Mostrar mensagens com a etiqueta António Gramsci. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Gramsci. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Quando a Ciência é refém da Ideologia: A Morte da Neutralidade Axiológica (Reeditado)

Como o relativismo cultural e a hegemonia gramsciana sequestraram a Academia e ameaçam hoje os alicerces da Civilização Ocidental

Quando a Ciência é Insrumentalizada pela Política em Prol de uma Agenda,  perde Definitivamente a sua Neutralidade.

Por Filipe de Freitas Leal

Franz Boas (1858-1942) nasceu na Alemanha, em Minden, na Vestefália, numa família judia ligada à corrente progressista da Haskalah, o Iluminismo judaico. Formou-se em Física na Universidade de Kiel e especializou-se em Geografia.

No final do século XIX, a Antropologia ainda não existia como disciplina académica plenamente estabelecida. Boas começou por trabalhar na área da geografia, mais precisamente da antropogeografia, e foi nesse contexto que entrou em contacto com os inuítes das Ilhas Baffin, no Canadá. A experiência despertou-lhe o interesse pelo estudo das culturas e dos modos de vida de outros povos, conduzindo-o gradualmente à Antropologia.

Depois de lecionar Geografia na Alemanha, Boas emigrou para os Estados Unidos. Como não encontrou ali um curso de Antropologia já estruturado, acabou por ajudar a construir a própria disciplina. Em 1899, tornou-se o primeiro professor oficial de Antropologia da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde fundou o primeiro departamento independente da área nos Estados Unidos.

A Génese do Dogma: O Relativismo Cultural na Antropologia

Franz Uri Boas (1858-1942)
Boas opôs-se às principais correntes que dominavam a Antropologia do seu tempo, nomeadamente o evolucionismo cultural e o darwinismo social. Contestou também as teorias de autores como Arthur de Gobineau e Francis Galton, frequentemente utilizadas para defender teorias de superioridade racial e cultural.

Essas ideias foram aproveitadas por setores racistas e colonialistas para justificar discursos de superioridade europeia e políticas imperialistas. Boas considerava perigosa essa utilização política da ciência. Por isso, procurou desenvolver uma Antropologia baseada na observação, na comparação e no estudo das culturas dentro do seu próprio contexto.

Foi neste quadro que ganhou importância o particularismo histórico, segundo o qual cada cultura deve ser compreendida a partir da sua história específica, e o relativismo cultural, que recomenda o estudo de cada sociedade sem a avaliar automaticamente segundo os padrões de outra.

Boas combateu, assim, o determinismo biológico aplicado às raças. A ideia de que as diferenças entre povos determinavam a sua inteligência, o seu comportamento ou o seu grau de civilização serviu, durante décadas, para legitimar o racismo e o colonialismo.

Isso não significa, contudo, que a biologia seja irrelevante. Existem diferenças biológicas entre homens e mulheres, nomeadamente no domínio da reprodução. Só a mulher pode engravidar, dar à luz e amamentar. Mas essas diferenças não significam que um sexo seja superior ao outro, nem determinam, por si só, todos os comportamentos, capacidades ou papéis sociais.

A biologia estabelece algumas condições e limites físicos; a cultura, a educação, o ambiente social e as condições económicas influenciam a forma como os indivíduos vivem e interpretam essas diferenças. Confundir uma coisa com a outra conduz tanto ao determinismo biológico como à negação de qualquer influência da biologia.

Boas era também um defensor dos direitos humanos, da justiça social, dos trabalhadores, das minorias e das mulheres. Identificava-se com uma esquerda democrática e moderada. O seu pensamento humanista e progressista influenciou o seu trabalho académico, mas isso não significa de forma nenhuma, que ele tenha concebido a ciência como um simples instrumento de propaganda política.

