Mostrar mensagens com a etiqueta Antisemitism. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Antisemitism. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Felix Mendelssohn: A Genialidade entre a Fé, o Afeto e a Perseguição Antissemita


À luz da razão e da história, a conversão religiosa nunca serviu de blindagem contra o preconceito racial e antissemita. O caso de Felix Mendelssohn é a demonstração inequívoca de que, para a engrenagem do antissemitismo, a fé professada ou a grandeza da contribuição cultural são irrelevantes: o alvo central é, e sempre foi, a origem sanguínea. A história da música revela também o percurso da própria humanidade — não apenas no que concerne à arte e à cultura dos povos, mas porque a música é frequentemente instrumentalizada como expressão simbólica da fé pelas religiões, do poder pelo Estado e da política pelas ideologias.

O Sangue Judaico e o Mito da Conversão

Nascido em 1809 no seio de uma proeminente família judaica sob o nome de Jakob Ludwig Felix Mendelssohn, o compositor era o segundo filho do banqueiro Abraham Mendelssohn e de Lea Salomon, e neto do célebre filósofo judeu alemão Moses Mendelssohn — mentor e fundador do movimento da Haskaláh (o Iluminismo judaico). Em 1816, já após a morte de Moses, o seu pai optou por converter a família ao luteranismo, adotando o apelido Bartholdy. A intenção era pragmática: perante o declínio e o fracasso do projeto da Haskaláh, Abraham visava a assimilação como forma de proteger a família de um ambiente germânico estruturalmente hostil aos judeus.

O menino Felix cresceu num ambiente de extraordinária densidade intelectual. A sua educação foi recebida em casa através de professores particulares, como era comum na época. Era versado em história, filosofia, arte e literatura, além de ser um hábil pintor de quadros a óleo de grande qualidade e fluente em seis línguas: latim, grego antigo, alemão, francês, inglês e italiano. Dedicava-se fervorosamente à escrita de cartas, preservadas e publicadas após a sua morte pelos irmãos mais novos. Desde cedo, Felix demonstrou um prodígio nato para a música: aos seis anos já tocava piano e aos nove compunha as suas primeiras obras. Era um perfeccionista dedicado à exaustão e, na vida adulta, alimentava uma enorme paixão pelo ensino. 

Felix Mendelssohn viveu o seu protestantismo com profundidade sincera, mas sem apagar a sua memória ancestral. Foi ele quem resgatou do esquecimento e voltou a reger a Paixão Segundo São Mateus de J.S. Bach — e, ao fazê-lo, sintetizou o absurdo da situação com amarga clareza: "Pensar que foi preciso um filho de judeus para restituir ao mundo a maior música cristã!"

No entanto, a assimilação revelou-se uma ilusão. A sua genialidade e a sua ascendência judaica despertaram o ressentimento de contemporâneos e intelectuais. O exemplo mais candente foi o do compositor Wagner. Cabe perguntar: como pôde um génio da envergadura de Richard Wagner, dotado de tão extraordinária inteligência e sensibilidade musical, desenvolver um ódio tão feroz fundamentado em dogmas supremacistas e antissemitas? Esta natureza supremacista de Wagner ficou expressa no seu infame panfleto 'O Judaísmo na Música' (1850), no qual desferiu um ataque feroz contra Mendelssohn já após a sua morte, rotulando a sua elegância formal de 'superficial' unicamente pelo seu sangue.

O que começou na pena dos intelectuais encontrou o seu desfecho natural na barbárie do III Reich: o regime nazi baniu a sua música e destruiu a sua estátua em Leipzig em 1936, numa tentativa deliberada de apagar o seu nome da memória coletiva alemã. Ao mesmo tempo, Wagner tornou-se o compositor oficioso do regime hitleriano, que passou a usar as suas obras mais simbólicas — das quais se destacam a poderosa 'Abertura de Rienzi', tocada para abrir os comícios oficiais do partido Nacional-Socialista (NSDAP) em Nuremberga, enquanto 'Os Mestres Cantores' foi usada nas celebrações da fundação do Terceiro Reich. Devido a isto, Wagner é um compositor boicotado em Israel desde antes da fundação, no tempo do Yishuv, e continua a sê-lo até aos dias de hoje.  

A Cumplicidade com Fanny e a Paixão pelo Ensino

Fanny Mendelssohn, compositora.
Fonte: Heritage Images
No plano pessoal e criativo, a sua grande companheira de vida foi a sua irmã mais velha, a primogénita Fanny Mendelssohn. Dotada de um talento musical ao mesmo nível do seu, Fanny encontrou nas convenções sociais do século XIX um obstáculo à sua afirmação pública. Felix atuou como o seu grande interlocutor e cúmplice, chegando a publicar várias composições dela sob o seu próprio nome para que pudessem ser ouvidas. A ligação entre ambos era visceral; a morte repentina de Fanny em 1847 destruiu a resistência de Felix, que viria a falecer escassos seis meses depois.

Ao contrário da caricatura do artista romântico alienado, Mendelssohn exerceu uma ação institucional e pedagógica vigorosa. Foi um dos primeiros regentes a utilizar a batuta nos moldes modernos e fundou, em 1843, o Conservatório de Leipzig, dedicando-se incansavelmente ao ensino e à preparação das novas gerações de músicos.

O Legado Imortal e a Vitória da Memória

Do seu vasto catálogo, destacam-se obras que moldaram definitivamente a história da música ocidental, mesmo na Alemanha, Mendelssohn foi resgatado e a beleza da sua música cativante e profunda é apreciada de forma apaixonada pelos que a ouvem, como as seguintes:

  • Marcha Nupcial: Integrada na música de cena para Sonho de uma Noite de Verão, tornou-se o tema matrimonial mais célebre do mundo.

  • Quarta Sinfonia em Lá Maior, Op. 90 ("Italiana"): Uma obra radiante, marcada pelo ritmo, cor e vivacidade das suas viagens pelo sul da Europa.

