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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Trabalho de Campo em Sociologia Aplicada

O Trabalho de Campo, é uma ferramenta importante na didática da Sociologia Aplicada, onde pomos em prática a nossa capacidade de análise e observação de realidade social, humana, urbana e cultural de todo o conjunto circundante, ou por outras palavras é estudar na prática o que se aprendeu na teoria, é apreender o conjunto da realidade e aspetos sociais, que fazem parte de um todo sociológico.
O estudo de Campo realizado no fim de tarde de 3 de junho de 2011, com a turma do Primeiro Ano de Serviço Social – Pós Laboral do ISCSP-UTL, e na companhia da Professora Doutora Sónia Frias e do Professor Doutor João Cruz, desenvolveu-se na zona envolvente que ia da Avenida da Liberdade, passando pelo Rossio, pelo Largo de São Domingos onde se aglomeram vários imigrantes de diferentes comunidades, para um ponto de encontro, passando também pelo Martim Moniz e culminando na Mouraria.
Análise da Observação
O trabalho de campo consistiu na realização da observação em grupo, (no total 10 pessoas, 8 alunos (as) e dois docentes, já acima referidos), desenvolvido na área geográfica que vai da Avenida da Liberdade até ao Martim Moniz, como objetivo a observação da realidade, como material o papel e a caneta e muita atenção, sobretudo atenção às pessoas, à urbanização e à cultura que de daí se origina e nos circunda constantemente.
Por outras palavras foi o primeiro contacto com a prática da Sociologia Aplicada, vivendo na rua e na observação o que já havia sido ensinado em sala de aula.

As Pessoas
Numa primeira impressão viam-se os turistas na Rua das Portas de Santo Antão, a beber ginjinhas, esplanadas repletas de comensais tranquilos, olhares apáticos como se o Mundo fosse o que realmente cada um sente em si, filas para ir ao Teatro, casais de mãos dadas, roupas de marca, sorrisos, crianças, tudo isso dava-nos a ilusão de um mundo à parte, tranquilo, sereno, alegre. Mas destoava com o que mesmo ao lado se via outro mundo outra realidade.
Uma Romena a vender o “Borda-d’água”, pensos e talvez algo mais, mais adiante um Mendigo alcoolizado consumindo vinho em embalagem da Tetra-pack.
No Rossio viam-se os “tesos” a protestar contra o FMI, no largo de São Domingos, lá estavam os “okupas” à procura de público para a assistência, tapavam com a presença o memorial às vítimas do Pogrom de Lisboa em 1506, página triste da nossa história trágica em que a intolerância e o preconceito eram o “pão-nosso de cada dia”.
Africanos viam-se tranquilos, dialogando entre si, num mundo só seu, como se fossemos todos transparentes, como se não nos quiséssemos ver uns aos outros, talvez até alguns sejam assim, não querer ver que o outro está mesmo ao nosso lado, que fazemos parte do mesmo mundo, mas enfim continuavam lá, reunidos à mistura com turistas, no Rossio via-se a banca de jornais e revistas dos indianos.
Mas as ruas não são todas do mesmo nome, da mesma maneira que parecem ser até de países e de mundos diferentes, sente-se o cheiro nas ruas e quase que se pode perceber onde é uma casa portuguesa, onde é africana e onde é Bengali só pelo cheiro da cozinha que de lá se sente, sim muitos bengalis, e restaurantes de comida típica do Bangladesh, pessoas sorridentes, pessoas iguais e diferentes, mas sobretudo o respeito é acima de tudo o que mais impressiona. O respeito é o que nos marca, são todos diferentes, somos todos iguais numa cidade que já não é só nossa, é sim de todos nós.
Pelas ruelas da Mouraria as donas de casa já idosas, punham a porta o saco de lixo de um dia de lida, corpos cansados, olhares cansados, serenos, pesados, nas mesmas ruelas a comunidade africana marca a presença com o som, marca-nos a atenção que destoa na cor e no tom, tão curiosos como nós, tão atentos, tanta era a vontade de ser aceites, e também de nos aceitar-mos mutuamente, sorrisos abertos, vozes sonantes, África, aliás era o “Cabaz de África dos PALOP” comida apimentada
O fator urbano
O aspeto urbano é variado, da Avenida da Liberdade como uma grande metrópole desenvolvida e a beleza dos seus passeios e edifícios dos séculos XIX e XX, o Hotel Palace com a sua exuberância, os Restauradores, sensivelmente bem cuidado e limpo
No Martim Moniz e na Mouraria, viam-se grafittis, um dos grafittis estava escrito "Okupas", em algumas janelas viam-se anuncios para alugar quartos, nas paredes cartazes a informar que "Gatinho Perdeu-se", os apartamentos do rés do chão tinham portas baixas, verdes e davam diretamente para a cozinha, onde uma familia com a porta aberta podia ser vista na hora do jantar, com os filhos pequenos.
O espaço urbano em alguns locais é degradado, vandalizado, janelas com vidros partidos, casas devolutas com tijolos nas portas e janelas, ruas estreitas, tipicamente de uma Lisboa cada vez mais velha no tempo, onde se entre-cruzam dois mundos, várias culturas, história, tempos, VIDAS!
Uma cidade com várias realidades, com várias culturas.


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

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