O professor e a aluna seguiram raminhos diferentes

Margaret Mead (1901-1978)
Franz Boas foi mentor e orientador de Margaret Mead na Universidade de Columbia. Mead viria a tornar-se uma das figuras mais conhecidas da segunda geração da Antropologia Cultural norte-americana.

O seu estudo mais célebre, Adolescência em Samoa, publicado em 1928, procurava demonstrar que os conflitos e as frustrações dos adolescentes ocidentais não eram necessariamente universais. Segundo Mead, muitos desses comportamentos poderiam estar relacionados com o ambiente cultural e social em que os jovens cresciam.

A obra teve grande influência, mas também foi fortemente contestada. Décadas mais tarde, o antropólogo Derek Freeman acusou Mead de ter cometido erros metodológicos e de ter apresentado uma imagem demasiado idealizada da sociedade samoana. A discussão sobre a validade das suas conclusões continua a ser um dos episódios mais conhecidos da história da Antropologia (Freeman, 1983).

Independentemente da avaliação que se faça do trabalho de Mead, as suas ideias tiveram uma enorme repercussão. Foram utilizadas para defender a tese de que a masculinidade e a feminilidade não são determinadas apenas pela biologia, mas também pelas normas, expectativas e instituições de cada sociedade.

É importante, porém, distinguir o trabalho de Boas do percurso intelectual e político de Mead. Boas apresentava o relativismo cultural sobretudo como um método de investigação. A sua intenção era compreender cada cultura no seu contexto e combater as teorias raciais que pretendiam estabelecer uma hierarquia entre os povos. Para ele, a capacidade de adaptação dos seres humanos demonstrava que não existiam raças biologicamente superiores ou inferiores.

Margaret Mead, por outro lado, utilizou os seus estudos antropológicos para intervir no debate social do Ocidente. As suas investigações tinham uma dimensão claramente reformista, feminista e progressista. Mead não se limitava a descrever outras sociedades: também procurava questionar os costumes e as instituições ocidentais.

Essa preocupação é visível na obra Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas, publicada em 1935. Na Papua-Nova Guiné, Mead estudou três sociedades: os Arapesh, que descreveu como pacíficos e cooperativos; os Mundugumor, apresentados como agressivos; e os Tchambuli, nos quais identificou papéis de género diferentes dos predominantes no Ocidente.

A conclusão de Mead era que os comportamentos associados ao masculino e ao feminino variavam significativamente entre culturas. Por isso, não poderiam ser explicados apenas pela anatomia ou pelo sexo biológico.

Esta tese contribuiu para os debates do feminismo da segunda vaga. Ao mesmo tempo, abriu caminho para interpretações posteriores que passaram a considerar os papéis de género quase exclusivamente como construções sociais. É neste ponto que alguns autores identificam uma das origens intelectuais das atuais teorias de género.

A diferença entre Boas e Mead pode ser resumida da seguinte forma: Boas procurava utilizar a ciência para combater o racismo e o determinismo biológico; Mead foi mais longe e utilizou a Antropologia como instrumento de crítica e transformação da sociedade ocidental.

Da Antropologia à teoria de género

Depois da Segunda Guerra Mundial, várias ideias associadas ao relativismo cultural e à rejeição do determinismo biológico passaram a influenciar as ciências sociais ocidentais. A noção de que a identidade e os papéis sociais são moldados pela cultura ganhou cada vez mais importância.

Nas décadas de 1950 e 1960, investigadores como John Money e Robert Stoller estabeleceram uma distinção entre sexo e género. O sexo passou a ser entendido sobretudo como uma realidade anatómica e biológica, enquanto o género era associado à identidade psicológica, à experiência social e aos papéis atribuídos a homens e mulheres.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o feminismo da segunda vaga e várias correntes sociológicas desenvolveram ainda mais esta perspetiva. Autoras influenciadas por ideias construtivistas, incluindo Simone de Beauvoir, defenderam que muitos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres não eram naturais nem inevitáveis, mas construções sociais que poderiam ser transformadas.

