A Rutura Asmoneia e a Brecha para Roma
Para compreendermos a perda da
soberania judaica, importa recuar um século na história. Após a gloriosa
Revolta dos Macabeus contra os gregos selêucidas, a dinastia asmoneia havia
conseguido reconsagrar o Segundo Templo — o Beit HaMikdash HaSheni (בֵּית
הַמִּקְדָּשׁ הַשֵּׁנִי). Foi a purificação deste
santuário que deu origem à festividade de Chanuká (חֲנֻכָּה)
termo que significa ‘dedicação’. Este feito devolveu à Judeia um período de
relativa independência e paz. Contudo, esta mesma linhagem mergulhou mais tarde
numa violenta e fratricida guerra civil.
De um lado, o rei e sumo pontífice
eram a mesma pessoa, Aristóbulo II; do outro, erguia-se o seu irmão, Hircano
II, liderando tropas revoltosas. De acordo com os relatos de Flávio Josefo em Antiguidades
Judaicas, constatamos que, no epicentro destes litígios bélicos e de
profunda fragilidade interna, no ano 63 AEC, o Reino da Judeia foi invadido
pelo exército da República Romana. O General Pompeu, o Grande, aproveitou a
brecha e ocupou Jerusalém com as suas legiões. Ao apoiar as fações de Hircano
II, Pompeu depôs o rei Aristóbulo II e entregou as rédeas do poder ao irmão
rebelde.
O Trauma no Santo dos Santos:
Pompeu e o Deus Invisível
Há um episódio deste momento que
merece ser aqui lembrado, registado no Livro 1, Capítulo 7 de A Guerra dos
Judeus (Josefo, 75 CE). Trata-se de um choque cultural e religioso imenso:
o General Pompeu cometeu o terrível sacrilégio de entrar pessoalmente no Santo
dos Santos, o Kodesh HaKodashim (קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים)
— o lugar mais sagrado e inviolável do Templo, onde apenas o Sumo Sacerdote
podia entrar, e somente uma vez por ano.
Pompeu esperava encontrar ali uma
estátua de ouro do Deus dos judeus, à semelhança dos deuses pagãos da época.
Para seu espanto, o recinto estava completamente vazio. Como bem descreve
Montefiore (2011), o general romano avançou pelas
cortinas e mistérios do santuário apenas para se deparar com o vazio absoluto;
nem poderia ser de outra forma, era a coerência de um monoteísmo sem imagens: o
vazio simbolizava fielmente a presença do Deus único e invisível no Santo dos
Santos. A Arca da Aliança fora levada em 586 AEC pelos babilónios e, quando os
judeus regressaram do exílio para erguer o Segundo Templo em 515 AEC, o coração
do santuário permaneceu despido de qualquer imagem.[1]
Embora Pompeu não tenha saqueado os tesouros materiais do Templo, a sua
intrusão profana foi sentida por toda a nação judaica como uma humilhação
insuportável, gerando um trauma religioso profundo que alimentaria o ódio
judaico contra o jugo romano durante séculos.
A Teocracia Tutelada: O Templo, o
Sinédrio e os Rabinos sob o Olhar de Roma
A partir daquele fatídico ano, a
Judeia passou a figurar como um Reino Vassalo, curvado aos interesses da
República Romana — importa lembrar que, nesta época, Roma ainda não era
governada como um Império. Hircano II, agora sob a tutela de Roma, geria a política
e a economia doméstica e acumulava a função de Sumo Sacerdote. Contudo, a forma
como subira ao trono, revoltando-se contra o próprio irmão com o auxílio de
forças estrangeiras, despiu-o de qualquer legitimidade moral aos olhos de
grande parte do povo. Como bem aponta Goodman (2007), a interferência romana na
escolha dos líderes locais quebrou a linha tradicional da autoridade divina,
gerando, em grande medida, uma profunda sensação de abandono do povo por parte
do Templo.
Para
compreendermos a sociedade judaica desta era, temos de olhar para ela como uma
estrutura piramidal e profundamente teocrática, cujo centro gravitacional
absoluto era o Segundo Templo. O Templo estava longe de ser um mero espaço de
culto; ele acumulava funções que hoje dividiríamos por várias instituições do
Estado. Era o equivalente à Suprema Corte, albergando o Sinédrio, o Sanedrin
(סַנְהֶדְרִין), que reunia na chamada "Sala das Pedras Polidas" para
exercer o poder judicial em matérias religiosas, civis e criminais. Funcionava
também como um Senado ou Grande Assembleia, a Knesset (כְּנֶסֶת),
detendo o poder legislativo através da interpretação das leis bíblicas e da
promulgação de decretos. Por fim, operava como o autêntico Banco Central da
nação. Conhecido também como a Casa do Tesouro, o Otzar HaBeit (אוֹצַר
הַבַּיִת), o Templo centralizava a cobrança
de impostos e donativos e servia de cofre-forte onde os cidadãos podiam
depositar as suas economias em segurança.