  • Quinta Sinfonia em Ré Menor, Op. 107 ("Reforma"): Onde incorporou o coral luterano Ein feste Burg ist unser Gott, evidenciando a sua profunda dimensão espiritual.

Um Padrão Histórico: Outras Vozes Mutiladas pelo Preconceito

Mendelssohn não foi um caso isolado. A história da música ocidental dos séculos XIX e XX é repleta de compositores de ascendência judaica cuja trajetória reflete as tensões da assimilação, da conversão forçada pela conveniência social ou do exílio:

  • Giacomo Meyerbeer (1791–1864):  Mestre da Grand Opéra, alvo constante dos ataques antissemitas de Wagner.

  • Jacques Offenbach (1819–1880): Criador da opereta francesa, cuja origem judaico-germânica o colocou no centro de tensões culturais.

  • Isaac Strauss (1806–1888): Compositor, foi bisavô do célebre antropólogo e filósofo judeu-francês Claude Levi Strauss. Isaac Strauss apesar do apelido e da profissão, não tem ligação à família austríaca de violinistas, por essa razão, passou a ser designado 'o Strauss de Paris'. Foi violinista, compositor e regente da Opera de Paris e da Orquestra Imperial no tempo de Napoleão III, manteve-se judeu praticante por toda a vida e colecionou instrumentos musicais litúrgicos do judaísmo presentes no Musée d'Art et d'Histoire du Judaïsme (MAHJ) em Paris.

  • Gustav Mahler (1860–1911): Converteu-se ao catolicismo em 1897 para poder assumir a direção da Ópera de Viena, afirmando a célebre frase: "Sou triplamente apátrida: um boémio entre os austríacos, um austríaco entre os alemães e um judeu em todo o mundo".

  • Arnold Schoenberg (1874–1951): Converteu-se ao luteranismo na juventude, mas reconverteu-se ao judaísmo em 1933 ao ser expulso da Alemanha nazi, onde a sua música foi classificada como "arte degenerada" (Entartete Musik).

  • Leonard Bernstein (1918–1990): Figura central da música americana do século XX, que usou a sua projeção para abordar temas de identidade e fé num mundo pós-Holocausto.

A lista acima de alguns dos grandes compositores judeus, demonstra que, para o antissemitismo, a conversão é irrelevante frente à matriz biológica e cultural.

Perante as tentativas históricas de apagamento, impõe-se a pergunta: é possível anular a verdadeira grandeza artística através do ódio ideológico? A resposta é evidente. A estátua de Felix Mendelssohn voltou a ser erigida em Leipzig e o reconhecimento universal da sua obra demonstram que a verdade e a dignidade do legado de Mendelssohn prevalecem sobre qualquer tentativa de destruição. E deixa aqui uma lição, o ódio aos judeus: não é baseado em questões territoriais de hoje, é antigo e transversal a todos os níveis do saber e da vida social, Felix Mendelssohn é um exemplo do contínuo renascimento contra o ódio que teima em prevalecer, mas é derrotado pela luz da verdade e o brilho da genialidade.


English Version

Felix Mendelssohn: Genius Between Faith, Affection, and Antisemitic Persecution

By Filipe de Freitas Leal

In the light of reason and history, religious conversion has never served as a shield against racial and anti-semitic prejudice. The case of Felix Mendelssohn is unequivocal proof that, for the machinery of anti-Semitism, professed faith or the magnitude of cultural contribution are irrelevant: the core target is, and always has been, blood lineage. The history of music also reveals the path of humanity itself — not only regarding the art and culture of peoples, but because music is frequently instrumentalised as a symbolic expression of faith by religions, of power by the State, and of politics by ideologies.

Jewish Blood and the Myth of Conversion

Born in 1809 into a prominent Jewish family under the name Jakob Ludwig Felix Mendelssohn, the composer was the second child of the banker Abraham Mendelssohn and Lea Salomon, and the grandson of the celebrated German-Jewish philosopher Moses Mendelssohn — mentor and founder of the Haskalah (the Jewish Enlightenment). In 1816, after Moses’s death, his father chose to convert the family to Lutheranism, adopting the surname Bartholdy. The intention was pragmatic: faced with the decline and failure of the Haskalah project, Abraham sought assimilation as a way to protect his family from a German environment that was structurally hostile to Jews.

Young Felix grew up in an environment of extraordinary intellectual depth. He was educated at home by private tutors, as was customary at the time. He was well-versed in history, philosophy, art, and literature, as well as being a skilled painter of high-quality oil canvases and fluent in six languages: Latin, Ancient Greek, German, French, English, and Italian. He was passionately dedicated to letter-writing, which was preserved and published after his death by his younger siblings. From an early age, Felix displayed an innate musical prodigy: at six, he was already playing the piano, and by nine, he was composing his first works. He was an exhausted perfectionist and, in adult life, harboured an immense passion for teaching.

Felix Mendelssohn lived his Protestantism with sincere depth, yet without erasing his ancestral memory. It was he who rescued J.S. Bach’s St Matthew Passion from oblivion and conducted it once more — and in doing so, he synthesised the absurdity of the situation with bitter clarity: "To think that it took a Jew’s son to restore the greatest Christian music to the world!"

However, assimilation proved to be an illusion. His genius and his Jewish descent aroused the resentment of contemporaries and intellectuals alike. The most glaring example was that of the composer Richard Wagner. One must ask: how could a genius of Wagner’s stature, endowed with such extraordinary intelligence and musical sensibility, develop such a fierce hatred grounded in supremacist and anti-Semitic dogmas? This supremacist nature of Wagner was expressed in his infamous pamphlet Jewishness in Music (Das Judenthum in der Musik, 1850), in which he launched a fierce attack on Mendelssohn after his death, labelling his formal elegance as 'superficial' solely because of his blood.