Mais tarde, a Teoria Queer acrescentou novos conceitos a este debate, como o de performatividade (Butler, 1990). Algumas das suas correntes passaram a defender que até a própria interpretação do sexo biológico é influenciada pela linguagem, pelas instituições e pelos códigos culturais.

Estas teorias tiveram impacto na academia, nos meios de comunicação e na política. Para os seus defensores, ajudaram a questionar preconceitos e a proteger minorias. Para os seus críticos, acabaram por ultrapassar o campo da análise científica e transformar-se numa visão ideológica sobre a sociedade, a identidade e o controlo linguagem.

É neste contexto que surgiu a expressão “ideologia de género”, utilizada sobretudo por setores conservadores para criticar a ideia de que os papéis masculinos e femininos são inteiramente fluidos e definidos pela cultura. A expressão é rejeitada por muitos investigadores e ativistas progressistas, que preferem falar em estudos de género ou teoria de género.

Mais do que resolver a disputa através de rótulos, importa perceber como uma hipótese científica se transforma, ao longo do tempo, numa posição política. O problema não está em estudar a influência da cultura sobre os comportamentos humanos. O problema surge quando uma teoria passa a ser apresentada como uma explicação total da realidade e deixa de admitir dados ou argumentos que a contrariem.

A Nova Esquerda e os novos conflitos culturais

Os movimentos progressistas apropriaram-se de algumas ideias do particularismo histórico e do relativismo cultural para desenvolver três linhas principais de crítica:

  1. O questionamento do eurocentrismo, do colonialismo europeu e do imperialismo americano.
  2. A rejeição do racismo e das teorias que atribuíam aos grupos humanos características intelectuais ou morais determinadas pela biologia.
  3. A crítica aos valores tradicionais da sociedade ocidental e a defesa do multiculturalismo e dos direitos das minorias.

O marxismo clássico não tinha colocado originalmente estas questões no centro da sua doutrina. Durante grande parte da sua história, concentrou-se sobretudo na luta de classes e nas relações económicas. Foi a partir do final dos anos 1960 e do início da década de 1970 que a chamada Nova Esquerda começou a afastar-se do marxismo ortodoxo e da social-democracia tradicional e aplicou a estratégia gramsciana da hegemonia cultural com sucesso, substituindo a luta de classes económica por uma "luta de identidades" abandonando assim a classe trabalhadora que hoje sente-se traída pela Esquerda.

Influenciada pelo pós-estruturalismo, pelo anticolonialismo e por novas teorias sociais, uma parte da esquerda deslocou a atenção da economia para temas relacionados com a identidade, a raça, o género, a sexualidade, a religião e a linguagem. Esta mudança trouxe ganhos importantes, sobretudo na denúncia da discriminação e na defesa de grupos marginalizados. Mas também criou dilemas difíceis.

Um dos principais problemas aparece quando o relativismo cultural é levado ao extremo. Se cada prática deve ser compreendida exclusivamente dentro da sua cultura, como avaliar atos que violam direitos fundamentais? A mutilação genital feminina e a opressão das mulheres, por exemplo, não deixam de ser graves por ocorrerem numa sociedade diferente da ocidental.

A universalidade dos direitos humanos entra aqui em tensão com determinadas formas de relativismo. Num Estado de Direito, a lei deve aplicar-se igualmente a todos os cidadãos. Se os direitos e deveres variarem em função da etnia, da religião ou da cultura, a igualdade perante a lei fica ameaçada.

O particularismo histórico de Boas afirmava que cada cultura possui uma trajetória própria. No debate político contemporâneo, esta ideia foi por vezes transformada numa espécie de essencialismo identitário. Segundo essa perspetiva, apenas os membros de determinado grupo teriam legitimidade para falar, criar ou investigar sobre esse grupo.

