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sábado, 4 de junho de 2022

O Judeu Karl Marx e a Sua Triplice Identidade

O Homem Além do Mito: A Tríplice Identidade de Marx
Karl Marx foi um sociólogo e economista do século XIX focado nos aspetos socioeconómicos da organização social. Foi a partir dele que se inaugurou uma análise sócio-histórica profunda da economia, integrando a dialética de Hegel a uma visão materialista do mundo. No entanto, para compreender o homem por trás da teoria, precisamos de olhar para além dos manuais políticos. Há, na verdade, três dimensões que se cruzam em Karl Marx: o pensador, o militante pelos direitos dos trabalhadores e o herdeiro de uma rica linhagem judaica.
A Herança Étnica e os Valores Culturais
Marx era judeu de etnia e sangue, filho e neto de judeus. Embora não fosse um homem crente ou religioso na sua vida adulta — tendo sido batizado no luteranismo na infância por contingências políticas que forçaram o seu pai a converter-se para poder advogar na Prússia —, a sua raiz cultural é inegável. O seu avô paterno, Meier Halevi Marx, foi o Rabino de Trier, e a sua família materna vinha de uma longa linhagem de rabinos.
Mesmo sem praticar a religião, a bagagem moral desse ecossistema familiar influenciou o seu pensamento. A forte tradição do debate intelectual contido no Talmud e a busca incessante por justiça social, dignidade humana e proteção aos oprimidos — valores profundamente enraizados na Torá — ecoam na sua indignação contra a exploração humana. Marx traduziu o clamor ético dos seus antepassados numa linguagem sociológica secular.
O Ateísmo Contextualizado e a Luta Operária
Quando Marx criticava a religião oficial da sua época, o seu foco era a laicidade e a emancipação humana. Ao formular que a religião funciona como o "ópio do povo", ele não fazia um ataque gratuito à fé individual, mas sim uma crítica sociológica de como as instituições religiosas eram usadas pelo poder político para pacificar as classes dominadas, prometendo o paraíso no além para que aceitassem a miséria no presente.
O Marx militante e ativista político — que ajudou a fundar a Primeira Internacional — estava profundamente engajado com a defesa da classe trabalhadora, que na altura sofria em condições subumanas e desprovida de direitos. Se hoje as democracias representativas ocidentais usufruem de direitos laborais e de políticas de Bem-Estar Social, isso deve-se histórico-filosoficamente à pressão gerada pelo pensamento crítico de Marx, mais tarde canalizada e reformada pelos partidos social-democratas ocidentais.
O Erro do Anacronismo
O pensamento de Marx está circunscrito a uma realidade temporal e socioeconómica totalmente diferente da atual. Ele pensou e analisou as dores do capitalismo industrial do Século XIX. O grande problema contemporâneo não é o que ele escreveu, mas sim as distorções ideológicas feitas tanto à esquerda quanto à direita.
Os regimes totalitários do século XX, como os da União Soviética de Lenine e Stálin, da China ou da Coreia do Norte, autoproclamaram-se "marxistas", mas na prática criaram estruturas burocráticas e ditatoriais que violavam o núcleo da filosofia original de Marx, que idealizava a emancipação e a liberdade humana. O antissemitismo e o ateísmo militante que muitas vezes lhe atribuem de forma rasa ignoram a complexidade de um homem que, acima de tudo, buscou compreender as engrenagens do seu tempo para libertar o ser humano da opressão.
Karl Marx nunca "deixou" o judaísmo por vontade própria porque ele nunca o praticou. Ele nasceu em uma família já convertida ao cristianismo protestante por razões políticas e econômicas.
A Conversão da Família Marx
