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quinta-feira, 30 de abril de 2026

A Tirania das Métricas - A Desumanização dos Trabalhadores e Consumidores


Vivemos sob uma nova lógica onde a ideologia do lucro não apenas influencia a economia, mas impõe a primazia absoluta de parâmetros, métricas e algoritmos. Em nome da eficiência, sacrificam-se a satisfação do consumidor e as condições básicas de trabalho.

O exemplo mais emblemático desse cenário é o setor de Call Centers. Ali, tanto empresas quanto prestadores de serviço tornam-se reféns de métricas como o TMA (Tempo Médio de Atendimento). O foco exclusivo na rentabilidade imediata resulta em serviços precarizados, insatisfação generalizada e uma profunda desvalorização do capital humano. É um processo que desumaniza tanto quem atende quanto quem é atendido.

Não é preciso ser-se de Esquerda, sindicalista, ou economista para ver-se esta realidade, cada vez mais, pessoas de todos os espectros políticos sentem na carne o sistema tal como ele é, está nitidamente visivel, cada vez mais visivel, só não vê quem não quer.

O "Taylorismo Digital" e a Desvalorização do Indivíduo

O que vemos hoje não é apenas uma percepção subjetiva, mas o reflexo do que estudiosos chamam de "Capitalismo de Vigilância" ou "Razão Neoliberal". Estamos a presenciar a substituição da gestão humana pela lógica algorítmica, o que pode ser analisado sob quatro perspetivas:

  • Sociologia (A Desvalorização): Autores como Ricardo Antunes e Zygmunt Bauman apontam a "uberização" do trabalho. O atendente vira um apêndice da máquina. O resultado é o sofrimento ético: a obrigação de ser eficiente para o algoritmo, mesmo sendo inútil para o ser humano.

  • Ciência Política (Erosão da Cidadania): Segundo Wendy Brown e Christian Laval, o indivíduo é reduzido a uma unidade de custo ou receita. A "falta de democracia" manifesta-se na ausência de escolha real, já que o modelo é replicado por todo o mercado.

  • Economia (A Primazia do Curto-Prazo): A suposta "eficiência" financeira gera custos sociais ocultos, como o burnout e a degradação do valor da marca a longo prazo. É o triunfo da lógica financeira sobre o valor real.

  • Direito (Assédio Algorítmico): Em todo o mundo, juristas discutem a tese do "Desvio Produtivo": no qual o tempo vital que o consumidor perde a tentar superar as barreiras de um algoritmo é um dano à sua dignidade, passível de indemnização.

O Paradoxo da Pseudo-Liberdade Neoliberal

Muitos associam o neoliberalismo à liberdade e à desregulação dos Mercados. No entanto, a prática revela um paradoxo: o sistema não quer o fim do Estado, quer sim usar o Estado, sequestrar a força e a autoriadade estatal para assim garantir que o mercado funcione sob os seus termos.

  1. Regulação Seletiva: Desregula-se o capital (menos impostos, mais privatizações passando o capital Estatal para a mão de conglomerados), mas em contrapartida, regula-se sim, e de forma rigida as leis laborais que afetam o mercado de trabalho através da vigilância e leis que facilitam a precarização. O trabalhador é visto como um mero recurso descartável.

  2. O "Empresário de Si Mesmo": Como analisaram alguns pensadores e sociólogos, a liberdade prometida é a liberdade de competir. Se o trabalhador adoece ou falha, a culpa é sua por não ter sido "eficiente", o sistema desresponsabiliza-se porque a métrica e os parametrôs são feitos para analisar os erros da base e não as falhas sistémicas do topo.

  3. Instituições para o Mercado: O poder estatal é usado para "blindar" a economia contra pressões populares por direitos sociais, a base de toda a lógica é o crescimento da empresa, que é quantificado por meras estatísticas em geral financeiras.

A Transversalidade da Desumanização

Essa lógica não se limita aos Call Centers ou a outros serviços terceirizados. É de facto uma lógica transversal: que está presente e atuante nos supermercados, nas empresas de energia, gás e no comércio em geral, mas também na fábrica, nas escolas, nos trasportes, e até mesmo nos hospitais, inclusive os públicos, onde a métrica é gastar o menos possível, onde cada doente é um número e um custo. Isto é o que se chama de "Taylorismo Digital".

