10 ANOS

Desde julho de 2007 a debater ideias e a defender causas.

domingo, 23 de novembro de 2014

Todo o Mundo e Ninguém - Gil Vicente

A Peça Auto da Lusitânia, da autoria de Gil Vicente, escrita no Século XVI em 1531, e apresentada em 1532, cujo trecho abaixo é uma das partes do respectivo Auto[1], intitulada Todo o Mundo e Ninguém, estes são os nomes de dois personagens, o primeiro representa um mercador, a maioria e a sua arrogância, o segundo representa um pobre, a minoria, e a sua humildade, nos diálogos entre ambos, há trocadilhos que mostram a natureza da alma humana no contexto social da época, e que nos parece sempre tão atual.

Por outras palavras, Gil Vicente faz neste ato da peça uma mordaz critica à sociedade da época, a peça inteira que contém quatro atos, relata o nascimento da Lusitânia filha de Lisbea e o Sol, no entanto quero focar apenas este diálogo onde entram quatro personagens dois demónios, o Diabo Belzebu que ordena que o outro demónio, Dinato (Pessoa digna) escreva como em ata todo o diálogo entre os outros dois personagens,Todo o Mundo e Ninguém.

Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:

Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo: Mil cousas[2] ando a buscar:
                         delas não posso achar, 
                         porém ando porfiando

                         por quão bom é porfiar[3]. 

Ninguém: Como hás[4] nome, cavaleiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
                         e meu tempo todo inteiro
                         sempre é buscar dinheiro
                         e sempre nisto me fundo.


Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
               e busco a consciência.


Belzebu: Esta é boa experiência:
             Dinato, escreve isto bem.


Dinato: Que escreverei, companheiro? 

Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
              e Todo o Mundo dinheiro.


Ninguém: E agora que buscas lá? 

Todo o Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
               que tope com ela já.


Belzebu: Outra adição nos acude:
              escreve logo aí, a fundo,
              que busca honra Todo o Mundo
              e Ninguém busca virtude.


Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
                         tudo quanto eu fizesse.


Ninguém: E eu quem me repreendesse
               em cada cousa que errasse.


Belzebu: Escreve mais.

Dinato: Que tens sabido? 

Belzebu: Que quer em extremo grado
              Todo o Mundo ser louvado,
              e Ninguém ser repreendido.


Ninguém: Buscas mais, amigo meu? 

Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
               a morte conheço eu.


Belzebu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte? 

Belzebu: Muito garrida[5]:
              Todo o Mundo busca a vida
              e Ninguém conhece a morte.


Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
                         sem mo Ninguém estorvar[6].


Ninguém: E eu ponho-me a pagar
               quanto devo para isso.


Belzebu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Belzebu: Escreve
              que Todo o Mundo quer paraíso
              e Ninguém paga o que deve.


Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
                         e mentir nasceu comigo.


Ninguém: Eu sempre verdade digo
               sem nunca me desviar.


Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
              não sejas tu preguiçoso.


Dinato: Quê?

Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
              E Ninguém diz a verdade.


Ninguém: Que mais buscas?

Todo o Mundo: Lisonjear[7].

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá, mano.

Dinato: Que me mandas assentar?[8]

Belzebu: Põe aí mui[9] declarado,
              não te fique no tinteiro:
              Todo o Mundo é lisonjeiro,
              e Ninguém desenganado.




[1] Auto - Substantivo masculino, significa ato público, narração escrita, peça dramática.
[2] Cousa - Substantivo feminino, objeto ou ser inanimado, sinónimo de coisa. pl. cousas, bens.
[3] Porfiar - Verbo, significa Perseverar, insistir, teimar, altercar, contender,
[4] Has - Verbo Haver, Sinónimo de ser ou ter, neste caso equivale a "que nome tens"
[5] Garrida - Adjétivo. Sinónimo de Ressoada, badalada, muito falada, agradável.
[6] Estorvar - Verbo. Causar estorvo a alguém, embaraçar, atrapalhar, dificultar, impedir.
[7] Lisonjear - Verbo. Significa Louvar de forma afetada, adular, bajular, agradar, honrar-se.
[8] Assentar - Verbo. Fazer sentar, sinónimo de firmar, anotar, apontar.
[9] Mui - Adverbio. Diminutivo de Muito só empregado antes de adjétivos.


Por Filipe de Freitas Leal

Sobre o Autor

Filipe de Freitas Leal nasceu em Lisboa, em 1964, estudou Serviço Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiou como Técnico de Intervenção Social numa Instituição vocacionada à reinserção social de ex-reclusos e apoio a famílias em vulnerabilidade social, é blogger desde 2007, de cariz humanista, também dedica-se a outros blogs de temas diversos.

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