O rompimento formal da família de Marx com a religião judaica aconteceu antes mesmo de seu nascimento, motivado pelo antissemitismo de Estado na Prússia.
  • O Avô Rabino: O avô paterno de Karl, Mordechai HaLevi Marx, foi o rabino de Trier. Seu tio também assumiu o cargo posteriormente.
  • A Conversão do Pai: Heinrich Marx (nascido Herschel Levi), pai de Karl, era um advogado de sucesso. Em 1815, o reino da Prússia aplicou leis que proibiam judeus de exercerem cargos públicos e profissões jurídicas. Para poder continuar trabalhando e sustentar a família, Heinrich converteu-se ao luteranismo por volta de 1817.
  • O Batismo de Karl: Karl Marx nasceu em 1818 e foi batizado na Igreja Luterana em 1824, aos seis anos de idade, junto com seus irmãos.
Marx cresceu em um lar secularizado e de valores iluministas. Na juventude, ele se tornou ateu e manteve uma postura crítica em relação a todas as religiões, considerando-as barreiras para a emancipação humana.  
O Socialismo de Marx e as Semelhanças com o Talmud
A relação entre o pensamento de Marx e a tradição judaica é alvo de intensos debates na filosofia e na sociologia. Embora Marx rejeitasse a religião, muitos historiadores apontam que a estrutura moral e profética do judaísmo moldou indiretamente o socialismo.
Aqui estão os pontos de conexão mais citados entre os ensinamentos judaicos (incluindo o Talmud e a Torá) e as ideias marxistas:
1. A Busca por Justiça Social na Terra
  • No Judaísmo (Tikkun Olam): Diferente de religiões focadas na salvação ultraterrena, o judaísmo clássico prioriza a ação no mundo presente. O conceito de Tikkun Olam ordena a "reparação do mundo" por meio da justiça social e da caridade coletiva.
  • No Marxismo: Marx foca estritamente na emancipação material e terrena. Sua famosa frase resume isso: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o que importa é transformá-lo".
2. A Proteção ao Trabalhador e Crítica à Acumulação
  • No Talmud: Existem extensas leis talmúdicas sobre as relações de trabalho (tratado de Bava Metzia). O Talmud proíbe a retenção do salário do trabalhador, exige condições dignas de descanso e condena o lucro excessivo obtido através da exploração da necessidade alheia.
  • No Marxismo: Toda a base do livro O Capital é uma denúncia contra a extração da mais-valia e a exploração do trabalhador pela classe burguesa.
3. A Visão Messiânica e Linear da História
  • No Judaísmo: A história da humanidade caminha de forma linear em direção a uma Era Messiânica de paz universal, onde a opressão desaparecerá.
  • No Marxismo: A história avança por meio da luta de classes em direção a uma sociedade sem classes (o comunismo), que representa o fim da exploração humana. Muitos filósofos (como Walter Benjamin e Ernst Bloch) definiram o marxismo como uma forma de "messianismo secularizado".
4. A Máxima da Distribuição
  • A frase de Marx: "De cada qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo suas necessidades" (Crítica do Programa de Gotha, 1875).
  • Paralelo Judaico: No Talmud e nos comentários sobre a justiça distributiva (Tzedaká), o princípio de ajudar o próximo baseia-se estritamente na necessidade de quem recebe, e a responsabilidade de dar pesa sobre a capacidade comunitária de quem possui.
Embora Marx fosse culturalmente assimilado ao mundo europeu e se considerasse um homem da ciência e da razão pura, a herança intelectual e a sensibilidade ética em relação à opressão que permeavam a Europa Central judaica acabaram ecoando em sua obra teórica.
Autor do blog: Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades e frequenta o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Sociais Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007.

