Marx era judeu de etnia e sangue, filho e neto de judeus. Embora não fosse um homem crente ou religioso na sua vida adulta — tendo sido batizado no luteranismo na infância por contingências políticas que forçaram o seu pai a converter-se para poder advogar na Prússia —, a sua raiz cultural é inegável. O seu avô paterno, Meier Halevi Marx, foi o Rabino de Trier, e a sua família materna vinha de uma longa linhagem de rabinos.
Quando Marx criticava a religião oficial da sua época, o seu foco era a laicidade e a emancipação humana. Ao formular que a religião funciona como o "ópio do povo", ele não fazia um ataque gratuito à fé individual, mas sim uma crítica sociológica de como as instituições religiosas eram usadas pelo poder político para pacificar as classes dominadas, prometendo o paraíso no além para que aceitassem a miséria no presente.
O pensamento de Marx está circunscrito a uma realidade temporal e socioeconómica totalmente diferente da atual. Ele pensou e analisou as dores do capitalismo industrial do Século XIX. O grande problema contemporâneo não é o que ele escreveu, mas sim as distorções ideológicas feitas tanto à esquerda quanto à direita.
- O Avô Rabino: O avô paterno de Karl, Mordechai HaLevi Marx, foi o rabino de Trier. Seu tio também assumiu o cargo posteriormente.
- A Conversão do Pai: Heinrich Marx (nascido Herschel Levi), pai de Karl, era um advogado de sucesso. Em 1815, o reino da Prússia aplicou leis que proibiam judeus de exercerem cargos públicos e profissões jurídicas. Para poder continuar trabalhando e sustentar a família, Heinrich converteu-se ao luteranismo por volta de 1817.
- O Batismo de Karl: Karl Marx nasceu em 1818 e foi batizado na Igreja Luterana em 1824, aos seis anos de idade, junto com seus irmãos.
- No Judaísmo (Tikkun Olam): Diferente de religiões focadas na salvação ultraterrena, o judaísmo clássico prioriza a ação no mundo presente. O conceito de Tikkun Olam ordena a "reparação do mundo" por meio da justiça social e da caridade coletiva.
- No Marxismo: Marx foca estritamente na emancipação material e terrena. Sua famosa frase resume isso: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o que importa é transformá-lo".
- No Talmud: Existem extensas leis talmúdicas sobre as relações de trabalho (tratado de Bava Metzia). O Talmud proíbe a retenção do salário do trabalhador, exige condições dignas de descanso e condena o lucro excessivo obtido através da exploração da necessidade alheia.
- No Marxismo: Toda a base do livro O Capital é uma denúncia contra a extração da mais-valia e a exploração do trabalhador pela classe burguesa.
- No Judaísmo: A história da humanidade caminha de forma linear em direção a uma Era Messiânica de paz universal, onde a opressão desaparecerá.
- No Marxismo: A história avança por meio da luta de classes em direção a uma sociedade sem classes (o comunismo), que representa o fim da exploração humana. Muitos filósofos (como Walter Benjamin e Ernst Bloch) definiram o marxismo como uma forma de "messianismo secularizado".
- A frase de Marx: "De cada qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo suas necessidades" (Crítica do Programa de Gotha, 1875).
- Paralelo Judaico: No Talmud e nos comentários sobre a justiça distributiva (Tzedaká), o princípio de ajudar o próximo baseia-se estritamente na necessidade de quem recebe, e a responsabilidade de dar pesa sobre a capacidade comunitária de quem possui.
sábado, junho 04, 2022
Filipe de Freitas Leal



