10 ANOS

Desde julho de 2007 a debater ideias e a defender causas.

domingo, 27 de abril de 2014

25 de Abril 40 anos depois.


Hoje em Portugal, passados 40 anos da Revolução vemos pessoas que falam do 25 de Abril de um modo tímido, ou com receio de ferir suscetibilidades, acerca do passado, e cada vez mais fazem parecer que se está no 24 de Abril, sobre tudo falam com muito cuidado, mas afinal medo de quê, da verdade ou da frontalidade com o que de facto se pensa e crê, mesmo correndo o risco de se estar errado, ligeiramente errado, ou errado de todo? Ou falta-lhes a coragem de defender um regime de exceção, ou da desilusão de uma democracia que parece ter construído uma sociedade que não é para todos igual? Ora a liberdade de expressão e de pensamento são componentes inalienáveis a uma verdadeira cidadania, da qual se faz verdadeiramente um país. Passo pois a citar o que deveras se comemora hoje passados 40 anos do 25 de abril de 1974, e falo do que de facto é para mim a Revolução dos Cravos, mesmo correndo o risco de estar errado, não o correrei certamente, no que vivi e presenciei.
O 25 de Abril não foi em si mesmo mau ou bom, foi antes a consequência inevitável da inércia política de Marcello Caetano, em democratizar o país e acabar com a guerra colonial que se arrastava desde 1961 nas possessões portuguesas em África, em particular a Guiné Portuguesa, Moçambique e Angola, e alias como o próprio Marcello Caetano havia prometido ao país em setembro de 1968, quando tomou posse após o afastamento de Salazar por doença grave, nessa data Caetano iniciara então o que veio a chamar-se de Primavera Marcellista.
Do mesmo modo não tento aqui denegrir a imagem do último Presidente do Concelho do Estado Novo, mas de fazer justiça à história, Marcello Caetano era um homem culto, e de grande competência no Direito Internacional, no entanto não era hábil politicamente, muito embora inicialmente tivesse tido objetivos claramente positivos na tentativa de modernizar o país algo que em parte fez, com o Projeto turístico de Vila Moura, no Algarve, e com o desenvolvimento exponencial do Complexo Industrial de Sines, sem falar claro nos PND's Planos Nacionais de Desenvolvimento, planos quinquenais, e que marcaram essa tentativa de um Milagre Económico Português, que se revelavam infrutíferos devido à despesa pública que a Guerra Colonial impunha ao país, na sangria de nossos jovens nos campos de combate no Ultramar, e na emigração em massa, dos que fugiam não só da pobreza mas da guerra.
É também de salientar a tentativa de promover a aceitação de Portugal junto aos seus aliados, como o Brasil, (visita triunfal em 1972 aquando da entrega dos restos mortais de D. Pedro I)  e com os vizinhos Europeus do qual sai o descalabro da visita ao Reino Unido em 1973, afetada pelo escândalo do Massacre de Wiriamu em Moçambique, sem falar do caso da Capela do Rato, em que forma presos personalidades como Francisco Pereira de Moura e Jorge Sampaio, ou ainda das eleições legislativas de 1973 em que a CDE Comissão Democrática Eleitoral, retirara-se da corrida eleitoral, e a ANP Ação Nacional Popular concorre sozinha, tão ao jeito de regimes de exceção ou mesmo partido único.
Claro está que após o 25 de Abril, houve consequências, das quais se sucederam em fenómenos maus e até traumáticos para a sociedade portuguesa, tal como ocorreria em qualquer processo revolucionário, foi assim com a Revolução Francesa, foi igualmente traumático a Revolução da Industrial, que imensas transformações trouxe à nova sociedade nascida dos escombros da sociedade agrícola, e também foi traumática a Revolução de 5 de Outubro de 1910, que trouxe ao país um desequilíbrio no âmbito político, económico e social.
E isso deve-se sobretudo a traumas, decorrentes da acirrada luta pelo poder, feitos na dicotomia esquerda x direita, sendo que na altura pairava sobre toda o Mundo a aura da Guerra Fria, o que estava em jogo era saber, e também decidir para que lado pendia o novo regime, e por vezes o país quase saiu de uma ditadura para ingressar outra, sem falar que no Verão quente, contam-se as espingardas, e no 25 de novembro de 1975, a ultima cartada foi jogada, colocando o país à beira da Guerra Civil, ou mesmo da divisão do país em dois.
Contudo não ponho em causa, o modo errado como as colónias foram libertadas, mas não nos podemos esquecer que Salazar votou o nosso país ao total atraso económico, social e até político do ponto de vista internacional. O 25 de abril veio permitir assim, tentar corrigir esses erros, claro que no entanto e como eu disse antes, Quarenta Anos depois, os ideais foram esquecidos, as conquistas de Abril perderam-se e a democracia não chegou a atingir o seu ápice; As gerações mais novas não lhe dão hoje o devido valor, pois não sabem o sabor da liberdade, no exato momento em que se a conquistou e não sabem ver nos sinais mais atuais o perigo de se a perder de novo, sem sequer darmos por isso.
Comemorar abril, não é comemorar os erros que foram feitos, comemorar abril é lembrar que hoje a liberdade é uma responsabilidade de cada um, como cidadão e que o futuro do nosso país passa indubitavelmente pela nossa responsabilidade. Sobretudo quando paira sobre a Europa o perigo do renascer do neofascismo e da extrema-direita que cada vez mais ganha força, com discursos racistas, antissemitas e xenófobos.


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

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