What began in the pens of intellectuals found its natural conclusion in the barbarity of the Third Reich: the Nazi regime banned his music and destroyed his statue in Leipzig in 1936, in a deliberate attempt to erase his name from the German collective memory. At the same time, Wagner became the official composer of the Hitlerite regime, which used his most symbolic works — notably the powerful Rienzi Overture, played to open official National Socialist (NSDAP) rallies in Nuremberg, whilst Die Meistersinger was used in celebrations marking the foundation of the Third Reich. Because of this, Wagner has been boycotted in Israel since before its statehood, during the Yishuv era, and continues to be to this day.

The Complicity with his sister Fanny and the Passion for Teaching

Statue of Mendelssohn
re-erected in Leipzig.
Source: claudiodivizia.

On a personal and creative level, his great life companion was his elder sister, the first-born Fanny Mendelssohn. Endowed with a musical talent equal to his own, Fanny found 19th-century social conventions to be an obstacle to her public recognition. Felix acted as her great interlocutor and accomplice, going so far as to publish several of her compositions under his own name so that they could be heard. The bond between them was visceral; Fanny’s sudden death in 1847 shattered Felix’s resilience, and he passed away a mere six months later.

Far from the caricature of the alienated Romantic artist, Mendelssohn exercised a vigorous institutional and pedagogical influence. He was one of the first conductors to use the baton in the modern fashion and founded the Leipzig Conservatory in 1843, devoting himself tirelessly to teaching and preparing new generations of musicians.

The Immortal Legacy and the Victory of Memory

From his vast catalogue, several works stand out definitely shaped the history of Western music. Even in Germany, Mendelssohn has been reclaimed, and the beauty of his captivating and profound music is passionately cherished by those who listen to it, such as:

  • Wedding March: Part of the incidental music for A Midsummer Night's Dream, it became the most famous matrimonial theme in the world.

  • Symphony No. 4 in A Major, Op. 90 ("Italian"): A radiant work, marked by the rhythm, colour, and vitality of his travels through Southern Europe.

  • Symphony No. 5 in D Minor, Op. 107 ("Reformation"): In which he incorporated the Lutheran chorale Ein feste Burg ist unser Gott, evidencing his profound spiritual dimension.

A Historical Pattern: Other Voices Mutilated by Prejudice

Mendelssohn was not an isolated case. The history of Western music in the 19th and 20th centuries is filled with composers of Jewish descent whose trajectories reflect the tensions of assimilation, forced conversion for social convenience, or exile:

  • Giacomo Meyerbeer (1791–1864): Master of Grand Opéra, a constant target of Wagner's anti-Semitic attacks.

  • Jacques Offenbach (1819–1880): Creator of French operetta, whose Jewish-German origin placed him at the centre of cultural tensions.

  • Isaac Strauss (1806–1888): Composer and great-grandfather of the celebrated French-Jewish anthropologist and philosopher Claude Lévi-Strauss. Isaac Strauss, despite his surname and profession, had no connection to the Austrian family of waltz violinists. For this reason, he became known as 'the Strauss of Paris'. He was a violinist, composer, and conductor at the Paris Opéra and the Imperial Orchestra during the reign of Napoleon III. He remained a practising Jew throughout his life and collected Jewish liturgical musical instruments, now preserved at the Musée d'Art et d'Histoire du Judaïsme (MAHJ) in Paris.

  • Gustav Mahler (1860–1911): Converted to Catholicism in 1897 in order to secure the directorship of the Vienna State Opera, uttering his famous line: "I am thrice stateless: a Bohemian among Austrians, an Austrian among Germans, and a Jew throughout the world."

  • Arnold Schoenberg (1874–1951): Converted to Lutheranism in his youth, but reconverted to Judaism in 1933 upon being expelled from Nazi Germany, where his music was branded as "degenerate art" (Entartete Musik).

  • Leonard Bernstein (1918–1990): A central figure of 20th-century American music, who used his prominence to address themes of identity and faith in a post-Holocaust world.

In the face of historical attempts at erasure, the question inevitably arises: is it possible to extinguish true artistic greatness through ideological hatred? The answer is clear. The re-erection of his statue in Leipzig and the universal recognition of his oeuvre demonstrate that the truth and dignity of Mendelssohn’s legacy triumph over any attempt at destruction. And it offers a lasting lesson: hatred towards Jews is not rooted in contemporary territorial disputes; it is ancient and pervasive across all levels of knowledge and social life. Felix Mendelssohn stands as an example of continuous rebirth against a hatred that persists in prevailing, yet is ultimately defeated by the light of truth and the brilliance of genius.

Sugestão bibliografica / Suggested references

1. Biografia e Contexto Histórico / Biography and Historical Context

  • Todd, R. Larry. Mendelssohn: A Life in Music. Oxford: Oxford University Press, 2003. (A biografia definitiva e mais abrangente sobre o compositor, detalhando a dinâmica familiar com Fanny e a fundação do Conservatório de Leipzig).

  • Tillard, Françoise. Fanny Mendelssohn. Portland: Amadeus Press, 1996. (Obra de referência para compreender o papel, o talento e a relação de colaboração entre Fanny e Felix).

2. Haskaláh e Antissemitismo / Haskalah and Antissemitism

  • Sorkin, David. The Transformation of German Jewry, 1780–1840. Detroit: Wayne State University Press, 1999. (Estudo fundamental sobre a integração dos judeus alemães, a Haskaláh iniciada por Moses Mendelssohn e as ambiguidades do processo de conversão).

  • Botstein, Leon. "Neoclassicism, Socialism, and Antisemitism: Mendelssohn and the Nineteenth Century." In Felix Mendelssohn and His World, editado por R. Larry Todd, 7–85. Princeton: Princeton University Press, 1991. (Artigo essencial sobre como o antissemitismo do século XIX distorceu a perceção crítica da obra de Mendelssohn).