  • O Fim da Empatia: O funcionário é treinado para seguir um script. Se ele gasta tempo ouvindo os problemas reais dos clientes, ele "perde" produtividade métrica, deixa de ser válido, passa a ser visto como um custo e prejuizo.

  • A Tirania do Dashboard: Gestores, Diretores de produção, diretores de RH,  não olham mais para as pessoas como pessoas, não os vêm pelos nomes, como colegas ou amigos, mas como números e os trabalhadores passam apenas a ser representados por gráficos de KPIs. Se a barra estiver no vermelho, o trabalhador é descartado. Ele não é mais uma pessoa, não interessa se é bom ou mau, se tem caráter ou não, o que importa é se produz ou se dá prejuizo.

  • O Exército de Reserva: Se o custo de treinar um novo funcionário é menor que manter um experiente, a empresa opta pela rotatividade (turnover). O esgotamento humano é um dado previsto na planilha. As empresas não se assuntam com as saídas de funcionários, são como máquinas que se avariaram, há mais currículos amontoados nas prateleiras do RH, ou na rede social LinkedIn, o desemprego é a para o Neoliberalismo um ótimo indicador, baixa os salários e submete os trabalhadores.

Existe Saída? Do Colapso à Solidariedade

Estamos presos no que Mark Fisher chamou de "Realismo Capitalista": a sensação de que não há alternativa. O sistema parece blindado por uma convergência tecnocrática, onde partidos de diferentes espectros acabam gerindo a mesma cartilha neoliberal.

Contudo, a própria "perfeição" técnica do sistema pode ser seu gatilho de obsolescência:

  1. O Paradoxo da Automação: Se as máquinas substituírem todos os trabalhadores, quem terá salário para consumir os produtos? Sem consumo, o sistema "seca".

  2. O Retorno à Solidariedade Mecânica: Diante do esgotamento de recursos e da frieza algorítmica, surge o movimento de retorno ao local — mercados alternativos, moedas sociais e redes de apoio onde as pessoas se reconhecem como humanos, não como métricas.

  3. Regulação e Renda Básica: Propostas como a Renda Básica Universal e a regulação do capitalismo algorítmico visam devolver ao indivíduo o poder de dizer "não" a trabalhos degradantes.

Conclusão

O desafio atual é tratar a economia novamente como uma ferramenta a serviço da vida, e não a vida como combustível para a economia. O sistema neoliberal parece invencível, mas é vulnerável à sua própria base física e social. Quando o algoritmo para de servir ao humano, ele perde sua razão de existir.

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Referências Bibliográficas (Edições de Portugal)

  • DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre a sociedade neoliberal. 1. ed. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2013. p. 402-415. (Obra essencial para a sua análise sobre a "Razão Neoliberal" e a gestão da subjetividade).

  • BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. 1. ed. Lisboa: Relógio D'Água, 2007. p. 33-45. (Analisa a precariedade dos vínculos e a desumanização nas instituições contemporâneas).

  • FISHER, Mark. Realismo Capitalista. 1. ed. Lisboa: KKYM, 2022. p. 41-52. (Edição portuguesa que aborda a saúde mental e a sensação de falta de alternativa ao sistema atual).

  • ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 1. ed. Coimbra: Almedina, 2013. p. 115-130. (Antunes é uma referência luso-brasileira constante em Coimbra para discutir a precarização e o setor de serviços).

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English Version

The Neoliberal Metric: Dehumanizing Workersand Consumers

By Filipe de Freitas Leal

We live under a new logic where the ideology of profit does not merely influence the economy, but imposes the absolute primacy of parameters, metrics, and algorithms. In the name of efficiency, consumer satisfaction and basic working conditions are sacrificed.

The most emblematic example of this scenario is the Call Center sector. There, both companies and service providers become hostages to metrics such as AHT (Average Handle Time). The exclusive focus on immediate profitability results in precarious services, widespread dissatisfaction, and a profound devaluation of human capital. It is a process that dehumanizes both the provider and the customer.

