A palavra puto, em português europeu, significa "menino" ou "rapazinho", um uso preservado especialmente em Portugal e regiões periféricas da Península Ibérica. Sua origem remonta ao latim clássico, onde putus (no século II a.C.) designava "menino", "garoto" ou "jovem rapaz", com conotação neutra ou afetiva. No latim vulgar (séculos III-V d.C.), evoluiu para puer ("menino"), mas formas arcaicas como putu persistiram em dialetos periféricos, influenciando o português como língua neolatina .
No feminino, puta equivalia a "menina" ou "garotinha". A depreciação semântica do feminino — associando-o a "prostituta" — ocorreu por processos linguísticos comuns: semelhança fonética com termos vulgares ou corruptelas. Um paralelo é o caso de rapariga no Brasil, originalmente o feminino de "rapaz" (do latim rapax, "ávido"), mas que ganhou conotação pejorativa de "prostituta" por associação cultural, enquanto em Portugal manteve o sentido neutro de "menina" ou "jovem" .
Essa evolução reflete mudanças semânticas por metonímia ou analogia, comuns nas línguas românicas. Em português moderno, "puto" permanece positivo em contextos como "ó puto!" (afetuoso para "ei, menino!"), enquanto o feminino sofreu estigma social, similar ao inglês "girl" (neutro) versus gírias depreciativas.
Na arte sacra, o termo aparece em inscrições latinas como PUTUS IESUS ("Menino Jesus"), comum em esculturas e pinturas medievais. Os querubins, anjos infantis rechonchudos, eram chamados de putti em latim e italiano renascentista — "meninos anjos" —, como nos afrescos de Rafael na Villa Farnesina (século XVI). Esse uso artístico reforça a origem inocente .
Uma nota filológica crucial: no século I d.C., o alfabeto latino não distinguia U de V; a letra V representava tanto o som /u/ (como em puer, pronunciado /ˈpu.er/) quanto /w/ ou /v/. Assim, escrevia-se PVER, mas pronunciava-se PUER. A separação U/V só ocorreu no Renascimento (século XV), padronizando grafias .
Em resumo, "puto" é um relíquia viva do latim, testemunha da riqueza etimológica do português. Sua conotação positiva em Portugal contrasta com usos coloquiais depreciativos em outros contextos lusófonos, ilustrando como o tempo e a cultura moldam as palavras.
Referências Bibliográficas
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Corominas, J. (1974). Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico. Gredos. (Entradas: puta e rapariga, vols. IV e V).
Blunt, A. F. (1980). Artistic Theory in Italy, 1450-1600. Oxford University Press. (Sobre putti na arte renascentista, pp. 45-67).
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Houaiss, A. (2009). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Objetiva. (Etimologia de "puto" e "rapariga").
quarta-feira, julho 17, 2024
Filipe de Freitas Leal


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