3. A Relação com Wagner / The Relationship with Wagner

  • Applegate, Celia. Bach in Berlin: Nation and Culture in Corybantic Times. Ithaca: Cornell University Press, 2005. (Analisa o impacto histórico da reexecução da "Paixão Segundo São Mateus" por Mendelssohn em 1829 e o seu significado cultural).

  • Wagner, Richard. Judaism in Music (Das Judenthum in der Musik). Traduzido por W. Ashton Ellis. Lincoln: University of Nebraska Press, 1995. (O panfleto de 1850 onde Wagner expõe o seu ataque ideológico a Mendelssohn e à presença judaica na música).

4. O Terceiro Reiche e a Erradicação / The Third Reich and Eradication

  • Levi, Erik. Music in the Third Reich. London: Palgrave Macmillan, 1994. (Exame detalhado da política cultural do III Reich, a proibição de compositores de origem judaica e a destruição do monumento a Mendelssohn em Leipzig).

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Dos hebreus aos judeus — A origem ancestral do antissemitismo ( 1°Capituloo)




A mais longa hostilidade da história humana

Uma das questões que mais me perseguiu durante muito tempo foi entender onde, quando, como e porquê surgiu o ódio aos judeus. A maioria das pessoas, influenciada pelos meios de comunicação e por publicações rápidas e descontextualizadas, foca-se no conflito israelo-árabe iniciado em 1948, que hoje opõe israelitas e palestinianos numa disputa aparentemente territorial. No entanto, antes disso, o Holocausto (1933-1945) já fora revelador de um ódio visceral e de um maquiavélico plano de extermínio de um povo, da sua cultura, das suas tradições e, sobretudo, da sua religião — o judaísmo, o berço das religiões abraâmicas. Se recuarmos ainda mais, encontramos tantos outros capítulos de perseguições, expulsões, torturas da Inquisição, guetos de exclusão e pogroms mortíferos. Mas porquê?

O Povo que Veio do Outro Lado

A resposta mais provável a esta questão milenar remonta, na verdade, ao nascimento do próprio clã de Abraão — em hebraico diz-se Avraham (אברהם), que significa "pai de multidões" —, cujos membros foram denominados hebreus. A palavra hebreu provém do hebraico Avar (עָבַר), que significa "atravessar" ou "passar para o outro lado", dando origem ao termo Ivri (עִבְרִי), que sifnifica hebreu.

Há a probabilidade de que fossem identificados como o povo "Habiru" (ou Apiru), mencionado em tábuas dos egípcios, hititas, mesopotâmicos e da própria região de Canaã. O significado desta palavra remete para "o outro" — no sentido daquele que vem de fora, que é diferente ou que não pertence ao grupo nativo. Este conceito parece inócuo, mas carrega uma mensagem subliminar de separação: tal indivíduo ou comunidade não é "dos nossos". Isso, por si só, traduzia a ideia de que os hebreus não vinham apenas de outro lugar, mas eram intrinsecamente diferentes. Mas em quê?

Um Monoteísmo Radical e Político

O historiador Robert Wistrich (1945-2015) traz luz a estas questões sobre a origem ancestral do antissemitismo, situando o seu início ainda na Idade do Bronze. O autor afirma, inclusive, tratar-se da “hostilidade mais longa da história”, manifestando-se muito antes dos Impérios Grego e Romano e do Cristianismo. Para Wistrich, os filisteus, edomitas, sírios, babilónios, egípcios e outros povos helénicos já odiavam os judeus, mas não por questões raciais.

O ódio nascia de um choque civilizacional fundamentado não apenas na diferença religiosa, mas especificamente na forma de culto. Enquanto as outras civilizations adoravam deuses antropomórficos de pedra e madeira, os hebreus prestavam culto ao Deus Criador que, sendo invisível, não podia — nem devia — ser representado em imagens esculpidas ou pintadas. Mais do que isso: ao contrário dos outros povos, que divinizavam os seus reis e imperadores, os hebreus faziam do Deus único o seu único governante, no chamado Período dos Juízes (Wistrich, 1991). O Reino de Israel passou, por isso, um longo período sem a figure de um rei terreno.

Esta recusa em divinizar líderes políticos e em vergar a espinha perante os panteões dos impérios dominantes transformou os hebreus num enigma perigoso para o mundo antigo. Para um faraó egípcio ou, mais tarde, para um imperador helénico, a religião era o cimento que unia o Estado. Adorar os deuses locais era uma demonstração de lealdade civil. Assim, o monoteísmo radical dos hebreus não era visto apenas como uma excentricidade teológica, mas sim como uma insubordinação política — uma espécie de "ateísmo" aos olhos dos pagãos, já que recusavam os deuses visíveis em prol de uma Divindade invisível.

A Barreira do Quotidiano e o Rótulo de Misantropia

A tese de Wistrich aponta que esta recusa dos judeus em fundirem-se com as demais culturas foi o principal catalisador desse ódio. Aos olhos dos povos vizinhos — que eram politeístas e praticavam o sincretismo cultural e religioso —, o isolamento judaico era interpretado como arrogância (Wistrich, 1991). Por zelo, fidelidade e estrita observância às regras da Torá e da tradição, o sincretismo era rejeitado e os casamentos mistos, proibidos. Esta conduta baseava-se no conceito de Am Segulá (עַם סְגֻלָּה), que significa "povo tesouro" ou "povo escolhido" (importando ressalvar que, para o judaísmo, "escolhido" não evoca superioridade, mas sim uma responsabilidade perante uma missão divina).