domingo, 25 de novembro de 2018

Citações - Karl Marx

KARL MARX (1818-1883), alemão, filósofo, sociólogo e economista, foi juntamente com Friedrich Engels, um dos mentores da criação e organização da I Internacional Socialista, Marx foi influenciando o pensamento político, económico e sociológico até aos dias de hoje, e o movimento que criou dividiu-se entre o comunismo totalitário e a esquerda social-democrata moderada. A sua mais célebre frase é:Proletários de todo o Mundo, Uni-vos”.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A Vida e a Obra do Judeu, Karl Marx

Karl Marx, nasceu no seio de uma família judia, no ano de 1818, na cidade de Trier, situada no Estado da Renânia e no Reino da Prussia, à época do seu nascimento já haviam decorrido quatro anos após a Criação da Liga Alemã, uma união de 39  Estados soberanos com o Parlamento em Frankfurt e o poder político concentrado na Áustria, isto ocorreu após o fim das Invasões napoleónicas, e a consolidação é feita através do Congresso de Viena, no qual um dos objetivos determinantes era sem dúvida, combater as ideias da revolução francesa e as revoluções liberais que se alastravam pela Europa.

É este conjunto de circunstâncias que vai formar o pensamento de Marx, baseado na época em que se desenvolvia a industrialização e cujas relações conturbadas  no seio da sociedade do seu tempo, influenciam e marcaram profundamente a orientação ideológica de Karl Marx e do modo como interpretou a história, a política, a economia e fundamentalmente a sociedade advinda da Revolução Indústrial emergente.
 

Este artigo não visa ser um texto exaustivo, e nem tem a possibilidade de o ser, apenas um mero artigo inicial, que será desenvolvido pelo leitor através das obras em PDF para baixar e ler, tanto da autoria de Karl Marx como sobre a sua biografia.

Os Primeiros anos

Marx era o segundo de nove filhos de Henriette (judia holandesa) e de Herchel um advogado judeu; Mordechai o avô paterno de Marx, era Rabbi na sinagoga de Trier, mas seu pai para contornar o impedimento de exercer o serviço público por ser judeu, mudou o sobrenome para Marx e converteu-se ao Cristianismo Luterano, julga-se no entanto que o pai de Marx tenha mantido as tradições judaicas em segredo.

A Vida Familiar

Marx casou com Jenny Von Westphalen a 19 de Julho de 1843, dessa união nasceram sete filhos, mas devido às duras condições de vida, só chegaram à idade adulta apenas três, Janny Caroline, Janny Laura e Janny Julia Eleanor, no entanto teve também um outro filho com a empregada da família e amante Helena, o menino chamava-se Friederich.

Apesar das dificuldades vividas em Londres por Karl Marx, este sendo um homem culto, procurou dar também às suas filhas cultura e a melhor educação possível, tendo proporcionado às suas filhas aulas de desenho, piano e canto, em parte fruto das suas origens burguesa e judaica, em parte por ser um dos seus ideais, considerando que a liberdade dos assalariados também passa pela aquisição de cultura e esta é fonte de uma forte consciencialização social e política.

A Formação Académica

Marx iniciou os seus estudos universitários em Bonna, para estudar Direito, tendo no entanto desistido do curso de direito, ingressando no curso de Filosofia após transferir-se para a Universidade de Berlim, onde teve como professor o filósofo alemão Hegel como seu professor, e de quem recebeu uma enorme influencia, contudo os estudos de Karl Marx não se fizeram apenas nas cadeiras universitárias, pelo que foi um continuo investigador de ciências económicas, sociais, e de tal forma que o seu pensamento tem influência hoje em variadíssimas áreas cientificas que vão da sociologia à psicologia social, passando pelo direito, economia, ciência política e até na teologia, de forma clara partindo dos seus estudos de análise social e económica multidisciplinares.


O Pensamento Filosófico de Marx

O  seu pensamento tem como base de estudo, o desenvolvimento de uma leitura da sociedade do seu tempo, baseada nas relações de classe e de poder político das elites dominantes e a estrutura histórica e social que sustentava esse organização social. Por extensão à dialética hegueliana, Marx faz uma análise histórica do desenvolvimento das sociedades, desde a Pré-história às grandes civilizações, a partir da evolução histórica; E aqui temos uma forte influência da dialética de Hegel, no seu pensamento, Marx no entanto critica o  seu antigo professor, porque o idealismo hegueliano via a filosofia a influir na realidade, ao contrário do pensamento marxista, que concebe a filosofia a partir da realidade, e para haver uma mudança social e transformadora é preciso um pensamento de cariz revolucionário. 

