O Amor, meu amor,
nosso amor é impuro
como
impura é a luz e a água
e
tudo quanto nasce
e
vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as
tuas são luz
e
dão a volta ao universo
quando
se enlaçam
até
se tornarem deserto e escuro.
E
eu sofro de te abraçar
depois
de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para
deixares de ter corpo
e o
meu corpo nasce
quando
se extingue no teu.
E respiro em ti
para
me sufocar
e
espreito em tua claridade
para
me cegar,
meu
Sol vertido em Lua,
minha
noite alvorecida.
Tu me bebes
e
eu me converto na tua sede.
Meus
lábios mordem,
meus
dentes beijam,
minha
pele te veste
e
ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E
em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando
apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando
ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para
em mim mesmo te plantar
menos
que flor: simples perfume,
lembrança
de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a
minha vida, já sem leito,
vai
galgando margens
até
tudo ser mar.
Esse
mar que só há depois do mar.
Mia Couto in "Idades, cidades, divindades"
domingo, abril 08, 2012
Filipe de Freitas Leal


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