One does not need to be on the Left, a unionist, or an economist to see this reality; increasingly, people across all political spectrums feel the system for what it is. It is clearly visible, more so every day—only those who refuse to look cannot see it.

Digital Taylorism and the Devaluation of the Individual

What we witness today is not just a subjective perception, but a reflection of what scholars call "Surveillance Capitalism" or "Neoliberal Reason." We are witnessing the replacement of human management with algorithmic logic, which can be analyzed through four perspectives:

  • Sociology (Devaluation): Authors like Ricardo Antunes and Zygmunt Bauman point to the "uberization" of work. The worker becomes an appendix to the machine. The result is ethical suffering: the obligation to be efficient for the algorithm, even when being useless to the human being.

  • Political Science (The Erosion of Citizenship): According to Wendy Brown and Christian Laval, the individual is reduced to a unit of cost or revenue. The "lack of democracy" manifests in the absence of real choice, as the model is replicated across the entire market.

  • Economics (The Primacy of Short-Termism): Supposed financial "efficiency" generates hidden social costs, such as burnout and the long-term degradation of brand value. It is the triumph of financial logic over real value.

  • Law (Algorithmic Harassment): Around the world, legal experts discuss the theory of "Productive Deviation": in which the vital time a consumer loses trying to overcome algorithmic barriers is considered a blow to their dignity, liable for compensation.

The Paradox of Neoliberal Pseudo-Freedom

Many associate neoliberalism with freedom and market deregulation. However, practice reveals a paradox: the system does not want the end of the State; rather, it seeks to hijack State power and authority to ensure the market functions under its own terms.

  • Selective Regulation: Capital is deregulated (lower taxes, more privatizations transferring State assets to conglomerates), but in contrast, labor laws are rigidly regulated through surveillance and laws that facilitate job insecurity. The worker is seen as a mere disposable resource.

  • The "Entrepreneur of the Self": As analyzed by various thinkers, the promised freedom is the freedom to compete. If a worker falls ill or fails, the blame is theirs for not being "efficient." The system evades responsibility because metrics and parameters are designed to analyze errors at the bottom rather than systemic failures at the top.

  • Institutions for the Market: State power is used to "shield" the economy against popular pressure for social rights. The core logic is corporate growth, quantified by mere financial statistics.

The Transversality of Dehumanization

This logic is not limited to Call Centers. It is a transversal logic: active in supermarkets, energy companies, and general commerce, but also in factories, schools, transport, and even hospitals—including public ones—where the metric is to spend as little as possible, and every patient is a number and a cost. This is what is known as "Digital Taylorism."

  • The End of Empathy: Employees are trained to follow a script. If they spend time listening to a customer’s real problems, they "lose" metric productivity, lose their value, and are viewed as a cost and a liability.

  • The Tyranny of the Dashboard: Managers and directors no longer see people as people; they don't see names, colleagues, or friends, but numbers represented by KPI charts. If the bar is in the red, the worker is discarded. Character and quality no longer matter—only whether they produce or incur a loss.

  • The Reserve Army: If the cost of training a new employee is lower than retaining an experienced one, the company opts for turnover. Human exhaustion is a projected data point on a spreadsheet. Companies are not startled by resignations; they view them like broken machines—there are always more resumes piled on HR shelves or on LinkedIn. For Neoliberalism, unemployment is a great indicator: it lowers wages and subdues the workforce.

Is There a Way Out? From Collapse to Solidarity

We are trapped in what Mark Fisher called "Capitalist Realism": the sense that there is no alternative. The system seems shielded by a technocratic convergence, where parties across the spectrum end up managing the same neoliberal playbook. However, the system’s own technical "perfection" may be its trigger for obsolescence:

  • The Automation Paradox: If machines replace all workers, who will have the wages to consume the products? Without consumption, the system runs dry.

  • The Return to Mechanical Solidarity: Faced with resource depletion and algorithmic coldness, movements are emerging to return to the local—alternative markets, social currencies, and support networks where people recognize each other as humans, not metrics.