Todavia, com a dominação romana,
essas funções foram controladas e perderam a autonomia. Nas decisões finais,
quer do Sinédrio, quer da Knesset, ou mesmo na gestão bancária, nada
poderia ser feito sem a autorização e o controlo rígido de Roma. Foi esta
situação que deu a ideia ao povo de que o Templo se corrompera — não no sentido
de uma prevaricação individual, mas porque perdera a sua natureza e função
inicial. Esta subordinação ao poder pagão é descrita por Sanders (1992) como o
catalisador para a perda do prestígio da aristocracia do Templo junto das
massas. Ao verem o Templo corrompido, o povo passou a conferir aos rabinos uma
maior importância e legitimidade religiosa, na medida em que estes estavam ao
seu lado para manter vivas a fé, as tradições, a cultura e a identidade
judaica. Em certo sentido, os rabinos acabaram por ser uma resistência à
dominação estrangeira. Foi nesta época que surgiram duas grandes correntes do
pensamento rabínico de importância fulcral: a Escola do Rabbi Hillel, o
Ancião (110 AEC – 8 EC) e a Escola do Rabbi Shammai (50 AEC – 30 EC).
A Perda da Autonomia sob o Domínio
Romano
A ocupação romana veio impor uma
mudança de vida e organização a toda a sociedade da Judeia. Não apenas impôs a
submissão à tutela de Roma, não se limitando a uma mudança coreográfica no topo
do poder; chegou para reconfigurar e submeter as instituições mais sagradas da
Judeia. Para garantir que a província fosse efetivamente controlada, a
engrenagem romana anulou a independência administrativa, jurídica e financeira
local através de três eixos asfixiantes:
- O
Sumo Sacerdote - Cohen Gadol (כֹּהֵן
גָּדוֹל):
Deixou de ser um cargo dinástico ou vitalício e passou a ser um cargo ao
serviço de Roma, nomeado pelo próprio César, que tinha a autoridade de
destituir e nomear os Sumos Sacerdotes de acordo com os interesses
políticos; nesse sentido, operava como um mero vassalo. (Goodman, 2007)
- O
Sinédrio (Suprema Corte): Era a autoridade jurídica,
composta por 71 membros, os 70 sábios e o Presidente Nassi (נָשִׂיא),
órgão que legislava à medida que fazia a jurisprudência e a interpretação
da Legislação em vigor — a Torá escrita e a tradição oral (leis
consuetudinárias). Como o Sinédrio podia julgar, mas não condenar à morte,
os crimes de sedição e lesa-majestade não podiam ser sentenciados por este
conselho; tinham de ser enviados para a instância superior, ou seja, o
Tribunal Romano denominado Praetorium (Pretório) (Sanders, 1992).
Ali, o magistrado era o próprio Governador Romano, que na prática exercia
o poder supremo acima do Rei da Judeia e do Sumo Pontífice. Foi devido a
esta limitação que Jesus não pôde ser julgado em definitivo pelo Sinédrio,
mas falaremos disto mais adiante.
- O
Tesouro do Templo: Em teoria, detinha as funções
de banco central, onde as pessoas podiam guardar os seus bens valiosos em
segurança. Com o domínio romano, porém, foi repetidamente saqueado ou
taxado por generais romanos. Tamanha era a riqueza do Templo e a dimensão
do saque que muito desse dinheiro serviu para custear obras monumentais na
própria cidade de Roma (Goodman, 2007).
A Dinâmica do Poder Local: Da
Linhagem Sagrada aos Idumeus
Na hierarquia do poder, a palavra
final sobre a geopolítica e os assuntos macroeconómicos pertencia ao Governador
Romano da Síria, que representava os interesses de Roma na região. Ao
governante local cabiam apenas os assuntos domésticos de menor relevância para
a República.
O arranjo de Hircano II como
Etnarca e Sumo Sacerdote durou pouco tempo. Os romanos acabaram por lhe retirar
os títulos políticos e transferiram a administração civil para uma outra
linhagem influente na região. O poder escorregou assim dos asmoneus para os
idumeus. Foi desta dinastia idumeia que emergiu o infame Rei Herodes, um
monarca que não pertencia à linhagem real de David nem à nobreza judaica, mas
que herdou a coroa por direta imposição e conveniência de Roma (Josefo, 75 CE).
O Mosaico Sectário: Entre a Lei, a
Ascese e a Lâmina
No xadrez religioso, o tecido
social dividia-se naquilo que Flávio Josefo descreve como as principais escolas
filosóficas — ou seitas — que disputavam a influência sobre as mentes e
corações da Judeia:
- Os
Fariseus: Judeus devotos, profundamente
observantes das leis religiosas e da tradição oral. Como bem observa
Sanders (1992), eles tendiam a conformar-se com o domínio político de
Roma, desde que tivessem total liberdade para praticar a sua fé. Tinham
grande apoio entre as classes populares.