Além da esfera política, esta diferenciação manifestava-se de forma vincada no quotidiano, erguendo barreiras sociais complexas. Para evitar a idolatria, os judeus viviam apartados: não consumiam alimentos ou bebidas dos pagãos, temendo que tivessem sido oferecidos a divindades estrangeiras. A postura teológica do judaísmo era inflexível: eles não se limitavam a afirmar que o Deus de Israel era superior; declaravam categoricamente que as divindades vizinhas eram falsas, meras pedras sem vida (Wistrich, 1991). No dia a dia, as leis de pureza ritual, a circuncisão e a guarda estrita do Shabat (שבת) — um dia inteiro de descanso laboral que os gregos e romanos mais tarde ridicularizariam como pura preguiça — criavam um isolamento voluntário.

Esta rejeição total era sentida pelo mundo exterior como uma ofensa intolerável. Para as maiorias pagãs, esta insistência em permanecer rigidamente "separado" não era interpretada como piedade, mas sim como soberba ou um profundo desprezo pelo resto da humanidade. Assim, o que começou como incompreensão e estranheza rapidamente se transformou em repulsa, estabelecendo as bases de um preconceito milenar que rotulou os judeus de "misantropos" — acusados de nutrirem um suposto ódio pela humanidade —, alimentando a engrenagem de hostilidade que perdura até aos dias de hoje (Wistrich, 1991).

O Choque Literário em Alexandria e as Primeiras Calúnias

Há, inclusivamente, o registo de um exemplo literário fundamental em Contra Ápio (Volumes I e II), da autoria de Flávio Josefo, que descreve de forma clara a existência deste sentimento antijudaico já na Antiguidade Clássica. Mais precisamente entre os séculos III e II a.C., na cidade de Alexandria — onde residia uma grande comunidade de imigrantes judeus —, surgiu uma forte reação egípcia à Bíblia dos Setenta, a Septuaginta (Josefo, 93 d.C./1992), traduzida para o grego por setenta sábios e escribas. Ao lerem essa versão grega, os egípcios tomaram conhecimento do relato do Êxodo, onde eram identificados como opressores cujo Faraó e povo sofreram as dez pragas como castigo do Deus dos hebreus.

Em resposta, autores de matriz egípcia e helenística, como Ápio e Manetom, escreveram uma versão própria e distorcida do Êxodo. Embora essa literatura original tenha desaparecido, conhecemos o seu teor por intermédio de Flávio Josefo, que a refutou vigorosamente. Josefo relata que a narrativa egípcia procurava humilhar os judeus, alegando que os hebreus, em vez de libertos por milagre, teriam sido expulsos do Egito por serem leprosos, doentes e preguiçosos. O relato difamatório afirmava ainda que o Deus dos hebreus tinha a forma de uma cabeça de asno e que estes sacrificavam e comiam um grego a cada ano na Páscoa judaica — uma calúnia primitiva que serviu, séculos mais tarde, de base para as terríveis acusações de Libelo de Sangue durante a Idade Média.

O Inconformismo que Atravessou Milénios

Todos estes fatores combinados moldaram o judaísmo no inconsciente coletivo dos povos vizinhos da terra de Canaã — desde os amalequitas aos filisteus, passando pelos edomitas — como o berço de um proto-humanismo disruptivo. Numa época em que os povos eram subjugados por tiranias divinizadas, um Deus invisível cujas leis codificadas na Torá exigiam a justiça social, o descanso ao sábado, o respeito pela vida e a proibição de imoralidades era algo subversivo.

Em total oposição à alteridade, desenvolveu-se um sentimento de hostilidade baseado unicamente na diferença e, acima de tudo, na resiliência de um povo que não se deixava assimilar. Enquanto qualquer outro estrangeiro imigrado no Império Romano — fosse ele grego, gaulês ou egípcio — acabava por se diluir na cultura dominante, geralmente logo na segunda geração, os judeus permaneciam fiéis à sua identidade. O judeu isolado, o eterno "estranho", o eterno "outro", deu origem a um antissemitismo estrutural que, longe de ter nascido de uma hora para a outra, remonta à própria Idade do Bronze, por volta de 1700 a.C. (Wistrich, 1991).

É precisamente neste nó górdio que reside a raiz ancestral deste fenómeno: a intolerância da maioria perante uma minoria que se recusava obstinadamente a deixar de existir enquanto povo.

Assim se acendeu um pavio que atravessaria milénios sem nunca se apagar. Os deuses de pedra e madeira dos vizinhos de Canaã caíram no esquecimento, mas o preconceito contra o Deus invisível e o povo que O guardava ganhou vida própria. O antissemitismo nascia ali, na Idade do Bronze: não como uma resposta a algo que os judeus tivessem feito, mas sim ao que eles decidiram ser — inconformistas num mundo de moldes pré-fabricados. Uma fogueira milenar que, em breve, receberia um novo combustível que mudaria o rumo da humanidade: o nascimento do Cristianismo e o choque no seio do Império Romano.

De civilização em civilização, de era em era, as potências caíam umas sobre as outras como peças de dominó, cada uma moldando novas formas de preconceito, mas alimentando sempre o mesmo ódio. Apesar disso, os judeus salvaram a Torá, que é a sua razão de ser, e a Torá salvou os judeus — o "Povo do Livro", tal como ainda hoje são denominados pelas outras duas religiões abraâmicas.

Nos capítulos seguintes, esse legado encontrará novas expressões, particularmente com o surgimento do cristianismo e a sua relação ambivalente com o judaísmo no seio do Império Romano. 

_____________

English Version

From Hebrews to Jews — The Ancestral Origin of Antisemitism

by Filipe de Freitas Leal

One of the questions that haunted me for the longest time was understanding where, when, how, and why the hatred towards Jews first emerged. Most people, influenced by the media and quick, decontextualized publications, tend to focus on the Israeli-Arab conflict that began in 1948, which is framed today as an apparently territorial dispute between Israelis and Palestinians. However, long before that, the Holocaust (1933–1945) had already revealed a visceral hatred and a machiavellian plan to exterminate a people, their culture, their traditions, and, above all, their religion—Judaism, the cradle of the Abrahamic faiths. If we journey even further back, we encounter endless other chapters of persecution, expulsions, inquisitorial torture, ghettos of exclusion, and deadly pogroms. But why?

