quinta-feira, 14 de abril de 2016

Globalização ou o Fim da Democracia - I

A Globalização e o liberalismo
A Globalização e o liberalismo estão a alterar os papeis entre a politica e a economia, pois submetem o papel do Estado (antes um regulador) aos grandes conglomerados económicos e financeiros (antes meros agentes).
A GLOBALIZAÇÃO não é propriamente dito exequível com um governo soberano que queria respeitar um programa de governo pelo qual fora eleito, isto porque vai contra a lógica da economia dos mercado financeiros e de grupos poderosos que tem margens anuais de lucros superiores ao PIB de países como Grécia, Irlanda e Portugal por exemplo (países que pediram resgate ao FMI e que sofreram a intervenção da Troika).
Neste sentido, pode-se observar que a democracia está a ser usada apenas como plataforma de implementação dos interesses dos grandes conglomerados, quer seja pelo Poder Executivo (governo), quer pelo legislativo e não raras vezes também pelo judiciário, ao qual cabe a responsabilidade pelo cumprimento legal, pela fiscalização das reformas implementadas, feitas através de politicas que visam reformas económicas, sociais e financeiras profundas, claramente com o intuito de retirar e afastar o Estado tanto do seu papel regulador como da sua presença em setores como a banca, os transportes públicos, as comunicações, correios, saúde, educação, energia e saneamento básico, mesmo que alguns dêem lucro, setores esses que se supõe a necessária participação de capitais públicos; posto isto, temos que as reformas liberais levadas a cabo interferem também no mercado de trabalho através de alterações à legislação laboral fragilizando os trabalhadores, bem como pela redução dos ordenados no mercado de trabalho e o fim dos apoios sociais, os quais têm vindo a gerar graves consequências sociais consideráveis, como desemprego de longa duração, emigração, empobrecimento das faixas mais idosas da população e o consequente agravamento da insustentabilidade da segurança social, que choca com o apoio estatal à banca falida, através de dinheiro público saído do bolso dos contribuintes.
O problema é morder o isco.
Um fator importante que visa essa inversão e que deve ser observado com atenção é a corrupção, por outras palavras é o isco que faltava para a implosão da democracia que tanto demorou a construir, minando um dos alicerces fundamentais que é a confiança dos cidadãos eleitores, somando-se a isto temos o quarto poder, o da imprensa com a sua voracidade em derrubar lideres e a promover outros, sobra assim, apenas um regime em que o cidadão limita-se a escolher quem é que vai exercer o cargo, não interessa se será do partido A ou do B, se é o cidadão C ou o D, acabam todos por ter de cumprir as normativas que vêm de cima, de acordo com interesses empresariais ou económicos, que são por sua vez as Multinacionais, as Agências de Rating e os Mercados Comuns como a UE, a NAFTA, Asean, entre outros, pelo que se transforma um Estado de Direito e soberano num Estado Vassalo, ou uma mera zona geográfica, como se de um simples mapa empresarial de zonas comerciais se tratasse.
A máquina que põe tudo isso a funcionar, é sem sombra de duvida a corrupção, é esse aliás o isco como acima referido, e como vem a provar as recentes revelações dos Papeis do Panamá, que é o de corromper, comprar e deixar cair na rua pela denúncia os politicos, os partidos, para desacreditar na opinião pública, não so a esquerda e a direita, mas sim todo um sistema político.
Claro que pode-se afirmar em Ciência Política que a politica é a luta pela conquista e pela manutenção do poder, mas a corrupção muda tudo isto, e o jogo politico hoje mudou de palco, não é no palanque de um líder, mas sim no escritório de um CEO, não é a falar de ideias e causas, mas sim de valores e ganhos, ou seja, por outras palavras, a Economia impôs-se à politica.
O Brasil, Portugal, Grécia e outros países que se submetem a obedecer a agenda da globalização de conglomerados e do FMI, são países cobaias, onde se verifica já, se não o fim da democracia, pelo menos uma metamorfose que visa alterar a sua função politica, para uma função meramente executiva dos interesses estabelecidos pelos mercados financeiros.
Mas porque o fim da democracia?
Os partidos continuarão a existir, e haverá eleições, contudo os governos saídos de uma Parlamento eleito não conseguirão promover reformas substanciais, tal como se observou em Portugal, quando a Troika impôs a qualquer partido e em qualquer governo as normas que devem ser cumpridas, que não podem ficar aquém das expectativas dos organismos executivos como o Eurogrupo, o FMI ou o Concelho da Europa.
Voltando atrás no tempo, quando nos anos 60 ou 70, nos países democráticos, haviam eleições, votavam-se em programas eleitorais, vimos por exemplo o caso de França em que François Mitterrand do PS, implementou uma série de reformas estruturais socializantes, ou do lado contrário, governos de direita como o de Margaret Thatcher, que impôs a privatização feroz, a luta contra os sindicatos dos mineiros e a implementação da sua politica ultra-liberal.
Hoje, não se passa assim, nos países que fazem parte da UE União Europeia por exemplo, temos um parlamento europeu que não é deliberativo e nem legislativo mas sim normativo, e temos um núcleo duro que é a Comissão Europeia, que por outras palavras é o Governo Central da Europa, de onde emanam as diretivas aos países membros, tal como o que ocorreu com a Grécia que tentou mudar o jogo, mas teve de se vergar.
Ao que parece, a Europa só não aceitou as condições que foram sugeridas pelo governo de Tsipras, porque entendia que aqueles politicos de esquerda, não poderiam influenciar o resto da Europa, entenderam que era preciso verga-los e não permitir que fossem um exemplo a seguir, e isto aconteceu mesmo depois do referendo no qual os gregos rejeitaram as politicas de austeridade da Troika, foi aqui que se viu de facto quais são as cartas em cima da mesa e quem domina o jogo, pois as mesmas propostas teriam sido aceites se os proponentes fossem da ND Nova Democracia (de direita) ou o PASOK Partido Socialista Grego (de centro-esquerda) partidos amigos ou europeístas.
Portanto conclui-se, que ao elegermos democraticamente um parlamento do qual sairá um governo, os programas eleitorais não serão implementados porque as politicas impostas não não o permitem, embora as respectivas diretivas nem sequer tenham sido escrutinadas pelos demais cidadãos europeus, torna esta prática centralizadora um ato político antidemocrático, que limita o ato de votar de cada cidadão numa simples cerimónia secundária.
É um novo colonialismo, uma nova ditadura? perguntam alguns; Mas penso que talvez nem seja isso, mas mais do que isso, uma subversão doce, disfarçada e colorida de um sistema, as pessoas, os povos a serviço de interesses poderosos, mas de forma totalmente desvinculada de humanismo e preocupações sociais.