  • Regulation and Basic Income: Proposals like Universal Basic Income and the regulation of algorithmic capitalism aim to give the individual the power to say "no" to degrading work.

Conclusion: The current challenge is to treat the economy once again as a tool at the service of life, rather than life as fuel for the economy. The neoliberal system seems invincible, but it is vulnerable to its own physical and social base. When the algorithm stops serving the human, it loses its reason to exist.

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Bibliographic References (Portuguese Editions)

  • DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre a sociedade neoliberal. 1st ed. Lisbon: Editorial Bizâncio, 2013. p. 402-415. (Essential work for the analysis of "Neoliberal Reason" and the management of subjectivity).

  • BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. 1st ed. Lisbon: Relógio D'Água, 2007. p. 33-45. (Analyzes the precariousness of bonds and dehumanization in contemporary institutions).

  • FISHER, Mark. Realismo Capitalista. 1st ed. Lisbon: KKYM, 2022. p. 41-52. (Portuguese edition addressing mental health and the perceived lack of alternative to the current system).

  • ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 1st ed. Coimbra: Almedina, 2013. p. 115-130. (A constant Luso-Brazilian reference in Coimbra regarding labor precarity and the service sector).

Sobre o Autor | About the Author

PT Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa (Portugal), em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo ISCSP (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sua trajetória profissional, destaca-se o estágio em reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. No mundo digital, é blogger desde 2007, atuou como ilustrador, editor e autor, conta já com oito livros publicados em áreas distintas, que vão desde o Serviço Social, Poesia até à Ciência Política, escreve artigos sobre atualidade política e conflitos geopolíticos.

EN Filipe de Freitas Leal was born in Lisbon in 1964. He holds a degree in Social Work from ISCSP (University of Lisbon) and a postgraduate degree in Public Policy and Social Inequalities. He also attended a Master’s program in Sociology at the Faculty of Social Sciences and Humanities (Universidade Nova de Lisboa). His professional background includes social reintegration of former inmates and support for families in situations of social vulnerability. A blogger since 2007, he has acted as an illustrator and independent editor, with eight published books ranging from Social Work and Poetry to Political Science. He currently writes about political current affairs and geopolitical conflicts.


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Crítica ao Neoliberalismo

A minha crítica ao Neoliberalismo, centra-se no facto de que a primazia do mercado exige que o Estado se afaste como regulador da atividade económica, e assim, uma sociedade desregulada fere de morte a solidariedade e a justiça social (que são características básicas das sociedades). A teoria Liberal da "Mão Invisível", criada por Adam Smith no século XVIII assenta numa ideia quase mística de que o mercado regula-se por si mesmo sem leis, inclusive o Mercado Laboral. Ora, se isto fosse verdade, não faria sentido haverem Estados e os seus mecanismos coercivos como as leis para impôr a Ordem Publica, e por sua vez, sem o poder dos Estados, também desapareceriam as Nações.

E de facto, o que se verifica é que os Neoliberais dominam a política europeia e querem impôr uma agenda Federalista com o objetivo de privatizar a economia e "desnacionalizar" os Estados.
Lembro ainda que o Neoliberalismo foi responsável pelas graves crises económicas a nível mundial, como o Crash de 1929, a crise do Petróleo de 1973, A crise do Subprime de 2008. E lembro também que para sair dessas crises houve a necessidade de intervenção Estatal segundo o modelo Keynesiano.

Autor Filipe de Freitas Leal


Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

sábado, 5 de novembro de 2022

Países Liberais ou Países Democráticos?

Agora a moda é usar os termos "Países democráticos" e "Países liberais", como se fossem sinónimos, e a meu ver não são.