É o que acontece em algumas discussões sobre “apropriação cultural”. A preocupação com a exploração ou caricatura de culturas minoritárias pode ser legítima. No entanto, afirmar que só quem pertence a uma comunidade pode estudar ou representar essa comunidade cria um problema para a liberdade académica, artística e intelectual.

Os factos históricos, antropológicos, biológicos e geológicos não pertencem exclusivamente a um grupo. Podem ser estudados por qualquer pessoa, desde que o faça com competência, honestidade e respeito pelos dados.

Se Boas utilizou o relativismo como método para libertar a ciência do racismo e do colonialismo, é possível que hoje criticasse algumas utilizações políticas dos seus conceitos. Uma metodologia científica não deve ser transformada numa doutrina fechada.

Gramsci e Revolução pela Nova Hegemonia Cultural

António Gramsci (1891-1937)
Existe uma ligação entre a valorização da cultura pela Nova Esquerda e o pensamento de António Gramsci. O filósofo italiano defendia que a transformação política não dependia apenas de uma revolução económica ou de uma insurreição direta, Segundo Gramsci, a revolução não devia ser feita pela invasão da sede do governo pela força, mas sim, conquistando as "trincheiras culturais e criando uma nova hegemonia cultural".

Gramsci distinguiu entre a “guerra de movimento”, associada ao confronto direto, e a “guerra de posição”, baseada numa transformação gradual da sociedade. Esta transformação passaria pela conquista de espaços de influência como as universidades, a imprensa, as escolas, as artes e outras instituições culturais (Gramsci, 1971).

É precisamente nesta 'guerra de posição' que se manifesta a engenharia social promovida por partidos políticos e ideólogos. Ao utilizarem o aparelho escolar, os currículos académicos e a produção artística, estes agentes operam um esforço deliberado e planeado para remodelar os valores, a linguagem e as atitudes da população. O objetivo deixa de ser a conquista do Estado pela força e passa a ser a reengenharia do comportamento social, alinhando a mentalidade coletiva à nova matriz ideológica antes mesmo de qualquer mudança legislativa.

A ideia central era que o poder não se mantém apenas através da força ou das leis. Também se reproduz por meio de valores, hábitos, ideias e visões do mundo que uma sociedade considera normais.

A Nova Esquerda combinou esta estratégia cultural com ideias associadas a Boas e Mead. Muitos elementos que a sociedade ocidental considerava naturais ou universais — como determinados papéis de género, formas de família ou padrões de comportamento — passaram a ser analisados como construções históricas e sociais.

Gramsci chamou “superestrutura” ao conjunto de instituições e ideias que ajudam a reproduzir a ordem social. Na leitura feita por alguns setores da Nova Esquerda, a universidade, os meios de comunicação, as artes e a escola tornaram-se campos centrais da disputa política.

A defesa dos direitos humanos e o combate à discriminação passaram, assim, a coexistir com um projeto mais vasto de transformação cultural. A questão deixou de ser apenas garantir que todos fossem tratados com igualdade. Passou também a incluir a alteração da linguagem, dos currículos, dos símbolos e das normas sociais.

É neste ponto que os críticos identificam o risco de uma nova forma de ortodoxia. Uma teoria que nasceu para combater dogmas pode transformar-se, ela própria, num dogma quando deixa de tolerar a dúvida, a crítica ou a investigação contraditória (Lukianoff & Haidt, 2018).

Uma teoria que nasceu para combater dogmas pode transformar-se, ela própria, num dogma quando deixa de tolerar a dúvida, a crítica ou a investigação contraditória (Lukianoff & Haidt, 2018). Hoje no Ocidente, a maioria das pessoas observa hoje este fenómeno de engenharia social com profunda desconfiança. Sob esta ótica, a imposição da 'linguagem neutra' ou de pronomes compulsórios não visa a inclusão, mas sim o desmantelamento da estrutura cognitiva da sociedade e a punição do dissenso através da chamada Cancel Culture (cultura do cancelamento e da lacração). O relativismo cultural de Boas surgiu num contexto em que a ciência era utilizada para justificar o racismoO relativismo cultural de Boas surgiu num contexto em que a ciência era utilizada para justificar o racismo, o colonialismo e a superioridade de determinados povos. O seu objetivo era precisamente libertar o conhecimento dessa manipulação política (que na época dele era de extrema-direita e hoje é de Esquerda).