> Continua no próximo post: Globalização ou o Fim da Democracia - II

Autor Filipe de Freitas Leal


Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Habitação Social e a Crise Económica

Habitação Social, é quando nos referimos a uma habitação a custos controlados, e também de um mundo vasto de conceitos, que vão da arquitetura urbanista à requalificação de bairros, mas também de urbanizações feitas por intervenção de políticas sociais que visam dar resposta a um crescente número de pessoas carenciadas que lhes falta o teto e os recursos.
A demanda da habitação social é bem maior hoje do que a oferta, devido em grande parte à crise económica que se agravou desde 2008 e piorou ainda mais com as medidas de austeridade que visavam corrigir os gastos públicos, mas acabaram por gerar um fosso social sem precedentes na História recente de Portugal, geraram o empobrecimento dos reformados/aposentados, geraram hordas de desempregados, e atiraram os jovens para a emigração em massa para outros países, sem recursos as pessoas foram perdendo as casas que haviam comprado ao bancos, de tal ordem que o novo governo socialista teve de mudar as regras do jogo para salvar as famílias mais necessitadas, e dos desempregados que acima dos 50 anos de idade já não conseguem encontrar emprego e aguardam uma reforma/aposentadoria antecipada, pelo que a procura por habitações sociais não para de aumentar.
Os dados da Habitação social são drásticos, cerca de 80% é controlado pelas autarquias locais, que não tem vindo a construir mais habitação social por falta de fundos quer do governo central quer da UE. Sendo as principais cidades com habitação social Lisboa, Porto, Gaia, Matosinhos, Sintra, Coimbra, Amadora, entre outras.
Denominada pelos organismos oficiais como HCC Habitação de Custos Controlados, é um tipo de habitação que tem um parque com 98% dos fogos (casas) habitacionais com mais de 30 anos, apenas um total de 11% foi construído há dez anos ou menos, não oferecendo as condições desejáveis de confortabilidade, ainda que os alugueis tenham em média valores que vão de 40,00 € a 60,00 €.
Hoje mais do que nunca, e devido ao envelhecimento populacional, ao empobrecimento da população com baixos rendimentos ou pensões, faz-se necessário ter em conta novas políticas sociais voltadas para a habitação, mas que sejam sobretudo baseadas na reinserção e na inclusão social.