The most likely answer to this ancient question actually traces back to the birth of
Abraham’s clan—in Hebrew called Avraham (אברהם), which means "father of multitudes"—whose members were designated as Hebrews. The word Hebrew comes from the Hebrew Avar (עָבַר), meaning "to cross over" or "to pass to the other side," giving rise to the term Ivri (עִבְרִי). There is a probability that they were identified as the "Habiru" (or Apiru) people, mentioned in tablets by the Egyptians, Hittites, Mesopotamians, and within the region of Canaan itself. The meaning of this word points to "the other"—in the sense of someone who comes from the outside, who is different, or who does not belong to the native group. This concept might seem harmless, but it carries a subliminal message of separation: that individual or community is not "one of us." This, in itself, conveyed the idea that the Hebrews did not just come from somewhere else, but were intrinsically different. But in what way?

The historian Robert Wistrich (1945–2015) brings light to these questions about the ancestral origin of antisemitism, placing its beginning back in the Bronze Age. The author even states that it is the longest hostility in history, manifesting itself long before the Greek and Roman Empires and Christianity. For Wistrich, the Philistines, Edomites, Syrians, Babylonians, Egyptians, and other Hellenic peoples already hated the Jews, but not for racial reasons. The hatred stems from a civilizational clash that was based not only on religious difference, but specifically on the form of worship. While other civilizations worshipped anthropomorphic gods of stone and wood, the Hebrews worshipped the Creator God who, being invisible, could not—and should not—be represented in sculpted or painted images. More than that: unlike other peoples, who divinized their kings and emperors, the Hebrews made the one God their sole ruler during what is called the Period of the Judges (Wistrich, 1991). The Kingdom of Israel therefore spent a long period without the figure of an earthly king.

This refusal to divinize political leaders and to bow before the pantheons of ruling empires turned the Hebrews into a dangerous enigma to the ancient world. For an Egyptian Pharaoh or, later, a Hellenic emperor, religion was the cement that held the State together. Worshipping local gods was a demonstration of civic loyalty. Thus, the radical monotheism of the Hebrews was not seen merely as a theological eccentricity, but as political insubordination—a kind of "atheism" in the eyes of pagans, since they rejected visible gods in favor of an invisible Divinity.

Wistrich’s thesis points out that this refusal of the Jews to blend in with other cultures was the primary catalyst for this hatred. In the eyes of neighboring peoples—who were polytheistic and practiced cultural and religious syncretism—Jewish isolation was interpreted as arrogance (Wistrich, 1991). Out of zeal, faithfulness, and strict adherence to the rules of the Torah and tradition, syncretism was rejected and intermarriage was forbidden. This conduct was rooted in the concept of Am Segula (עַם סְגֻלָּה), which means "treasure people" or "chosen people" (though it is vital to clarify that, in Judaism, "chosen" does not imply superiority, but rather a responsibility toward a divine mission).

Beyond the political sphere, this differentiation manifested clearly in daily life, raising complex social barriers. To avoid idolatry, Jews lived apart: they did not consume food or drinks from pagans, fearing they might have been offered to foreign deities. The theological stance of Judaism was inflexible: they did not merely claim that the God of Israel was superior; they categorically declared that neighboring deities were false, mere lifeless stones (Wistrich, 1991). Day to day, laws of ritual purity, circumcision, and the strict observance of Shabbat (שבת)—a whole day of rest from labor that Greeks and Romans would later ridicule as pure laziness—created a voluntary isolation.

This total rejection was felt by the outside world as an intolerable offense. To the pagan majorities, this insistence on remaining rigidly "separate" was not interpreted as piety, but as hubris or a deep contempt for the rest of humanity. Thus, what began as misunderstanding and strangeness quickly mutated into repulsion, laying the groundwork for a millenary prejudice that labeled Jews as "misanthropes"—accused of harboring a supposed hatred for mankind—fueling the machinery of hostility that endures to this day (Wistrich, 1991).

There is, in fact, a fundamental literary record in Against Apion (Volumes I and II), written by Flavius Josephus, which clearly describes the existence of this anti-Jewish sentiment back in Classical Antiquity. More precisely between the 3rd and 2nd centuries BCE, in the city of Alexandria—where a large community of Jewish immigrants lived—a strong Egyptian backlash arose against the Translation of the Seventy, the Septuagint (Josephus, 93 CE/1992), translated into Greek by seventy scholars and scribes. Upon reading this Greek version, the Egyptians learned of the Exodus narrative, where they were identified as oppressors whose Pharaoh and people suffered the ten plagues as a punishment from the God of the Hebrews.

In response, authors of Egyptian and Hellenistic background, such as Apion and Manetho, wrote their own distorted version of the Exodus. Although this original literature has vanished, we know its content through Flavius Josephus, who vigorously refuted it. Josephus reports that the Egyptian narrative sought to humiliate the Jews, claiming that the Hebrews, instead of being freed by a miracle, had been expelled from Egypt because they were lepers, diseased, and lazy. The defamatory account even claimed that the God of the Hebrews had the shape of an ass's head and that they sacrificed and consumed a Greek person every year during the Jewish Passover—a primitive slander that served, centuries later, as the blueprint for the terrifying Blood Libel accusations during the Middle Ages.

All these factors combined shaped Judaism in the collective subconscious of the peoples neighboring the land of Canaan—from the Amalekites to the Philistines, passing through the Edomites—as the birthplace of a disruptive proto-humanism. At a time when peoples were subjugated by divinized tyrannies, an invisible God whose laws codified in the Torah demanded social justice, rest on the Sabbath, respect for life, and the prohibition of immoralities was highly subversive.

