No pensamento jurídico fundamentalista seguido por Khomeini, o mundo divide-se em Dar Al-Islam (Território do Islão) e Dar Al-Harb (Território da Guerra). Qualquer terra que já tenha sido governada pelo Islão torna-se um Waqf — um património sagrado e inalienável pertencente à comunidade muçulmana (Umma) sob a guarda de Deus.
- O Dogma da Inversão: Para o regime, é uma abominação teológica que "infiéis" governem crentes. Embora judeus e cristãos sejam considerados "Povos do Livro" (Ahl al-Kitab), o seu lugar dogmático seria o de Dhimmis (minorias protegidas, mas submissas e sem poder político). A existência de Israel é vista como um "roubo" de um território sagrado e, pior, uma inversão da hierarquia divina, onde o antigo submisso agora governa sobre o solo do Islão.
Khomeini e os seus sucessores utilizam versículos do Alcorão (das Suras Al-Baqarah e Al-Ma'idah) sobre a desobediência de grupos israelitas no passado para alimentar uma narrativa anacrónica.
- A Aplicação: O moderno Estado de Israel não é visto como uma entidade política secular, mas como o herdeiro das "características de traição" descritas nos textos antigos. Nesta visão, combater o sionismo é a continuação direta da luta dos profetas contra a corrupção e a arrogância.
A teologia xiita é profundamente marcada pela crença no retorno do 12º Imam, o Mahdi, que virá para estabelecer a justiça final.
- O Papel de Jerusalém: A tradição escatológica afirma que o Mahdi travará uma batalha final contra as forças do mal e liderará a oração na Mesquita de Al-Aqsa.
- Aceleração do Destino: Diferente de uma espera passiva, o regime de Teerão vê-se como a "vanguarda" que deve preparar o cenário para este retorno. A eliminação de Israel é vista como um pré-requisito teológico; ao "limpar" o caminho para o Messias islâmico, o regime acredita estar a cumprir um cronograma divino.
O regime teocrático do Irão e os seus proxies (Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias) não lutam por fronteiras ou pela autodeterminação palestiniana — que serve apenas como ferramenta de propaganda. O objetivo final é a eliminação total de Israel. Nesta visão apocalíptica, muitos analistas veem paralelos com a batalha final de Yajuj e Majuj (Gog e Magog), sugerindo que, para os Aiatolás, estamos a viver os capítulos finais de um confronto cósmico onde a diplomacia humana não tem lugar.
quinta-feira, março 05, 2026
Filipe de Freitas Leal