Hoje, porém, alguns dos seus conceitos são utilizados para defender posições políticas que também procuram controlar a linguagem, estabelecer limites ao debate e determinar quem tem autoridade para falar sobre certos temas.

A lição de Boas deveria ser outra: a ciência não deve servir nenhuma ideologia, seja ela de extrema-direita, de esquerda radical ou de qualquer outra corrente política. Deve estudar os factos, reconhecer a complexidade humana e permanecer aberta à revisão.

O que começou como uma tentativa de libertar a ciência da instrumentalização ideológica pode acabar por produzir um novo dogmatismo académico. Quando a investigação deixa de procurar a verdade e passa a proteger uma determinada narrativa, a ciência deixa de ser ciência e transforma-se em propaganda.

"E tu, achas que a ciência está cada vez mais influenciada por agendas ideológicas?" Deixa o teu comentário.

Referências Bibliográficas

  • BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

  • FREEMAN, Derek. Margaret Mead and Samoa: The Making and Unmaking of an Anthropological Myth. Cambridge: Harvard University Press, 1983.

  • GRAMSCI, Antonio. Selections from the Prison Notebooks. Edição e tradução de Quentin Hoare e Geoffrey Nowell Smith. New York: International Publishers, 1971.

  • LUKIANOFF, Greg; HAIDT, Jonathan. The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure. New York: Penguin Press, 2018.

 English Version

When Science Is Held Hostage by Ideology: The Death of Axiological Neutrality (Reedited)

How cultural relativism and Gramscian hegemony captured the academy and now threaten the foundations of Western civilization
When science is instrumentalized by politics in the service of an agenda, it definitively loses its neutrality.

By Filipe de Freitas Leal

Franz Boas (1858–1942) was born in Germany, in Minden, Westphalia, into a Jewish family linked to the progressive current of the Haskalah, the Jewish Enlightenment. He studied Physics at the University of Kiel and specialized in Geography.

At the end of the 19th century, Anthropology did not yet exist as a fully established academic discipline. Boas initially worked in geography, more precisely in anthropogeography, and it was in that context that he came into contact with the Inuit of Baffin Island, in Canada. That experience awakened his interest in the study of the cultures and ways of life of other peoples, gradually leading him to Anthropology.

After teaching Geography in Germany, Boas emigrated to the United States. Since he did not find an already structured Anthropology program there, he ended up helping to build the discipline itself. In 1899, he became the first official professor of Anthropology at Columbia University in New York, where he founded the first independent department in the field in the United States.

The Genesis of Dogma: Cultural Relativism in Anthropology

Boas opposed the main currents that dominated Anthropology in his time, especially cultural evolutionism and Social Darwinism. He also challenged the theories of authors such as Arthur de Gobineau and Francis Galton, which were often used to defend racial and cultural hierarchies.

These ideas were appropriated by racist and colonialist sectors to justify discourses of European superiority and imperial policies. Boas considered this political use of science dangerous. For that reason, he sought to develop an Anthropology based on observation, comparison, and the study of cultures within their own context.

It was in this framework that historical particularism gained importance, according to which each culture must be understood from its specific history, and cultural relativism, which recommends studying each society without automatically judging it by the standards of another.

Boas thus fought biological determinism as applied to races. The idea that differences among peoples determined their intelligence, behavior, or degree of civilization served for decades to legitimize racism and colonialism.