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Umberto Eco - O Escritor que Repensou a Europa.

Quando um escritor morre, deixa-nos tristes, e com uma sensação de termos ficado mais pobres, embora herdando a riqueza do conjunto da sua obra, normalmente quando alguém que gostamos muito morre, até os dias ficam nublados, cinzentos e chuvosos.
No entanto quando  eu soube da noticia de que Umberto Eco morrera aos 84 anos, estava um lindo dia em Lisboa, havia o frio de inverno mas com sol, luz e cor, talvez fosse assim que o autor de O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault (os seus livros mais famosos) desejasse partir, num dia onde todos os lugares houvesse bom tempo, um belo dia, e no lugar da angústia e da perda, sobressaísse a luz da gratidão pela importância que teve, e não apenas pelos seus livros, mas também pelo seu pensamento como contributo para repensarmos a Europa, a cultura e a língua como instrumento social e reflexo do simbólico que ele nos revelou.
O pensamento genuíno e lúcido do escritor, filósofo e linguista Umberto Eco, foi um pensamento de um homem que não poderia ser um Eco do que os outros diziam ou pensavam, ele foi na realidade o eco do seu próprio pensamento e a voz dos atores do passado histórico, que conviveram com a paz e a guerra, o profano e o sagrado, o mito e o simbólico, e tudo isso em retratado nos seus livros, em artigos de revistas, em entrevistas e em conferências nas quais revelava a alma da Europa tal como a via.
Li uma das suas entrevistas, na qual debruçava-se sobre a questão das migrações, e em particular do movimento migratório dos refugiados sírios, e não me esquecerei o modo lúcido como abordou o tema, dizendo que não estamos habituados a que haja migrações, mas a Europa é toda ela o resultado de vária migrações ao longo de milénios, e afirmou ainda que a Europa está a mudar de cor, será uma Europa morena, e haverá uma nova cultura que suplantará a nossa cultura atual, que já de si, não é a mesma do tempo dos nossos pais ou avós. Todo este processo é normal, traumático, natural e inevitável.
As suas citações também foram famosas pelo mundo fora, e sobretudo expandiram-se pelas redes sociais, tais como O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê".
Umas das mais interessantes e curiosas citações de Umberto Eco é referente aos judeus, onde diz que se trata de um povo inimigo dos imbecis: “Os judeus são os guardiões da civilização do livro e da cultura, e ainda que não vivamos mais nos tempos de Rothschild e que muitas diferenças na sociedade contemporânea sejam menos acentuadas, as diferenças deixaram sua marca. Por isso, seria difícil para os imbecis encontrar um inimigo melhor. O judeu serve para aqueles que sofrem de uma identidade fraca, ontem como hoje”.

Abaixo livros de Umberto Eco.
 O Nome da Rosa
 O Pêndulo de Foucault

Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Herança Sefardita na Genética da População Portuguesa Comtemporânea


Resumo
Este artigo analisa a presença e o impacto da herança genética e cultural dos judeus sefarditas na demografia portuguesa contemporânea. A partir de estudos na área da genética populacional e de revisões historiográficas, discute-se o processo de integração e assimilação forçada das comunidades judaicas a partir do final do século XV. O estudo reitera a complexidade da identidade ibérica, marcada pelo fenómeno dos cristãos-novos, cujos reflexos persistem na cultura material e imaterial do Portugal moderno.