No que concerne à filosofia da história, analisa as relações sociais, baseado em estruturas económicas e políticas, que de revolução em revolução social, desenvolvem novas formas de organização politica e económica, mas tendo como aspecto central a exploração do homem pelo homem. Neste sentido, do clã pré-histórico, ao esclavagismo, passando pelo mercantilismo colonialista, ao capitalismo, Marx crê que o fim da História seria o auge de uma sociedade sem classes, onde fosse suprimida a exploração do homem pelo homem, e isto só poderia ser a evolução do capitalismo em direção à social-democracia, por sua vez ao socialismo e por fim o comunismo, ou seja a sociedade comum, sem classes.

Quanto ao criticismo religioso, o materialismo dialético de Marx, dito de ateísmo materialista, não é necessariamente um dogma religioso da descrença de uma divindade criadora, sabe-se através da correspondência que mantinha com Engels, que acreditava e tinha fé, sendo critico sim da religião como instrumento de manipulação das classes dominadas.


A Obra Marx

Marx é considerado mais como um pensador, um filósofo e um economista, mas na realidade a importância da sua obra incide muito nos estudo sociológicos; O seu contributo para a Sociologia é tão grande, que até mesmo dentro do corpo teórico do Serviço Social, podemos encontrar a corrente Marxista, e não falamos aqui de um marxismo político, mas de uma leitura sociológica feita por Marx e que é aplicada na Práxis do trabalho social, a luta fundamental de Marx, pode resumir-se em Justiça Social.

Do total da sua obra, pode-se dizer que o expoente máximo, que envolve várias das áreas acima citadas, possa ser considerado "O Capital", obra em 4 tomos, que escreveu durante longos anos e que só foi terminado pela colaboração do amigo Friederich Engels, que publicou os últimos tomos após a a morte de Marx, sendo um dos livros mais publicados na história da filosofia e ciência politica e económica, no entanto não devemos ficar por aqui, a obra de Marx é mais vasta e abrangente do que se possa pensar à partida, a sua obra foi obviamente marcante também, por ser um contributo ideológico na Ciência Política, na Filosofia, História e também na Economia,


Marx e o Marxismo

Para se ter uma noção do pensamento de Marx, é preciso dizer antes de mais, que tem hoje em dia uma conotação ideológica que é na verdade um tanto quanto diferente do seu pensamento genuíno, isto porque o Marxismo é comummente identificado com doutrinas políticas que não são genuinamente marxistas no seu sentido restrito, tais como as alterações ideológicas feitas pelo pensamento de Vladimir Lenin, Josef Stalin, Leon Trotsky e Mao Tse Tung.

Posto isto, por outro lado, o Marxismo pode ter conotações meramente cientificas, que partem da sua análise sociológica, histórica e da dialética hegueliana dos seus estudos no campo da sociologia, história, economia, e também do serviço social, mas teve sobre maneira uma influência crescente nos meios intelectuais, académicos e operários sindicalistas, no fim do século XIX e inicio do Século XX.

A Morte de Karl Marx

Marx morreu em 1883, de bronquites dois anos após a morte de sua mulher, que o deixara deprimido e fisicamente debilitado, tendo sido sepultado em Londres a cidade onde vivia.

Livros para Baixar em PDF

 A Ideologia Alemã - Download PDF
 A Questão Judaica - Download PDF
 O Capital - Tomo I - Download PDF
 O Capital - Tomo II - Download PDF
 O Manifesto Comunista - Download PDF
 Vida e Obra de Marx e Engels - Download PDF

Por Filipe de Freitas Leal

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Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

 
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