This does not mean, however, that biology is irrelevant. There are biological differences between men and women, especially in reproduction. Only women can become pregnant, give birth, and breastfeed. But these differences do not mean that one sex is superior to the other, nor do they determine, by themselves, all behaviors, abilities, or social roles.

Biology sets certain physical conditions and limits; culture, education, the social environment, and economic conditions influence the way individuals live and interpret those differences. Confusing one thing with the other leads both to biological determinism and to the denial of any influence of biology.

Boas was also a defender of human rights, social justice, workers, minorities, and women. He identified with a democratic and moderate left. His humanist and progressive thinking influenced his academic work, but that does not mean he saw science as a mere instrument of political propaganda.

The Professor and the Student: Different Paths

Franz Boas was Margaret Mead’s mentor and thesis advisor at Columbia University. Mead would become one of the best-known figures of the second generation of American Cultural Anthropology.

Her most famous study, Coming of Age in Samoa, published in 1928, sought to show that the conflicts and frustrations of Western adolescents were not necessarily universal. According to Mead, many of these behaviors could be linked to the cultural and social environment in which young people grew up.

The book had enormous influence, but it was also strongly contested. Decades later, anthropologist Derek Freeman accused Mead of methodological errors and of presenting an overly idealized image of Samoan society. The debate over the validity of her conclusions remains one of the best-known episodes in the history of Anthropology (Freeman, 1983).

Regardless of how one evaluates Mead’s work, her ideas had a huge impact. They were used to support the thesis that masculinity and femininity are not determined only by biology, but also by the norms, expectations, and institutions of each society.

It is important, however, to distinguish Boas’s work from Mead’s intellectual and political path.

Boas presented cultural relativism mainly as a method of investigation. His aim was to understand each culture within its own context and to combat racial theories that sought to establish a hierarchy among peoples. For him, the capacity of human beings to adapt showed that there were no biologically superior or inferior races.

Margaret Mead, on the other hand, used her anthropological studies to intervene in Western social debates. Her research had a clearly reformist, feminist, and progressive dimension. Mead did not simply describe other societies: she also sought to question Western customs and institutions.

That concern is visible in Sex and Temperament in Three Primitive Societies, published in 1935. In Papua New Guinea, Mead studied three societies: the Arapesh, whom she described as peaceful and cooperative; the Mundugumor, presented as aggressive; and the Tchambuli, in whom she identified gender roles different from those dominant in the West.

Mead’s conclusion was that behaviors associated with masculine and feminine roles varied significantly across cultures. Therefore, they could not be explained solely by anatomy or biological sex.

This thesis contributed to the debates of second-wave feminism. At the same time, it opened the way to later interpretations that came to consider gender roles almost exclusively as social constructions. It is at this point that some authors identify one of the intellectual origins of contemporary gender theories.

The difference between Boas and Mead can be summarized as follows: Boas sought to use science to combat racism and biological determinism; Mead went further and used Anthropology as an instrument of criticism and transformation of Western society.

From Anthropology to Gender Theory

After the Second World War, several ideas associated with cultural relativism and the rejection of biological determinism began to influence Western social sciences. The notion that identity and social roles are shaped by culture gained increasing importance.

In the 1950s and 1960s, researchers such as John Money and Robert Stoller established a distinction between sex and gender. Sex came to be understood mainly as an anatomical and biological reality, while gender was associated with psychological identity, social experience, and the roles assigned to men and women.

During the 1970s and 1980s, second-wave feminism and various sociological currents further developed this perspective. Authors influenced by constructivist ideas, including Simone de Beauvoir, argued that many roles traditionally assigned to women were neither natural nor inevitable, but social constructions that could be transformed.

Later, Queer Theory added new concepts to this debate, such as performativity. Some of its branches began to argue that even the interpretation of biological sex is influenced by language, institutions, and cultural codes.

These theories had an impact in academia, the media, and politics. For their defenders, they helped question prejudice and protect minorities. For their critics, they eventually went beyond scientific analysis and became an ideological vision of society, identity, and language.