1. Introdução
Portugal é historicamente reconhecido como uma das nações de matriz católica mais homogéneas da Europa Ocidental. Contudo, investigações contemporâneas no campo da paleogenética e da história social têm demonstrado que a composição demográfica do país possui uma profunda e complexa raiz multicultural. Entre os diferentes povos que moldaram o panorama populacional da Península Ibérica, a comunidade judaica sefardita assume um papel de destaque, embora grande parte desta herança permaneça desconhecida do público geral.
2. Evidências Genéticas da Ascendência Sefardita
A validação científica da forte presença judaica na linhagem biológica portuguesa ganhou tração com estudos de genética populacional baseados no mapeamento do cromossoma Y (linhagem masculina). Um dos marcos nesta investigação foi o estudo internacional publicado na revista científica American Journal of Human Genetics (2008), liderado por investigadores da Universidade de Leicester e que contou com a colaboração de várias entidades internacionais.
Os dados obtidos indicam que:
  • Média na Península Ibérica: Cerca de 19,8% dos habitantes da Península Ibérica moderna possuem marcadores genéticos associados a ancestrais judeus sefarditas. Outros 10,6% demonstram linhagem ligada a populações do Norte de África (árabes e berberes).
  • Assimetria Geográfica: A distribuição deste legado não é uniforme. O estudo identificou que, em determinadas regiões do sul de Portugal, a concentração de marcadores genéticos de origem sefardita atinge picos de aproximadamente 36,3% da amostra masculina.
Estes dados empíricos demonstram que, apesar dos séculos de homogeneização religiosa provocada pela Inquisição, a herança biológica das minorias religiosas foi amplamente preservada no património genético nacional.
3. Fatores Históricos de Dispersão e Assimilação
A fixação e posterior diluição da população judaica na região decorreu de três momentos históricos críticos:
  1. A Diáspora no Império Romano: O povoamento inicial intensificou-se após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelas forças romanas, que forçou o deslocamento de populações judaicas para os confins do Império, incluindo a província da Lusitânia.
  2. O Período do Al-Andalus: Durante a vigência do domínio islâmico na Península Ibérica (a partir do século VIII), as comunidades judaicas usufruíram de um estatuto de relativa tolerância religiosa e autonomia jurídica. Em centros urbanos como Lisboa, a população judaica chegou a ter uma densidade demográfica expressiva. Sob a influência cultural islâmica, muitos sábios judeus adotaram a língua árabe. É o caso do filósofo e médico Maimónides, que redigiu em judaico-árabe a sua célebre obra filosófica O Guia dos Perplexos (e não o Sepher HaZohar, que pertence à tradição da Cabala e foi escrito em aramaico e hebraico).
  3. A Conversão Forçada e o Édito de 1496: O momento de maior impacto demográfico ocorreu com o decreto de expulsão ou conversão forçada promulgado por D. Manuel I em 1496. Centenas de milhares de indivíduos foram batizados à força, dando origem à classe social dos cristãos-novos.
4. Marcas Culturais e a Questão dos Apelidos
A transição forçada para o cristianismo forçou os antigos judeus a camuflar as suas práticas religiosas originárias. Na culinária, este fenómeno deu origem à criação de enchidos como a alheira e a farinheira. Produzidos originalmente com carne de aves e pão, estes alimentos simulavam o consumo de carne de porco (proibida pela lei judaica), servindo de estratégia de proteção contra as denúncias de criptojudaísmo entregues ao Tribunal do Santo Ofício.
No que concerne à onomástica, a tradição popular portuguesa defende empiricamente que apelidos associados a elementos da flora (como Oliveira, Pereira ou Carvalho) denotam uma linhagem exclusivamente judaica. Contudo, a historiografia moderna relativiza esta premissa. Os cristãos-novos adotavam os apelidos já existentes na sociedade da época, muitas vezes apadrinhados por famílias da velha nobreza católica, o que torna impossível determinar a ascendência judaica com base apenas no apelido de uma família.
5. Conclusão
Embora a identidade sefardita tenha sido historicamente silenciada ou marginalizada, diversas figuras proeminentes da história e cultura portuguesa contemporânea assumiram e investigaram as suas raízes hebraicas. Exemplos notáveis incluem os antigos Presidentes da República Jorge Sampaio, o capitão Barros Basto, e os escritores Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco. A convergência entre a investigação documental e a biologia molecular moderna comprova que a história portuguesa é indissociável da matriz sefardita, cuja herança permanece viva na cultura e na genética do país.