In total opposition to alterity, a feeling of hostility developed, based solely on difference and, above all, on the resilience of a people who refused to be assimilated. While any other foreigner who immigrated into the Roman Empire—be they Greek, Gaul, or Egyptian—ended up diluting into the dominant culture, usually by the second generation, the Jews remained faithful to their identity. The isolated Jew, the eternal "stranger," the eternal "other," gave rise to a structural antisemitism that, far from being born overnight, traces back to the Bronze Age itself, around 1700 BCE (Wistrich, 1991).

It is precisely in this Gordian knot that the ancestral root of this phenomenon lies: the intolerance of the majority toward a minority that obstinately refused to cease to exist as a people.

Thus, a fuse was lit that would cross millennia without ever burning out. The gods of stone and wood of Canaan’s neighbors fell into oblivion, but the prejudice against the invisible God and the people who guarded Him took on a life of its own. Antisemitism was born right there, in the Bronze Age: not as a reaction to anything the Jews had done, but to what they chose to be—nonconformists in a world of pre-fabricated molds. A millenary fire that would soon receive a new fuel, changing the course of humanity: the birth of Christianity and the clash within the heart of the Roman Empire.

            From civilization to civilization, from era to era, empires collapsed upon one another like falling dominoes, each shaping new forms of prejudice, yet always feeding the exact same hatred. Despite this, the Jews saved the Torah, which is their reason for being, and the Torah saved the Jews—the "People of the Book," just as they are still called today by the other two Abrahamic religions.

In the chapters that follow, this legacy will find new expressions, especially with the rise of Christianity and its ambivalent relationship with Judaism within the Roman Empire.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Porque a Academia e os Intelectuais de Esquerda odeiam Israel?


A esquerda global, de aliada histórica de Israel no inicio da criação do Estado de Israel, passou a ser a arquinimiga de Israel hoje, sobretudo os partidos esquerdistas mais radicais e os teóricos e intelectuais de Esquerda na Academia. Pelo que se vê um aumento de adesão dos jovens universitários a terem discursos de ódio antissionista (na prática é o mesmo que antissemita), e de apoio aos movimentos terroristas. Mas porquê?

O primeiro país a reconhecer o Esta
do de Israel, foi a URSS, até porque muitos dos fundadores do Estado de Israel eram nascidos no Leste europeu, inclusive em território da extinta URSS, inclusive os kibutz foram baseados nos kolcozes soviéticos. Nessa época toda a Esquerda mundial apoiava Israel,  A URSS pensou que Israel fosse ser um posto avançado pró-soviético no Médio Oriente, mas enganou-se, Israel revelou ser a mais plena democracia em toda aquela região. O que levou Israel a aproximar-se da Europa, dos EUA e a que os soviéticos retirassem o seu apoio.

A viragem deu-se em 1967 na Guerra dos Seis Dias em que Israel recuperou Jerusalém, a esquerda passou a ver Israel não mais como um Estado que lutava por sobrevivência, mas por um país que ocupava território, não tendo em conta o projeto árabe de destruição total de Israel a que chamam os mais radicais de Entidade Sionista.

Fatores Geopolíticos e Ideológicos

Há aspectos na atual narrativa da Esquerda que se colocam como anti-Israel, na medida em que veem em Israel a continuação da Guerra-Fria, como um Posto avançado dos EUA, e assim passa a ser na ótica radical equerdista o opressor, esquecendo de que em Israel há uma democracia plena a funcionar com partidos políticos árabes-palestinos no Knesset (Parlamento Israelita), que há 1,5 milhão e meio de habitantes em Israel com plenos direitos de cidadania, em que as mulheres estão em pé de igualdade com os homens em todos os setores da sociedade, em que a imprensa é livre, e até que Israel abriga e dá asilo politico a palestinianos e outros árabes da comunidade LGBT que correm risco de vida nos seus países. Então a incapacidade da Esquerda ver este aspecto de Israel é simplesmente porque não quer ver, nem divulgar e finge que Israel é exatamente o oposto.

O facto é que a interseccionalidade esquerdista associada às questões identitárias o Movimentos sociais modernos (LGBT, negros, feministas) frequentemente adotam a causa palestina como parte de uma luta global contra sistemas de "supremacia", e ignoram as liberdades democráticas que Israel garante em comparação aos países vizinhos.

A Red-Green Alliance - A Aliança da Esquerda com o Islão


Esta questão está patente nos debates contemporâneos sobre a "Red-Green Alliance" (Aliança Vermelho-Verde), que descreve a colaboração tática entre setores da esquerda secular e radical com os movimentos islâmicos teocráticos, Hamas, Hezbollah, grupos de Esquerda esses que minimizam os ataques do 07/10 tendo inclusive os mais fanáticos esquerdista festejado o massacre de 2023 como uma vitória contra o colonialismo e o imperialismo. Os argumentos que sustentam essa percepção de "cegueira" ou "arrogância intelectual" na academia costumam focar em quatro pilares:

  • Prioridade do Anticolonialismo sobre os Direitos Individuais: Para muitos teóricos pós-coloniais, a luta contra o que definem como "imperialismo ocidental" ou "colonialismo de assentamento" é a prioridade absoluta. Nessa hierarquia, as violações de direitos humanos em regimes como o do Irã ou as agendas sociais regressivas de grupos como o Hamas são frequentemente minimizadas ou tratadas como "resistência legítima".
  • O Legado de Michel Foucault e o Irã: Um exemplo histórico clássico e aberrante é o apoio de Michel Foucault à Revolução Iraniana de 1979. Ele via no levante islâmico uma "espiritualidade política" capaz de desafiar a racionalidade liberal do Ocidente, ignorando os avisos de feministas e esquerdistas iranianos sobre a natureza opressiva que o novo regime assumiria.
  • Universalismo Seletivo: Críticos apontam que a academia ocidental goza da liberdade de expressão e proteção legal para defender regimes que, na prática, perseguem intelectuais, minorias e dissidentes. Isso é visto por alguns como uma forma de Eurocentrismo, onde o intelectual projeta seus desejos revolucionários em povos distantes, sem arcar com as consequências de viver sob essas ditaduras.
  • Reducionismo Ideológico: Ao unir socialistas, comunistas e teocracias sob a bandeira da "causa anticolonial", a academia corre o risco de ignorar as contradições fundamentais entre essas ideologias. O resultado é uma análise que prioriza a geopolítica (quem é o inimigo comum) em detrimento da realidade vivida pelas populações locais sob esses regimes.