It is in this context that the expression “gender ideology” emerged, used mainly by conservative sectors to criticize the idea that masculine and feminine roles are entirely fluid and defined by culture. The expression is rejected by many researchers and progressive activists, who prefer to speak of gender studies or gender theory.

More than settling the dispute through labels, it is important to understand how a scientific hypothesis becomes, over time, a political position. The problem is not studying the influence of culture on human behavior. The problem arises when a theory is presented as a total explanation of reality and no longer admits data or arguments that challenge it.

The New Left and New Cultural Conflicts

Progressive movements appropriated some ideas from historical particularism and cultural relativism to develop three main lines of criticism:

  1. The questioning of Eurocentrism, European colonialism, and American imperialism.

  2. The rejection of racism and of theories that attributed intellectual or moral characteristics to human groups on the basis of biology.

  3. The criticism of the traditional values of Western society and the defense of multiculturalism and minority rights.

Classical Marxism had not originally placed these questions at the center of its doctrine. For much of its history, it focused primarily on class struggle and economic relations. It was from the late 1960s and early 1970s onward that the so-called New Left began to move away from orthodox Marxism and traditional social democracy. It successfully applied the Gramscian strategy of cultural hegemony, replacing the economic class struggle with an 'identity struggle,' thereby abandoning the working class, which today feels betrayed by the Left..

Influenced by post-structuralism, anti-colonialism, and new social theories, part of the left shifted attention away from the economy toward themes related to identity, race, gender, sexuality, religion, and language.

This shift brought important gains, especially in exposing discrimination and defending marginalized groups. But it also created difficult dilemmas.

One of the main problems appears when cultural relativism is taken to the extreme. If every practice must be understood exclusively within its own culture, how should one assess acts that violate fundamental rights? Female genital mutilation and the oppression of women, for example, do not become less serious because they occur in a society different from the West.

The universality of human rights enters here into tension with certain forms of relativism. In a rule-of-law state, the law must apply equally to all citizens. If rights and duties vary according to ethnicity, religion, or culture, equality before the law is put at risk.

Boas’s historical particularism argued that each culture has its own trajectory. In contemporary political debate, this idea was sometimes transformed into a kind of identitarian essentialism. According to this view, only members of a given group would have legitimacy to speak, create, or research about that group.

This is what happens in some discussions about “cultural appropriation.” Concern about the exploitation or caricature of minority cultures may be legitimate. However, claiming that only those who belong to a community can study or represent that community creates a problem for academic, artistic, and intellectual freedom.

Historical, anthropological, biological, and geological facts do not belong exclusively to any group. They can be studied by anyone, provided it is done with competence, honesty, and respect for the evidence.

If Boas used relativism as a method to free science from racism and colonialism, he would probably today criticize some political uses of his concepts. A scientific methodology should not be turned into a closed doctrine.

Gramsci and the New Cultural Hegemony

There is a link between the New Left's emphasis on culture and the thought of Antonio Gramsci. The Italian philosopher argued that political transformation did not depend solely on an economic revolution or a direct insurrection. According to Gramsci, revolution should not be achieved by storming the seat of government by force, but rather by conquering 'cultural trenches and creating a new cultural hegemony..

Gramsci distinguished between “war of movement,” associated with direct confrontation, and “war of position,” based on the gradual transformation of society. This transformation would take place through the conquest of spaces of influence such as universities, the press, schools, the arts, and other cultural institutions (Gramsci, 1971).

It is precisely within this 'war of position' that the social engineering promoted by political parties and ideologues manifests itself. By utilizing the educational apparatus, academic curricula, and artistic production, these actors carry out a deliberate and planned effort to reshape the values, language, and attitudes of the population. The objective is no longer the conquest of the State through force, but rather the re-engineering of social behavior, aligning the collective mindset with the new ideological matrix even before any legislative change occurs

The central idea was that power is maintained not only through force or laws. It is also reproduced through values, habits, ideas, and worldviews that a society takes as normal.

