 1995 assassinou o então Primeiro Ministro de Israel Ytzhak Rabin, era da mesma corrente política e ideológica de Meir Kahane, um judeu fanático, um sionista extremista que defendia ideias de supremacia racial e expancionismo. Essas mesmas ideias fascistas, são as que defendem os atuais ministros da Direita Radical Itamar Ben-Gvir, ministro da Defesa e líder do Partido Nacional Religioso e de Bezalel Smotrich, ministro das finanças e líder do Partido Poder Judaico, pequenos partidos de Extrema-Direita, que em troca de apoio a Benyamin Netanyahu do Partido Likud (consolidação), acabam por impor a sua agenda extremista, como a tentativa de reforma da Justiça e a expansão de colonatos.

É de mau augúrio para Israel que se escolha o caminho do radicalismo, porque não podemos confundir terroristas com civis palestinianos, uma coisa é a guerra de legítima defesa das FDI (Tzahal) contra o terrorismo do Hamas, do Hezbollah ou do Regime Terrorista e teocrático do Irão, outra coisa totalmente diferentes é o ataque contra civis palestinianos por colonos. É prejudicial para todos e mancha a imagem de Israel.

E só para finalizar o raciocínio, resta-me dizer duas coisas; a primeira é que todo e qualquer conflito não se resolve apenas no campo do combate militar, a solução é sempre política e isso passa obviamente pela solução dos dois Estados. Caso contrário voltaremos sempre ao início deste ciclo vicioso, e a segunda é que foi precisamente a fuga dos regimes nazi-fascistas e dos ideais supremacistas e antissemitas, que impulsionou a fuga dos judeus para a Terra Santa, antes, durante e após a II Grande Guerra, e que viria a culminar na criação do Estado de Israel, um lar seguro para a nação israelita. Portanto os ideais de Extrema-Direita não são concordantes com a natureza da religião judaica, os valores da Torá e nem sequer com os princípios do verdadeiro Sionismo que é democrático e plural.

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

 
Projeto gráfico pela Free WordPress Themes | Tema desenvolvido por 'Lasantha' - 'Premium Blogger Themes' | GreenGeeks Review