- Os
Saduceus: Uma elite aristocrática e
sacerdotal, que formava uma espécie de partido da classe alta. Controlavam
as funções políticas do Templo e aliavam-se frequentemente ao poder romano
para salvaguardar a sua riqueza, influência e estatuto (Goodman, 2007).
- Os
Essénios: Místicos e ascetas que viviam
o judaísmo de forma radical. Repudiando a corrupção política e as disputas
de poder em Jerusalém, isolaram-se em comunidades monásticas nas montanhas
do deserto da Judeia e na região do Negueve.
- Os
Zelotas e os Sicários: À margem dos grupos acima,
erguia-se uma fação político-militar de resistência intransigente.
Combinando o zelo religioso com o nacionalismo radical, recusavam
categoricamente pagar tributo a um soberano pagão e viam a submissão a
Roma como uma traição a Deus, recorrendo ao punhal e à guerrilha urbana
para semear o estopim da revolta armada.
A Economia da Submissão e o
Apagamento Cultural
A transição para o modelo de
vassalagem romana esmagou a economia local. Roma passou a exigir impostos
pesados — afinal, eram os tributos extraídos das províncias e reinos vassalos
que financiavam a máquina pública e a opulência romana. Empresas privadas de
cobrança de impostos estabeleceram-se na região através dos chamados
Publicanos. Estes cobradores tornaram-se o rosto visível da opressão e um foco
constante de revolta popular, uma vez que a população judaica se via obrigada a
entregar até 25% de tudo o que produzia. Este sufoco financeiro gerou um
desespero social profundo, criando o solo fértil ideal para que as promessas
messiânicas e de libertação divina florescessem entre as massas (Sanders,
1992).
A base desta pirâmide social era
composta por camponeses, agricultores, pastores e artesãos — uma massa
considerável de camponeses pobres que subsistia de forma rudimentar. Como
medida de contenção política, uma fatia significativa da população que se mantivera
fiel ao deposto Aristóbulo II foi escravizada e deportada para Roma. Foi a
estratégia encontrada pelos romanos e por Hircano II para extirpar potenciais
líderes de motins e limpar a oposição (Goodmann, 2007).
À semelhança do que fizera em
invasões anteriores sob o domínio de babilónios, assírios, persas e gregos, a
Judeia enfrentava agora um novo império. Contudo, a ocupação romana não visava
apenas a extração de recursos; o objetivo a longo prazo era a assimilação
cultural e a Pax Romana. Embora inicialmente tenham mantido algumas
estruturas locais, o plano final exigia uma submissão identitária total.
O
verdadeiro ponto de viragem ocorreu no ano 6 EC. O etnarca Herodes Arquelau,
que herdara o governo de seu pai, Herodes o Grande, demonstrou uma incapacidade
crónica de liderança. Após anos de um governo despótico e marcado por extrema
crueldade, Arquelau foi formalmente deposto pelo Imperador César Augusto. Roma
aboliu de imediato o estatuto de Reino Vassalo, fundindo a Judeia, a Samaria e
a Idumeia numa única Província Romana de Administração Direta (Joséfo, 75 CE).
A soberania local, que já era puramente simbólica, desaparecia por completo; a
partir de então, o novo governador romano ditava as ordens a partir da capital
costeira de Cesareia.
Para
inaugurar este novo regime fiscal, o Governador Romano da Síria, Públio
Sulpício Quirino, ordenou um recenseamento geral de pessoas e bens. Para a
mentalidade judaica, este censo era intolerável. Ser contado por um império
pagão equivalia a aceitar que o povo escolhido se tornara propriedade de Roma.
Este insulto teológico e económico serviu de estopim definitivo para inflamar o
radicalismo dos Zelotas e dos Sicários, arrastando as massas camponesas para a
clandestinidade e para a revolta (Goodmann, 2007).
Foi precisamente neste ambiente de sufoco quotidiano, desespero social e fervor apocalítico que se extinguiu qualquer ilusão de conciliação com o invasor pagão. Se as instituições tradicionais do Templo pareciam corrompidas e os punhais dos rebeldes traziam apenas uma brutal retaliação militar, a salvação da nação judaica teria de vir diretamente de uma intervenção divina. O solo estava fértil para o messianismo popular. É neste cenário de busca por libertação espiritual que começam a ecoar na Galileia as pregações de uma nova e carismática fação dissidente: a seita judaica dos Notzrim. Como veremos nos próximos capítulos, este não seria um fenómeno isolado, integrando uma longa e trágica esteira de movimentos messiânicos que culminaria, décadas mais tarde, com a revolta de Bar Kokhba (Sanders, 1992).
[1] É frequente confundir os espólios
retratados no Arco de Tito, em Roma, com a Arca da Aliança. Todavia, os relevos
romanos mostram apenas a Mesa dos Pães da Proposição e a Menorá; a Arca já
tinha desaparecido séculos antes, aquando da invasão babilónica em 586 AEC.
sexta-feira, julho 10, 2026
Filipe de Freitas Leal

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