terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Pereira de Moura um Professor na Resistência

Gostaria de partilhar aqui um pedaço da nossa história familiar e nacional. Há alguns anos, decidi inaugurar o artigo biográfico sobre o meu tio na Wikipédia — um texto que, desde então, tem sido enriquecido por outros colaboradores. Faço-o porque a sua memória me é muito querida e sempre senti por ele uma enorme afinidade e admiração. [1]
Quando eu era pequenino, ele era apenas o meu "Tio Chico". Lembro-me, com muita saudade, de passar as noites de Natal em sua casa com toda a família. A imagem que guardo com mais nitidez é a das paredes: estavam repletas de livros, do teto ao chão, desde o hall de entrada e a sala até aos corredores mais estreitos. Eram livros e mais livros, que denunciavam a mente irrequieta que ali habitava.
De seu nome completo Francisco José da Cruz Pereira de Moura (Lisboa, 17 de abril de 1925 — 4 de abril de 1998), o meu tio foi um destacado economista, pensador social e professor universitário português. Licenciou-se em Finanças em 1950 e doutorou-se em Economia em 1961 pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG). Como professor catedrático na sua alma mater e no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, moldou gerações de economistas e políticos proeminentes, incluindo João Salgueiro e Francisco Louçã. [1, 2, 3, 4]
A Resistência Antifascista e o Serviço à Democracia
Firme opositor ao regime de Salazar e Marcello Caetano, fundou, com outros companheiros, a Comissão Democrática Eleitoral (CDE), que daria origem ao Movimento Democrático Português (MDP/CDE). Pelo seu ativismo, participou na histórica vigília da Capela do Rato em janeiro de 1973, o que lhe valeu a prisão pela polícia política (DGS) e a consequente demissão da universidade, à qual só regressaria após a revolução. [1, 2]
Na sequência do 25 de Abril de 1974, o seu enorme prestígio técnico e moral levou o Movimento das Forças Armadas (MFA) a propor o seu nome para Primeiro-Ministro do I Governo Provisório — cargo que acabou por ser ocupado por Adelino da Palma Carlos devido ao veto de António de Spínola. Ainda assim, serviu o país como Ministro sem Pasta no I e III Governos Provisórios, e como Ministro dos Assuntos Sociais no V Governo Provisório de Vasco Gonçalves. Com a normalização institucional, afastou-se da política ativa e regressou à docência no ISEG e também em Moçambique, legando uma vasta obra técnica onde se destacam as suas famosas Lições de Economia, editadas pela Livraria Almedina. [1, 2]
Uma Economia ao Serviço do Homem
O meu "Tio Chico" foi, na aceção exata da palavra, um Humanista. O seu pensamento fundiu de forma indissociável a ciência económica, a ética e o personalismo social. Influenciado pela Doutrina Social da Igreja, pelo Padre Abel Varzim e por intelectuais católicos progressistas franceses (como Jacques Maritain e Emmanuel Mounier), ele defendia que a economia não é neutra nem puramente matemática: ela transporta consigo opções éticas.
Para ele, o crescimento cego do PIB sem a justa distribuição da riqueza constituía uma falha moral profunda. Diferenciava "crescimento" de "desenvolvimento qualitativo", criticando duramente os monopólios protegidos pela ditadura. Em contrapartida, propunha um planeamento económico democrático e participativo, onde o Estado interviesse para corrigir assimetrias estruturais, modernizar o mundo rural e garantir direitos fundamentais como a educação universal e a saúde pública.
Rejeitando tanto o materialismo individualista do capitalismo (neoliberalismo) como o materialismo dialético do marxismo, Pereira de Moura nunca adotou a doutrina marxista-leninista, mantendo-se fiel a uma visão keynesiana de esquerda. Acreditava na comunidade, na solidariedade e na emancipação real das classes trabalhadoras alavancadas pela educação e a cultura. O seu legado lembra-nos de que a economia só ganha sentido pleno quando colocada, verdadeiramente, ao serviço da comunidade e da dignidade da humana.
Hoje, o seu imenso legado intelectual continua vivo na comunidade académica. O maior testemunho disso é o facto de a biblioteca da sua faculdade de sempre ter sido batizada em sua honra, sendo hoje conhecida como a Biblioteca Francisco Pereira de Moura do ISEG, que acolhe a maior e mais importante coleção bibliográfica do país nas áreas de Economia e Gestão.

Referências
  • Louçã, Francisco (Abril de 1999). Francisco Pereira de Moura: the founder of modern economics in Portugal - 1925-1998. American Journal of Economics and Sociology.
  • Biografia de Francisco Pereira de Moura. netsaber.com.br. [1, 2]




Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

4 comentários:

Graça Reis Santos disse...

Tive o enorme privilégio de ser aluna do Prof. Moura em 5 cadeiras no ISEG. É e será sempre a minha grande referência. O professor sempre disponível a qualquer hora, o professor que organizava visitas de estudo com os alunos, cuja família me acolhia em casa quando chegávamos tarde dessas visitas de estudo e eu já não tinha transporte para casa. Lembro com carinho o ritual do café feito pelo professor de uma forma quase solene num sistema de balões de vidro e lamparina, das prateleiras de alto abaixo carregadas de livros... foi dessas prateleiras que saiu o 1º livro de Obélix que li, onde é explicada a lei da procura e oferta de menires.
Mais tarde tornei-me professora e sempre tentei ser uma professora com uma atitude semelhante à deste incomparável SENHOR PROFESSOR

Filipe de Freitas Leal disse...

É com grande gosto, que leio a sua mensagem, é um grande orgulho tê-la escrito aqui, de modo sentido qual homenagem de agradecimento.

E deveras ao descrever bem o ambiente amistoso, simples e afável, misturando o café de balão (que adoro) e os livros que forravam paredes, faz-me voltar no tempo e reviver a sua presença.

Obrigado cara PROFESSORA Graça.

joan benavent disse...

Caro Felipe: este comentário se publica pelo login no Blogger de meu marido, Joan Benavent. O estimado Francisco era primo-irmão de minha mãe, e tive o imenso prazer de conhecê-lo em 1995, por ocasião da homenagem que lhe prestaram na UFRJ. Desde então, só voltei a manter contato com a família pouco antes de regressar ao Brasil, após ter vivido dois anos na Espanha. Alegra-me ler sua homenagem. Grande abraço.

Filipe de Freitas Leal disse...

Muito obrigado pela mensagem que enviou, fico lisonjeado por ter gostado do artigo que escrevi aqui em homenagem ao meu Tio. Um grande bem-haja

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