A democracia é um regime político, um sistema de governo; o liberalismo é referente a uma ideologia política de cariz económico, que defende a economia de mercado livre e sem a regulação e interferência do Estado.
Para os liberais, o mercado não precisa de leis ou intervenção estatal, crêem que funciona bem por si mesmo (a mão invisível), e afirmam que até mesmo o mercado de trabalho funciona bem sem regulação legal. Nada mais errado. Tal como a sociedade, os mercados para funcionarem bem e a favor de todos, precisam e devem ser regulados pela Lei.
No passado, foi o Liberalismo que deu origem às Monarquias constitucionais, de inspiração burguesa, mas com o apogeu da República, o liberalismo transformou-se no actual Neoliberalismo, que é o oposto das ideologias social-democrata e democrata-cristã, que têm um forte cunho ideológico de intervenção a favor da Justiça e Bem-estar Sociais.
Entendem agora porque não sou a favor da ideologia Liberal?

Autor do blog: Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, é licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com Pós-graduação em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, frequentou o Mestrado de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estagiou com reinserção social de ex-reclusos e o apoio a famílias em vulnerabilidade social. É Bloguer desde 2007, tem publicados oito livros de temas muito diversos, desde a Poesia até à Política.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

De George Floyd ao Fim do Neoliberalismo

São tempos difíceis e nebulósos, os que hoje vivemos; Há 46 anos caia o Regime Fascista em Portugal, e deu-se a libertação das colónias portuguesas em África, era o fim do fascismo e do Colonialismo,; Há 30 anos, caía o "Muro de Berlim", com isso deu-se a derrocada do Comunismo, ambos os sistemas acima, caíram de podres.
Agora estamos a testemunhar o estertor de um sistema económico e político que se acreditava invencível, o Neoliberalismo, ou seja, hegemonia da ideologia política que sustenta o capitalismo, alienando o Estado do seu papel regulador, assim, também este sistema, está prestes a cair de podre e levará consigo toda uma civilização que surgiu na segunda metade do século XVIII com a Revolução Industrial e a Revolução Francesa.
Das lutas anti-racistas que se iniciaram nas ruas dos EUA e nas principais capitais europeias, após o assassinato de George Floiyd, (espera-se que o último cidadão negro estadunidense a ser assassinado pelas autoridades), espalharam-se manifestações e protestos por todos os Estados Unidos, alguns dos protestos foram violentos, mas em todos repetia-se em uníssono o pedido de Floyd que dizia "I Can't Breath", ou o grito de ordem de todos os afro-americanos "Black Lives Matter", e passando ao derrube de estátuas de descobridores europeus como Cristóvão Colombo; a verdade é que trata-se de um "pano de fundo" para algo mais complexo, que pode ser resumido numa só palavra: A sede de justiça social, e daí concluí-se que, a solidariedade entre os povos e a justiça-social poderão ser hoje, a melhor solução, senão mesmo a única viável e pacífica, que assim dará resposta contra o racismo, o imperialismo e toda a forma de discriminação, desde a exclusão social de classes até às desigualdades de género, mas poderão ir ainda mais longe, na luta contra a degradação ambiental. E em todas estas questões que vão do racismo ao ambientalismo, o responsável é tido como sendo o Neoliberalismo, que foca a sua práxis apenas na busca do lucro sem ter em conta a sustentabilidade de todos estes sistemas que se entre-cruzam.
Convido-vos a ler os seguintes livros: "A Era da Incerteza" de John Kenneth Galbraith; "A Terceira Vaga" de Alvin Tofler (no Brasil é a Terceira Onda); "O Que é Racismo" de Joel Santos; "O Que é Etnocentrismo" de Everardo Rocha e "Ciência Política em 50 Lições" de F. Leal editado pelo Blog Etcetera.


Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal é Licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Trabalhou como Técnico de Serviço Social numa ONG vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e ao apoio de famílias em vulnerabilidade social, é Blogger desde 2007 e escritor desde 2015, tem livros publicados da poesia à política, passando pelo Serviço Social.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