The New Left combined this cultural strategy with ideas associated with Boas and Mead. Many elements that Western society considered natural or universal — such as certain gender roles, family forms, or patterns of behavior — came to be analyzed as historical and social constructions.

Gramsci called “superstructure” the set of institutions and ideas that help reproduce the social order. In the reading adopted by some sectors of the New Left, the university, the media, the arts, and the school became central arenas of political struggle.

The defense of human rights and the fight against discrimination thus came to coexist with a broader project of cultural transformation. The issue was no longer simply ensuring that everyone was treated equally. It also came to include the alteration of language, curricula, symbols, and social norms.

This is the point at which critics identify the risk of a new form of orthodoxy. A theory born to combat dogmas can itself become a dogma when it no longer tolerates doubt, criticism, or contradictory inquiry (Lukianoff & Haidt, 2018).

In the West, most people now view this phenomenon of social engineering with deep distrust. From this perspective, the imposition of 'gender-neutral language' or compulsory pronouns does not aim for inclusion, but rather the dismantling of society's cognitive structure and the punishment of dissent through the so-called Cancel Culture. Cultural relativism, as proposed by Boas, originally emerged in a context where science was used to justify racismBoas's cultural relativism emerged in a context where science was used to justify racism, colonialism, and the superiority of certain peoples. His goal was precisely to free knowledge from such political manipulation (which in his time was far-right and today is Left-wing).

Today, however, some of his concepts are used to defend political positions that also seek to control language, set limits on debate, and determine who has authority to speak on certain topics.

Boas’s lesson should be another one: science must serve no ideology, whether from the far right, the radical left, or any other political current. It must study the facts, recognize human complexity, and remain open to revision.

What began as an attempt to free science from ideological instrumentalization may end up producing a new academic dogmatism. When research stops seeking truth and begins protecting a certain narrative, science ceases to be science and becomes propaganda.


References

  • Butler, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

  • Freeman, Derek. Margaret Mead and Samoa: The Making and Unmaking of an Anthropological Myth. Cambridge: Harvard University Press, 1983.

  • Gramsci, Antonio. Selections from the Prison Notebooks. Edited and translated by Quentin Hoare and Geoffrey Nowell Smith. New York: International Publishers, 1971.

  • Lukianoff, Greg; Haidt, Jonathan. The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure. New York: Penguin Press, 2018.

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964. Com uma trajetória marcada pela vivência cultural e profissional entre Portugal e o Brasil, desenvolveu um olhar plural e sensível sobre as dinâmicas sociais e históricas. É licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). Pesquisador independente e estudioso autodidata do idioma hebraico, dedica-se há quase duas décadas à produção de conteúdo de cariz humanista, sendo o criador dos espaços digitais Etcetera e Conhecer o Judaísmo. Autor de diversas obras que transitam pela ciência política, poesia e espiritualidade, Filipe alia o rigor da investigação documental a uma profunda empatia analítica, oferecendo reflexões que fogem de julgamentos fáceis e priorizam a compreensão histórica.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. With a career marked by cultural and professional experiences between Portugal and Brazil, he developed a plural and sensitive gaze on social and historical dynamics. He holds a bachelor's degree in Social Work from the Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Universidade de Lisboa, and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities from the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH/UNL). An independent researcher and self-taught scholar of the Hebrew language, he has dedicated himself for nearly two decades to producing humanist content, being the creator of the digital spaces Etcetera and Conhecer o Judaísmo. Author of several works spanning political science, poetry, and spirituality, Filipe combines the rigor of documentary research with a deep analytical empathy, offering reflections that avoid easy judgments and prioritize historical understanding.

 
Projeto gráfico pela Free WordPress Themes | Tema desenvolvido por 'Lasantha' - 'Premium Blogger Themes' | GreenGeeks Review