Referências Bibliográficas
  • ADAMS, Susan M. et al. (2008). The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula. The American Journal of Human Genetics, v. 83, n. 6, p. 725-736.
  • MAIMÓNIDES, Moisés. O Guia dos Perplexos. (Tradução e notas). Introdução à filosofia medieval judaica.
  • TAVARES, Maria José Pimenta Ferro. Os Judeus em Portugal no Século XIV. Lisboa: Guimarães Editores, 1982.



Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

As Origens e a História do Idioma Hebraico

O Hebraico é uma língua semítica, falada por aproximadamente dez milhões de pessoas em todo o mundo, é atualmente oficial em Israel, e é falada em comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, é além disso utilizada como língua litúrgica da religião judaica.
Trata-se de uma língua do ramo afro-asiático, semítico e cananeu, que se desenvolveu no oriente-médio, mais precisamente na antiga Judeia, o termo hebraico, vem de hebreu, o povo que veio da Babilónia, atravessou o rio Jordão e se estabeleceu em Canaã, mais tarde, migra para o Egito e de lá sob a liderança de Moisés (Moshê) e Aarão (Aaron), sai à conquista da Terra Prometida já sob a liderança de Josué (Yeoshua), é nessa terra recém conquistada que se desenvolve o hebraico, ou seja aproximadamente há cerca de 3.500 anos.
O hebraico começou por ser um dialeto que surgiu de idiomas do Crescente Fértil da Mesopotâmia, e recebeu diretamente influencia do Fenício, mais tarde, outros dialetos que se desenvolveram de igual modo, assemelham-se muito ao hebraico, é o caso do aramaico, há também semelhanças com outras línguas semitas.
Para se estudar e compreender a história do idioma hebraico, divide-se a mesma em períodos ou fases,[1] atualmente as pessoas conhecem a divisão simples, por Hebraico Bíblico e por Hebraico Moderno, mas na realidade é mais complexo e profundo, pelo que temos os seguintes períodos, a saber:

  • Período Arcaico, no qual se escreveu a Torá ou partes da mesma, que vai do Século XIII ao Século X. AEC (Antes da Era Comum).
  • Período Clássico, que vai do Século X ao Século VI AEC, no qual foi escrito Josué, Juízes, I e II livros de Samuel, entre outros.
  • Hebraico Tardio, vai do Século VI ao II AEC, nos quais se escreveu, Rute, Esther, Crónicas, entre outros.
  • Período de Qumran, do Século II AEC ao Século II EC. Desenvolvimento da Tanack.
  • Período Talmúdico, do Século II ao X, EC, desenvolvimento do Talmud, tanto da Mishná (repetição) como da Guemará (complemento).
  • Período Medieval, Séculos X a XV, onde se desenvolveu a Cabala, livros como o Zohar, dos escritos e Maimonides, Rashi entre outros sábios, e é o período no qual  foram criados os sinais massoréticos, que preservam os sons vocálicos do hebraico.
  • Período Moderno, o hebraico tal como se fala hoje em Israel.
O hebraico como qualquer outro idioma, sofreu a influencia de outros idiomas, que se impuseram no território da Judeia, como o grego, e o latim, contudo após a Guerra Romano-Judaica, de Bar Kockba em 138 da EC, os judeus foram expulsos da sua terra, ficando apenas um remanescente, a diáspora deu-se por todas as províncias do Império Romano, da Anatólia a Sefarad (Hispânia, que hoje são a Espanha e Portugal) indo ao norte da Europa a Germânia e a Gália. A realidade da diáspora era a de um judaísmo sem o Templo que havia sido destruído, e portanto sem os sacerdotes e os serviços litúrgicos do II Templo, dito de Herodes, restaram apenas os rabis ou os cohanim (sacerdotes) que passaram a fazer o papel de rabbis na instrução das comunidades da diáspora.
No I Século da EC. Já a população da Judeia não falava hebraico, apenas os cohanim, os escribas e os rabbis é que o sabiam ler, escrever e falar, e foram eles que perpetuaram a língua sagrada da Tora até aos nossos dias, o hebraico foi-se perdendo pouco a pouco, até ser considerada uma língua morta.
No lugar do hebraico desaparecido, ou no que se tornou o hebraico, senão uma língua meramente litúrgica e com caracteres hieroglíficos, ou seja escrita sagrada, surgiram dois importantes idiomas, um é o ladino, uma língua românica cuja raiz gramatical é semelhante ao castellano, utilizava os caracteres hebraicos com fonética e palavras oriundas do castellano, tendo sido falada nas comunidades judaicas de Sefarad (Portugal e Espanha) precisamente pelos judeus sefarditas, que foram expulsos de Espanha em 1492 pelo decreto de Alhambra, tendo a maioria se refugiado em Portugal, mas o rei de Portugal D. Manuel I, vê-se obrigado a aceitar a imposição dos reis católicos de Espanha Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que por um tratado de paz, e aliança por meio de um casamento, exigem do rei de Portugal a expulsão dos judeus, como forma de uma limpeza étnica, religiosa e cultural no seio da cristandade. Assim em 1497, os judeus são expulsos de Portugal, indo inicialmente para o Império Otomano, onde é hoje a Turquia, a Holanda, onde foram morar os pais do filósofo Espinosa, e outros foram para Inglaterra, da Holanda rumaram para o Novo Mundo, onde a Primeira Sinagoga em solo estadunidense foi feita por judeus portugueses, levando o idioma ladino, tanto na liturgia como na música.
No norte da Europa, mais precisamente onde é hoje a Alemanha, surgiu um idioma judaico, denominado de Ydish, falado pelos judeus askenazim, termo que deriva de Askenaz, que significa precisamente Alemanha, portanto o Ydish é um idioma judaico que utiliza os caracteres hebraicos, tendo a fonética germânica.
Devido ao desaparecimento do hebraico como lingua viva, ou seja falada e mantida ativa por uma população, e  sobretudo à ameça que pairava sobre a possível perda do conhecimento do idioma sagrado e do modo correto como se deveriam pronunciar as palavras do hebraico gravadas pelos escribas (sofers) na Tora, foram criados os sinais massoréticos, sinais gráficos colocados debaixo de cada caractére hebraico indicando a vogal e assim mantendo vivo a pronuncia correta das palavras da Tora, bem como das rezas das três principais orações diárias.
Os pogroms sofridos pelas comunidades judaicas em toda a Europa, fizeram reacender no fim do século XIX o desejo de uma Pátria judaica, que fora idealizada por Theodor Hertzl, e politicamente apoiada pela Declaração de Balfour, que reconhecia o direito de os judeus terem uma pátria livre, inclusive de regressarem à Palestina, a antiga Judeia, essa onda de renascimento nacionalista, denominada de Sionismo faz surtir a unidade dos judeus, pelo que por consequência acabou por apoiar o surgimento do idioma comum a todos os judeus.
Foram os esforços de um linguista e poliglota russo, nascido no seio de uma família judaica, cujo nome de registo era Yrzack Perlman, mas autodenominou-se de Eliezer Ben-Yehudá, que por ter sido aluno de uma Yeshiva, e ter estudado ao máximo o hebraico bíblico e litúrgico para vir a ser rabbi, pelo que sonhava em poder fazer renascer a língua hebraica e torna-la uma língua viva, essa passou a ser a sua obra, o seu ideal, pelo qual se bateria toda a vida.
Inicialmente Eliezer Bem-Yehudá, não fora levado a sério, pelo que consideravam os seus esforços sem valor, e infrutíferos, mas o movimento sionista deu fôlego aos sonhos de Eliezer, que vivendo na Palestina, promoveu pouco a pouco o hebraico entre os judeus, de tal modo que em 1948 quando Israel ressurgiu dois mil anos depois como um País independente e soberano, já os judeus da Palestina falavam hebraico, e muitos outros na diáspora desenvolviam esforços para seguir o mesmo caminho.
Hoje a maioria das comunidades na diáspora não fala fluentemente o hebraico, apenas uma minoria, mas o idioma tem vindo a ser estudado até mesmo por não judeus, sobretudo devido aos estudos bíblicos efetuados por cristãos de diferentes correntes.


[1] Francisco, Edson de Faria (2009) “Língua Hebraica, aspectos históricos e caraterísticas” São Bernardo do Campo. SP. Brasil.


Autor Filipe de Freitas Leal


Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.



 
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