30 Anos de Portugal na União Europeia

Trinta anos passaram após a adesão de Portugal e Espanha à CEE, Comunidade Económica Europeia, era então o inverno primaveril para os portugueses radiantes de chegar ao seio europeu do Mercado Comum tão almejado, era 1 de janeiro de 1986, o dia da entrada oficial após uma atribulada reviravolta política com contornos caricatos e bastante curiosos que poucos hoje se lembram ou querem lembrar, mas há também que fazer o saldo dessa adesão, quem saiu a ganhar e quem perdeu?
No ano de 1976, após as primeiras eleições legislativas e da formação do I Governo Constitucional (na altura com maioria relativa) liderado por Mário Soares do Partido Socialista, inicia-se o processo de pedido de adesão, poucos sabem mas esse já era o projeto ambicionado pelo ultimo PND do governo de Marcello Caetano, mas esbarrava sempre devido à inexistência de liberdades democráticas quer na então metrópole quer nas suas províncias ultramarinas que tencionavam libertar-se; A pedido do governo português, o FMI intervém em Portugal pela primeira vez em 1977, não por o país estar economicamente mal ou à beira da bancarrota, mas para apurar os ajustes financeiros e económicos, advindo do atraso politico económico e social que o Estado Novo havia imposto ao país.
Ainda nos anos 70, e após a queda dos dois governos de Mário Soares, um dos quais em coligação com o CDS de Freitas do Amaral, dá-se inicio à fase dos governos de iniciativa Presidencial do General Ramalho Eanes, culminando no primeiro governo maioritário da Aliança Democrática liderada por Sá Carneiro que também pretendia a modernização da economia e da sociedade portuguesa bem como a entrada do país na CEE.
Na degradação política da AD após a morte de Sá Carneiro, o PS volta ao governo com Mário Soares, mas sem a maioria, pelo que se forma o Bloco Central, coligação de governo entre o PS de Soares e o PSD de Mota Pinto, ai o projeto é ambicioso, arregaçam-se as mangas, e mais uma vez Portugal prepara-se com determinação para a adesão ao Mercado Comum, o FMI volta a Portugal, para serem colocadas em dia as contas, claro que havia uma crise e era preciso recuperar a economia e relança-la, haviam acertos a fazer e as medidas foram também austeras mas eficazes, não estava em causa senão a adesão a um mercado exigente e altamente competitivo, não se tratava de uma bancarrota eminente ao nível do que aconteceu recentemente com os gastos públicos de países como a Grécia e Portugal, em que os deficits são muito superiores à receita.
Posto isto, resta salientar, que Mota Pinto afastara-se por doença, de tal modo que um dia após a assinatura em do tratado de adesão à CEE no Mosteiro dos Jerónimos a 13 de junho, os ministros do PSD demitem-se em bloco, o governo do Bloco Central cai, devido à nova liderança do PSD surgida no congresso da Figueira da Foz em maio daquele ano, era Cavaco Silva, que ao impor o rompimento com o Bloco Central faz cair o governo e no Parlamento indica que os deputados do seu partido tenham um só sentido de voto, o de votar contra a adesão à CEE; Mais tarde nas eleições de 6 de outubro, o PSD vence com apenas 29%, e Cavaco Silva, o homem que votara contra a adesão, seria o Primeiro Ministro a beneficiar do trabalho realizado por Mário Soares e Mota Pinto durante o governo do Bloco Central.  
No mês de janeiro Portugal adere formalmente à CEE, e nesse mesmo mês realizam-se as eleições presidenciais nas quais é eleito Mário Soares, o político que mais tinha trabalhado em prol da adesão de Portugal. Dessa coabitação política surge uma presidência um tanto apagada, os primeiros anos há uma explosão de desenvolvimento e consumo no país, e os preparativos para a adesão também à moeda única, então denominada de ECU, hoje o Euro.
História à parte, resta-nos analisar os resultados, mas antes primeiro é preciso que se tenha em conta, qual o modelo económico adotado, e quais as consequências desse modelo para a economia e a sociedade portuguesas, havendo de facto um dado importantíssimo para compreender as mudanças políticas e ideológicas no seio da União Europeia, trata-se do antes e do depois da queda do Muro de Berlim, a decadência do comunismo soviético e a unificação alemã, colocam em xeque o Welfare state surgido após a II Guerra Mundial, e que recebeu o nome dos 30 Gloriosos, ou seja os 30 anos de paz, prosperidade e justiça social, que tentaram contrapor a promessa comunista vinda de leste, o capitalismo de rosto humano como era entendido, sabia que tudo era uma questão de tempo, o monstro russo como lhe chamavam, iria ruir, e ruiu, após isso a Europa muda de paradigma, de uma social-democracia keynesiana para o neoliberalismo.
