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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Puto, Putti - A Origem da Palavra



A palavra puto, em português europeu, significa "menino" ou "rapazinho", um uso preservado especialmente em Portugal e regiões periféricas da Península Ibérica. Sua origem remonta ao latim clássico, onde putus (no século II a.C.) designava "menino", "garoto" ou "jovem rapaz", com conotação neutra ou afetiva. No latim vulgar (séculos III-V d.C.), evoluiu para puer ("menino"), mas formas arcaicas como putu persistiram em dialetos periféricos, influenciando o português como língua neolatina .

No feminino, puta equivalia a "menina" ou "garotinha". A depreciação semântica do feminino — associando-o a "prostituta" — ocorreu por processos linguísticos comuns: semelhança fonética com termos vulgares ou corruptelas. Um paralelo é o caso de rapariga no Brasil, originalmente o feminino de "rapaz" (do latim rapax, "ávido"), mas que ganhou conotação pejorativa de "prostituta" por associação cultural, enquanto em Portugal manteve o sentido neutro de "menina" ou "jovem" .

Essa evolução reflete mudanças semânticas por metonímia ou analogia, comuns nas línguas românicas. Em português moderno, "puto" permanece positivo em contextos como "ó puto!" (afetuoso para "ei, menino!"), enquanto o feminino sofreu estigma social, similar ao inglês "girl" (neutro) versus gírias depreciativas.

Na arte sacra, o termo aparece em inscrições latinas como PUTUS IESUS ("Menino Jesus"), comum em esculturas e pinturas medievais. Os querubins, anjos infantis rechonchudos, eram chamados de putti em latim e italiano renascentista — "meninos anjos" —, como nos afrescos de Rafael na Villa Farnesina (século XVI). Esse uso artístico reforça a origem inocente .

Uma nota filológica crucial: no século I d.C., o alfabeto latino não distinguia U de V; a letra V representava tanto o som /u/ (como em puer, pronunciado /ˈpu.er/) quanto /w/ ou /v/. Assim, escrevia-se PVER, mas pronunciava-se PUER. A separação U/V só ocorreu no Renascimento (século XV), padronizando grafias .

Em resumo, "puto" é um relíquia viva do latim, testemunha da riqueza etimológica do português. Sua conotação positiva em Portugal contrasta com usos coloquiais depreciativos em outros contextos lusófonos, ilustrando como o tempo e a cultura moldam as palavras.

Referências Bibliográficas
Ernout, A., & Meillet, A. (1959). Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine. Klincksieck. (Entrada: putus, p. 548).
Corominas, J. (1974). Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico. Gredos. (Entradas: puta e rapariga, vols. IV e V).
Blunt, A. F. (1980). Artistic Theory in Italy, 1450-1600. Oxford University Press. (Sobre putti na arte renascentista, pp. 45-67).
Allen, W. S. (1978). Vox Latina: A Guide to the Pronunciation of Classical Latin. Cambridge University Press. (Capítulo sobre V/U, pp. 22-25).
Houaiss, A. (2009). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Objetiva. (Etimologia de "puto" e "rapariga").


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

domingo, 13 de setembro de 2020

Os Nomes das Letras Latinas

O Alfabeto Latino foi criado pelos romanos no século VI AEC (Antes da Era Comum) a partir do alfabeto etrusco, e este por sua vez deriva do alfabeto grego, todavia os nomes das letras foram definidos mais tarde, apenas no século II AEC pelo erudito e gramático romano de nome Tulius Varro.
É importante frisarmos que algumas letras não existiam na altura, tal como a letra J sendo usado apenas o I e uma outra letra, que existia o som mas não tinha ainda formato era a letra U, no seu lugar era utilizado com a forma gráfica de V, inicialmente as letras eram também apenas maiúsculas, só séculos mais tarde é que se estabeleceu o actual alfabeto romano de forma permanente com letras maiúsculas e minúsculas sem alterar os nomes das letras baptizadas por Tullius Varro.
Abaixo temos o quadro com o nome que cada letra latina tem. Todavia, convém não confundirmos o nome das letras com o seu som vocálico; dentre elas há uma letra que nem sequer tem som, é o 'H', cujas palavras iniciadas têm o som inicial de A, O, ou U, consoante a segunda letra, como habitar, hábito, hoje, hora, humano, húmido, hotel, há ainda outras sete letras, cujo som inicial do respectivo nome assemelha-se ao som de 'é', são o E, o F, L, M, N, R e o S, tal como na tabela abaixo.

Letra
Nome
Exemplo
A
a
Á
Água
B
b
Berço
C
c
Cedo
D
d
Dedo
E
e
É
Eco
F
f
Éfe
Face, (Efectivo)
G
g
Gente
H
h
Agá
Sem som (Haver, Herói, Hino, Hoje)
I
i
I
Iluminar
J
j
Jóta
Jovem
K
k
Kapa
Karma e em palavras de origem estrangeira
L
l
Éle
Ler - (Elite)
M
m
Éme
Mãe - (Emérito)
N
n
Éne
Nadar - (Energia)
O
o
Ó
Ódio - Óptimo
P
p
Peso
Q
q
Quê
Queijo
R
r
Érre
Rei - (Erróneo)
S
s
Ésse
Sábio - (Essénio)
T
t
Ter
U
u
U
Uva
V
v
Ver
W
w
Dabliu
Apenas para palavras de origem estrangeira
X
x
Xis
Xisto
Y
y
Ípsilon
Apenas para palavras de origem estrangeira
Z
z
Zelo

Se preferir pode ouvir o artigo.

Referências de consulta:
Ciberdúvidas - Sobre o nome das letras
Omelete Linguística - O Nome das Letras vem do Latim
Letratura - http://letratura.blogspot.pt


Autor: Filipe de Freitas Leal
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Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

 
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