Como essa "união de conveniência" é frequentemente criticada por intelectuais moderados, sociais democratas, liberais e conservadores, que vêm como uma traição aos valores universais do Iluminismo — como a razão e a liberdade individual — em favor de uma narrativa maniqueísta de poder, forçam ainda mais a dicotomia de Esquerda Vs Direita face ao conflito Israelo-palestiniano.



_________________

English Version

From Ally to Adversary: The Global Left and the State of Israel

By Filipe de Freitas Leal

The global Left has transitioned from being a historical ally of Israel during the state's inception to becoming its arch-enemy today, particularly among radical leftist parties and academics. This has led to increased adherence among university students to anti-Zionist hate speech—which, in practice, often mirrors antisemitism—and support for terrorist movements. But why?

Historical Context and the Soviet Pivot

The first country to recognise the State of Israel was the USSR, largely because many of Israel’s founders were born in Eastern Europe or Soviet territory. Indeed, the kibbutzim were inspired by Soviet kolkhozes. At that time, the global Left supported Israel; the USSR hoped Israel would become a pro-Soviet outpost in the Middle East. However, they were mistaken. Israel emerged as a full-fledged democracy, leading it to align with Europe and the USA, which prompted the Soviets to withdraw their support.

The turning point occurred in 1967 during the Six-Day War. After Israel reclaimed Jerusalem, the Left ceased to view Israel as a state fighting for survival and began to see it as an occupying power. This perspective often disregards the Arab project for the total destruction of Israel—referred to by radicals as the "Zionist Entity."

Geopolitical and Ideological Factors

Current leftist narratives are anti-Israel insofar as they view the nation as a continuation of the Cold War—a US outpost. In the radical leftist lens, Israel is cast as the "oppressor," ignoring the reality of a functioning democracy with Arab-Palestinian parties in the Knesset (Israeli Parliament). They overlook the 1.5 million Arab citizens with full rights, the equality of women across all sectors, the free press, and the fact that Israel provides political asylum to LGBTQ+ Palestinians and Arabs whose lives are at risk in their home countries. The Left's inability to acknowledge these aspects suggests a deliberate refusal to disseminate the truth, preferring to portray Israel as the exact opposite.

Left-wing intersectionality and identity politics have led modern social movements (LGBTQ+, Black Power, feminists) to adopt the Palestinian cause as part of a global struggle against systems of "supremacy," while ignoring the democratic freedoms Israel guarantees compared to its neighbours.


The Red-Green Alliance: The Left and Islamism

This issue is central to contemporary debates regarding the "Red-Green Alliance"—a tactical collaboration between the secular radical Left and theocratic Islamic movements such as Hamas and Hezbollah. Certain leftist sectors downplay the attacks of 7 October, with the most fanatical even celebrating the 2023 massacre as a victory against "colonialism and imperialism."

The arguments sustaining this perception of "intellectual blindness" in academia generally focus on four pillars:

1.     Prioritisation of Anti-colonialism over Individual Rights: For many post-colonial theorists, the struggle against "Western imperialism" or "settler colonialism" is the absolute priority. In this hierarchy, human rights violations in regimes like Iran or the regressive social agendas of groups like Hamas are minimised or framed as "legitimate resistance."

2.     The Legacy of Michel Foucault and Iran: A classic and aberrant historical example is Michel Foucault’s support for the 1979 Iranian Revolution. He saw the Islamic uprising as a "political spirituality" capable of challenging Western liberal rationality, ignoring warnings from Iranian feminists and leftists about the oppressive nature the new regime would assume.

3.     Selective Universalism: Critics point out that Western academics enjoy the freedom of speech and legal protections to defend regimes that, in practice, persecute intellectuals, minorities, and dissidents. This is viewed by some as a form of Eurocentrism, where the intellectual projects their revolutionary desires onto distant peoples without bearing the consequences of living under such dictatorships.

4.     Ideological Reductionism: By uniting socialists, communists, and theocracies under the banner of the "anti-colonial cause," academia risks ignoring the fundamental contradictions between these ideologies. The result is an analysis that prioritises geopolitics (the common enemy) over the lived reality of local populations.

Conclusion

This "marriage of convenience" is frequently criticised by moderate intellectuals, social democrats, liberals, and conservatives. They view it as a betrayal of the universal values of the Enlightenment—such as reason and individual liberty—in favour of a Manichaean narrative of power. This further entrenches the Left vs. Right dichotomy regarding the Israeli-Palestinian conflict.

___________

References

Afary, Janet & Anderson, Kevin. Foucault and the Iranian Revolution: Gender and the Seductions of Islamism. 2005. University of Chicago Press

Wistrich, Robert S. A Lethal Obsession: Anti-Semitism from Antiquity to the Global Jihad. 2010. Random House

Finkielkraut, Alain. No Nome do Outro: Reflexões sobre o antissemitismo que vem. 2004. Bertrand Brasil.

Bruckner, Pascal. A Tirania da Penitência: Ensaio sobre o masoquismo ocidental. 2008. Difel. (Original: La Tyrannie de la pénitence, 2006). 


Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


 
Projeto gráfico pela Free WordPress Themes | Tema desenvolvido por 'Lasantha' - 'Premium Blogger Themes' | GreenGeeks Review