Gostaria de partilhar aqui um pedaço da nossa história familiar e nacional. Há alguns anos, decidi inaugurar o artigo biográfico sobre o meu tio na Wikipédia — um texto que, desde então, tem sido enriquecido por outros colaboradores. Faço-o porque a sua memória me é muito querida e sempre senti por ele uma enorme afinidade e admiração. [1] Quando eu era pequenino, ele era apenas o meu "Tio Chico". Lembro-me, com muita saudade, de passar as noites de Natal em sua casa com toda a família. A imagem que guardo com mais nitidez é a das paredes: estavam repletas de livros, do teto ao chão, desde o hall de entrada e a sala até aos corredores mais estreitos. Eram livros e mais livros, que denunciavam a mente irrequieta que ali habitava.

De seu nome completo Francisco José da Cruz Pereira de Moura (Lisboa, 17 de abril de 1925 — 4 de abril de 1998), o meu tio foi um destacado economista, pensador social e professor universitário português. Licenciou-se em Finanças em 1950 e doutorou-se em Economia em 1961 pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG). Como professor catedrático na sua
alma mater e no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, moldou gerações de economistas e políticos proeminentes, incluindo João Salgueiro e Francisco Louçã. [
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A Resistência Antifascista e o Serviço à Democracia
Firme opositor ao regime de Salazar e Marcello Caetano, fundou, com outros companheiros, a Comissão Democrática Eleitoral (CDE), que daria origem ao Movimento Democrático Português (MDP/CDE). Pelo seu ativismo, participou na histórica vigília da Capela do Rato em janeiro de 1973, o que lhe valeu a prisão pela polícia política (DGS) e a consequente demissão da universidade, à qual só regressaria após a revolução. [1, 2] Na sequência do 25 de Abril de 1974, o seu enorme prestígio técnico e moral levou o Movimento das Forças Armadas (MFA) a propor o seu nome para Primeiro-Ministro do I Governo Provisório — cargo que acabou por ser ocupado por Adelino da Palma Carlos devido ao veto de António de Spínola. Ainda assim, serviu o país como Ministro sem Pasta no I e III Governos Provisórios, e como Ministro dos Assuntos Sociais no V Governo Provisório de Vasco Gonçalves. Com a normalização institucional, afastou-se da política ativa e regressou à docência no ISEG e também em Moçambique, legando uma vasta obra técnica onde se destacam as suas famosas Lições de Economia, editadas pela Livraria Almedina. [1, 2] Uma Economia ao Serviço do Homem

O meu "Tio Chico" foi, na aceção exata da palavra, um Humanista. O seu pensamento fundiu de forma indissociável a ciência económica, a ética e o personalismo social. Influenciado pela Doutrina Social da Igreja, pelo Padre Abel Varzim e por intelectuais católicos progressistas franceses (como Jacques Maritain e Emmanuel Mounier), ele defendia que a economia não é neutra nem puramente matemática: ela transporta consigo opções éticas.
Para ele, o crescimento cego do PIB sem a justa distribuição da riqueza constituía uma falha moral profunda. Diferenciava "crescimento" de "desenvolvimento qualitativo", criticando duramente os monopólios protegidos pela ditadura. Em contrapartida, propunha um planeamento económico democrático e participativo, onde o Estado interviesse para corrigir assimetrias estruturais, modernizar o mundo rural e garantir direitos fundamentais como a educação universal e a saúde pública.
Rejeitando tanto o materialismo individualista do capitalismo (neoliberalismo) como o materialismo dialético do marxismo, Pereira de Moura nunca adotou a doutrina marxista-leninista, mantendo-se fiel a uma visão keynesiana de esquerda. Acreditava na comunidade, na solidariedade e na emancipação real das classes trabalhadoras alavancadas pela educação e a cultura. O seu legado lembra-nos de que a economia só ganha sentido pleno quando colocada, verdadeiramente, ao serviço da comunidade e da dignidade da humana.
Hoje, o seu imenso legado intelectual continua vivo na comunidade académica. O maior testemunho disso é o facto de a biblioteca da sua faculdade de sempre ter sido batizada em sua honra, sendo hoje conhecida como a Biblioteca Francisco Pereira de Moura do ISEG, que acolhe a maior e mais importante coleção bibliográfica do país nas áreas de Economia e Gestão.
Referências
- Louçã, Francisco (Abril de 1999). Francisco Pereira de Moura: the founder of modern economics in Portugal - 1925-1998. American Journal of Economics and Sociology.
- Biografia de Francisco Pereira de Moura. netsaber.com.br. [1, 2]