Liberalismo esse que é idealizado a partir de 1947/8 pelo austríaco Friederich von Hayek e o estadunidense Milton Friedman, acreditavam que o Welfare State defendido pelo programa dos Trabalhistas britânicos do Labor Party, levaria ao cerceamento das liberdade individuais e que era um programa eleitoralista demagogo e demasiado coletivista, essas ideias que ambos defenderam vieram a influenciar o republicano Ronald Reagan e a conservadora Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher, desenvolvendo políticas neo-liberais, a partir dessa época em diante a influencia dos tecnocratas e dos neoliberais dentro da aparelho da UE união europeia tem vindo a aumentar com a formação do PPE Partido Popular Europeu, impondo políticas às quais os socialistas europeus do PPE pouco ou nada podem ou conseguem fazer contra diretrizes e normativas a que os estados se obrigam a respeitar e cumprir, que mais não são do que a pratica de um programa ultraliberal que visa desmantelar os Estados e privatizar todos os setores da economia em cada um dos países.
Cavaco Silva adotou o liberalismo, apostando na privatização, ainda que lenta, porque era necessário passar pelo crivo legal, pelas sucessivas revisões constitucionais, não só as que permitiram a privatização dos bens públicos, mas também as que acabaram por pôr em causa o estado social e os direitos conquistados com a Revolução dos Cravos em 1974. Para além disso, o país, adotou um modelo económico assente num tripé perigoso, 1.º) a Construção civil e a especulação que dela saiu; 2.º) a Banca e o sobreendividamento das famílias e das empresas, acabando por fim, com a falência de vários bancos após a crise do Subprime, que por sinal ainda não acabou; 3.º) as PPP's, ou seja o setor dos serviços entregue a privados das Parcerias Publico-privadas, que se traduziu no maior erro económico que algum país europeu já tenha cometido, e quem paga? É simples responder, serão as próximas três gerações futuras a ter que pagar os erros que se cometeram desde há 30 anos para cá, e sem sabermos afinal para que serviram e onde foram parar os fundos comunitários avaliados em 9 milhões de euros por dia.
Nesse sentido, ainda que as politicas adotadas em Portugal pelo governos de Cavaco Silva, tivessem trazido algum crescimento inicial, as escolhas adotadas não foram felizes como vimos no exposto acima, não é preciso muita retórica, porque hoje a realidade social do liberalismo cavaquista adotado em Portugal está à vista desde 1985, com os piores resultados sociais e económicos, dados estatístico publicados nos principais diários portugueses como o Público ou o Diário de Noticias, revelam que os portugueses hoje tem uma qualidade de vida equivalente ao ano de 1990, ou seja, em 1986 avançou-se 4 anos de qualidade de vida, de lá para cá, o país progride mas os cidadãos comuns, têm uma qualidade de vida estagnada, equivalente ao que era há 26 anos atrás, num país que é mais fácil vender um Ferrari do que um carro citadino comum, ora isso revela-nos claramente uma grave inversão das conquistas sociais, num país em que os pobres e os trabalhadores, pagam impostos para salvar bancos, da mesma maneira que pagam para além dos impostos, as taxas para poder usufruir dos cuidados de saúde básicos, como se de um luxo se tratasse.
Para além de tudo isto, resta saber, se de facto a adesão à Moeda Única (Euro) não terá sido também mais um erros estratégico, até porque se há uma grande falha nas politicas económicas elaboradas pelos governos de Cavaco Silva, é precisamente isso, a falta de um projeto nacional de longo alcance e abrangente a todos os setores da sociedade. Só por essa falha Cavaco Silva impôs aos portugueses 30 anos perdidos dentro da União Europeia, agora é tentar remediar e fazer planos com o que ainda se poder, e o que se pretende para o futuro.
Autor Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

 
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